Nosso carro inesquecível

Todos nós, apaixonados por carros, já tivemos um que foi nosso preferido. É aquele carro que em nossas mentes é tido como inesquecível. Sorte daqueles que tiveram o discernimento de perceber que, se fosse vendido, aquele carro faria falta e deixaria muitas lembranças em aberto. Algumas vezes essa paixão não tem sequer uma explicação lógica: é pura e simplesmente uma afinidade inexplicável, outras vezes é a cor e a combinação com a roda ou aquela mecânica irretocável que nos conquista pelo conjunto da obra.

Há aquelas conquistas que acontecem pelo conjunto do design, cor, mecânica, interior, praticidade de uso, conforto e por aí vai. Na grande maioria das vezes essa paixão desenfreada não tem explicação. Feliz daquele que guardou a sete chaves seu carro inesquecível!

Mas, claro que às vezes esse carro inesquecível pode ter sido uma lembrança de criança que ficou gravada em nossas mentes. É aquele carro que, nós ainda crianças, parávamos para vê-lo desfilar em nossa frente. Outras vezes era aquele carro do pai ou do avô no qual passamos bons momentos juntos no interior da saudosa máquina. O fato é que todos nós temos um carro inesquecível guardado em nossos corações.

Eu, ao longo de minha vida, tive vários carros, uma característica minha, sempre os troquei com muita frequência, buscando a novidade, o melhor desempenho, aquele conjunto mecânico encantador e assim foi. Incontável o número de carros que tive e sem preconceitos de marca, modelo, cor ou ano de fabricação. Sempre busquei algo que atraísse a minha atenção!

Nesse mar de carros, tive o meu inesquecível e que me arrependo até hoje de ter vendido. Esse meu carro inesquecível era um BMW M3 na cor amarela, ano de fabricação 1995 que comprei ainda do primeiro dono que guardava o carro como uma joia e só passeava com ele aos domingos. Isso se o domingo fosse ensolarado! Sair na chuva? Nem pensar… A joia tinha 14 mil milhas, que corresponde a 22,5 mil quilômetros no sistema métrico. Apesar dos cinco anos, o carro ainda cheirava a novo.

Só não gostei nele foi do filme escuro colocado em seus vidros. Mas, eu sabia, um bom especialista retiraria fácil essa porcaria dos vidros, tornando o interior do M3 bem mais arejado e agradável de estar Esse BMW M3, absolutamente original, foi comprado por um preço acima de que o mercado pagava. Mas não me preocupei com isso, pois normalmente busco a qualidade do veículo sobre o preço que seu proprietário pede. De uma maneira geral, carro ruim tem preço bom e carro bom tem preço ruim — claro que para quem compra.

Esse M3 era a versão norte-americana e possuía um motor de 6 cilindros em linha, 3 litros, que produzia 240 cv e um torque máximo um pouco superior a 30 mkgf. A versão importada da Alemanha, que não era o caso do meu, era equipada com um motor semelhante, mas com admissão independente para cada cilindro, o que fazia sua potência máxima subir para saudáveis 286 cv a 7.500 rpm. Uma fera de quase 100 cavalos por litro poderosa na época. Mas, custando muito mais caro, a minha opção ficou no modelo americano.

Nessa época eu ainda tinha um péssimo hábito: mexer em tudo que a engenharia do veículo fazia. Na realidade, eu customizava o veículo de acordo com as expectativas que eu tinha dele. Assim, se ele não atendesse aos meus anseios, eu mudava seja lá o que fosse: motor, câmbio, suspensões, freios e até alterações estéticas que julgava mais conveniente para o meu gosto. Hoje, jamais faria novamente essa barbárie.

Mas, coitado do meu M3, caiu nas mãos de um Dr. Frankenstein. Turbinei o motor, que passou de 240 para cerca de 380 cv, com um aumento de torque para os 40 mkgf. Com medo de quebras usava uma pressão baixa, que não superava a casa de 0,5 bar. E o motor passou a funcionar a álcool.

As rodas forjadas originais de 17 polegadas foram substituídas por outras de 18 polegadas fundidas e com acabamento cromado. Que burrice! Na traseira adaptei um aerofólio idêntico ao do M3 alemão. Como fiz todas essas alterações com critérios técnicos que já conhecia (com exceção das rodas…), o carro ficou excelente para acelerar, frear e contornar curvas. E, esteticamente, ficou um carro ainda mais bonito: na rua ou nas estradas, outros motoristas buzinavam e ao mesmo tempo, faziam sinal de positivo aprovando o design chamativo do meu M3.

Minha família também aprovava e adorava esse carro. Para alinhar e verificar as suspensões, levava o carro sempre à famosa oficina aqui de São Paulo, Suspentécnica, de meu amigo Alberto Trivellato, o papa quando o assunto é suspensão, freios e direção.

Eu não sabia, mas aí morava minha perdição. Fui um dia à Suspentécnica e meu amigo Beto me confidenciou: “Tenho um cliente vendendo um BMW M5 que, na hora que você ver, vai fazer com que você troque seu M3 amarelo por ela”. Feliz com o meu M3, inicialmente refutei. Mas o Beto me mostrou quanto o seu cliente havia gasto com as suspensões do M5: tudo novo, que na época custou quase a metade do preço do carro.

Comecei a olhar para aquele M5 com outros olhos. E aí, errei feio. Resolvi trocar o meu carro inesquecível por uma outra aventura com um M5 qualquer. O meu M3 era tão especial que quando abri a boca para vendê-lo, tudo aconteceu como um zás-trás: Quando dei por mim, meu M3 já tinha ido embora e rodava por aí na mão de algum estranho. Que erro imperdoável!

Comprei o M5 e fiz dele gato e sapato. Até a cor do sedan eu troquei: era preto e virou vermelho. As rodas de 18 polegadas viraram aro 20 e seu motor aspirado de originais de 340 cv, transformou-se em um turbinado de 567 cv e torque astronômico que beirava a casa dos 70 mkgf. Uma fera digna de motoristas versados para poder dirigi-lo com segurança e utilizando tudo aquilo que o carro podia dar.

Minha esposa não chegava sequer perto do volante, pois tinha medo de não conseguir domar aquela fera nervosa no qual se transformou aquele pacato BMW M5. Troquei meu carro inesquecível por uma fera também inesquecível, mas principalmente por mais trabalho e problemas técnicos que essa M5 teve. Coisas de apaixonado!

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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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    WENDELCERUTTIDASILVA
    20 de julho de 2019 - 15:42

    E o motor a alcool , funcionava bem ?

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    • Douglas Mendonça
      Douglas Mendonça
      20 de julho de 2019 - 18:44

      Funcionava bem sim, Wendel. Na época eu fiz o acerto dos injetores para a vazão de etanol, então ele funcionava perfeitamente bem! Abraço.

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