Gol GTS: o amor da Carol

Hoje eu vou contar a história de amor de uma menina com seu carro, um Volkswagen Gol GTS Preto Onix 1989.

Gol GTS preto e Carol Ganho: uma relação de amor (Foto: acervo pessoal/Caroline Ganho)

Desde criança, Caroline Furatore Ganho é apaixonada por carros e nunca escondeu isso de ninguém. Enquanto meninas de sua idade colecionavam bonecas e liam as revistinhas teen, a Carol gostava de acompanhar seu pai em oficinas e colecionava amigos.

Desde pequena frequentando oficinas e no meio de carros com o pai (Foto: Acervo pessoal/Carol Ganho)

Em uma sociedade com preconceitos e muitos tabus, até então ela se privava de alimentar esta paixão, e não contava para muitos sobre seu amor pelos carros e motores, com medo de ser taxada como “muito masculina”. E olha que, mesmo assim, já questionaram até mesmo sobre sua sexualidade.

Bastante feminina, muito bonita e com uma fala doce, a Carol nutre um sentimento por automóveis que se tornou inclusive sua profissão.

Depois de quebrar vários tabus e preconceitos, a paixão pelos carros virou profissão na vida da Carol (Foto: Acervo pessoal/Carol Ganho)

Aos 15 anos deixou de se preocupar com a opinião dos outros e, incentivada por um amigo, passou a investir em seu sonho. O primeiro deles foi trabalhar no meio automotivo, quando com 16 anos de idade ingressou em uma agência de design e logo prestou vestibular da Mackenzie, ganhando uma bolsa integral de desenho industrial.

Aos 16 anos seguiu seu sonho e foi trabalhar com design e depois passou a estudar desenho industrial (Foto: Acervo pessoal/Carol Ganho)

Logo a Carol se inscreveu em um concurso de design promovido pela Volkswagen do Brasil, antes anualmente. Com duração média de 6 meses, apertava sua rotina de maneira que sua vida social foi extinta por um tempo, mas o sonho de vir a trabalhar na VW, prêmio este concedido ao ganhador do concurso, a motivava a continuar com a vida quadrupla de trabalho/faculdade/concurso/estudos, e a recompensa logo viria com a aprovação para a etapa final.

Um dos jurados era o Luiz Veiga, renomado designer do grupo Volkswagen e responsável por vários projetos conhecidos em nosso país, como os facelifts das linhas Gol (incluindo todo o projeto da segunda geração), criação do VW Fox, VW Polo nacional entre modelos e séries especiais. Como em qualquer concurso, o vencedor foi outra pessoa, mas a Carol não desistiria, afinal, havia sido a primeira mulher a chegar na final da prova.

Chegou a se inscrever novamente no concurso, mas abandonou este sonho para concluir seus estudos. Logo que se formou, foi galgando outros degraus na empresa em que trabalha até hoje, prestando inclusive serviços para a Volkswagen.

Depois do concurso, Carol decidiu seguir os estudos, mas sem abandonar seu amor pelas quatro rodas e motores. Aqui, ela com o preparador Chip Foose (Foto: Acervo pessoal/Carol Ganho)

Eis que, em 2010, Carol começou a procurar um carro para comprar, e não deveria ser qualquer carro. Desde sempre, ela dizia aos 4 ventos que seu carro predileto era um Gol quadrado. Sim, o Golzinho de primeira geração.

O modelo escolhido não era um qualquer, ele tinha sobrenome: Gol GTS. Contando com a ajuda de seu então namorado, a Carol sabia como deveria ser o modelo: de 1987 a 1990, cor preta ou cinza e preferencialmente com banco degradê cinza.

Carol precisava de um carro, e já sabia o modelo: Gol GTS de 1987 até 1990, preto ou cinza (Foto: VW/divulgação)

GTS: a história do Gol apimentado

Lançado no final de 1986 como modelo 1987, o Gol GTS substituía o Gol GT. A Volkswagen reformulou toda a linha para fugir de um plano econômico bizarro do governo Sarney, que congelava os preços de todos os produtos existentes até então, impossibilitando reajustes. Para minimizar as perdas inflacionárias, os produtos foram renomeados, sendo assim considerados novos.

Lançado em 1986 e substituindo o Gol GT, o GTS tinha linhas mais modernas e imponentes (Foto: VW/divulgação)

Mas o Gol GTS não trazia apenas um novo nome. Além do primeiro facelift, deixando-o com linhas mais modernas e imponentes, ele tinha capô mais baixo, faróis retangulares, faróis de milha e de neblina, para-choques envolventes, saias laterais, novas rodas de liga leve, aerofólio traseiro, além de um conjunto de lanternas maiores e com luz de neblina integrados.

Com o motor AP-800 e o famoso comando de válvulas 49G, levava o puro sangue de 0 a 100 km/h em 10,61 segundos com velocidade máxima de 170,052 km/h, marca excelente para um tijolinho com alto coeficiente aerodinâmico.

Utilizando o consagrado motor AP de 1.8 litro e comando de válvulas especial 049G, o Gol GTS era um esportivo elogiável (Foto: VW/divulgação)

Com 99 cv de potência ABNT declarados a 5600 rpm e 14,9 kgfm de torque a 3.600 rpm, era prazeroso de dirigir no trânsito e ao mesmo tempo arisco quando solicitado pelo pé direito. Sua estabilidade era considerada pela revista 4 Rodas como invejável para seu tempo, graças a um acerto de suspensão firme e pneus 185-60R14.

Sabe-se que a Volkswagen, para aproveitar os descontos de IPI da regra da época, ocultava sua potência real. Testes em dinamômetro revelavam 106 cv extraídos deste poderoso motor, o que se faz entender o porquê é considerado até hoje um dos melhores motores nacionais.

Apesar dos 99 cv declarados, os dinamômetros acusavam 106 cv no 1.8 do Gol GTS (Foto: VW/divulgação)

No final de 1990 recebeu um facelift, onde foi apresentada a linha 1991 e ficou ainda mais bonito, acompanhando sempre as alterações estilísticas do seu irmão GTi. O Gol GTS saiu de linha em meados de 1994, quando foi apresentada a nova geração do popular da VW. Teve um sucessor apenas em 1996, já na nova geração: o Gol TSi.

A procura por um GTS para a Carol

Mas voltando a falar da Carol, sua procura se estendeu por longos 3 anos, e as buscas variavam entre R$11.000,00 e R$15.000,00, o que hoje equivale a R$22.398,98 e R$30.544,06 respectivamente, corrigidos pelo INPC/IBGE.

Seu então namorado, mecânico, condenava todos os carros que ambos viam, e é até de se esperar pois os esportivos dos anos 80 e 90 foram muito bem usados pelos proprietários que tiveram a sorte de possuí-los. Na época, achar um exemplar em estado imaculado era impossível. Hoje essa é uma tarefa mais fácil graças os processos mais profissionais de restauração, mas com valor agregado ainda mais alto.

Na mesma época, Carol ajudava seus amigos a montar motores turbo nos finais de semana na Attack Motors, e cansada de tanto procurar, além de frustrada, tomou a decisão de comprar um VW Gol G3 2001 cinza, com motor 1.8 turbo.

Resposta inesperada

Com o processo de financiamento em andamento, eis que uma resposta inesperada em um fórum de Gol quadrado sobre a venda de um GTS foi dada, mesmo com 6 meses de atraso.

O exemplar, na cor Preto Onix e com ótima aparência, estava com a lata lisa, bancos originais vermelhos, motor turbo e rebaixado com suspensão de rosca. Ainda disponível para venda, mesmo que por um preço bastante salgado à época, R$ 17.000,00, equivalentes hoje a R$ 49.604,40, a aprovação do namorado, que era mecânico, finalmente veio, e a Carol fez o possível para comprar o carro.

De última hora, um bom negócio aparecia em uma resposta dentro de um fórum online de Gol quadrado (Foto: acervo pessoal/Caroline Ganho)

Com 2 empréstimos realizados e uma dívida assumida pelos próximos dois anos, o carro foi adquirido por telefone, e despachado do Espírito Santo para São Paulo via guincho, com prazo de uma semana para entrega. O veículo foi entregue quase 1 mês depois, com indignação de sua mãe e muito receio por parte da Carol em ter sido roubada.

Depois de muitas preocupações com o atraso na entrega, dores de cabeça na hora de buscá-lo e até multa, foram só alegrias (Foto: Acervo pessoal/Carol Ganho)

Assim que o carro finalmente chegou, a Carol e seus amigos foram buscar no pátio em Santo André. Com o tanque na reserva, muita chuva, motor turbo e uma suspensão baixa, o dia foi de fortes emoções, quando o combustível acabou em poucos metros, rendendo uma saga para reabastecê-lo, além de uma multa por pane seca.

Mas não foram só emoções ruins, pois depois de abastecido, seu amigo Leandro questionou se podia ligar o ar-condicionado, e naquele modelo, a Carol entendeu que finalmente o carro era dela, caindo em lágrimas.

Roubado…

Passados alguns dias, Carol foi com uma amiga comprar bijuteria e ao regressar, já na porta de casa, foi assaltada, tendo seu precioso GTS roubado. Corajosa, e a fim de evitar o roubo, saiu na mão com o ladrão, e viu seu pai desesperado correr atrás do meliante com um facão na mão. Nada recomendado de se fazer em situações similares.

Já na delegacia para abrir B.O., seus amigos acionaram também as redes sociais procurando o carro, e na página Sangue AP do Facebook, seu post teve 6.000 compartilhamentos em apenas 1 hora.

Logo as buscas pelo Gol GTS roubado juntaram um mutirão online e offline (Foto: acervo pessoal/Caroline Ganho)

A divulgação deu resultado, e no dia seguinte começaram as ligações sobre o paradeiro do carro. Disseram ainda que o GTS foi visto conduzido por homens, possivelmente os bandidos, e que estavam de “rolê” com uma mulher. Ah caro leitor, a Carol ficou indignada: “como assim os rapazes levaram outra mulher para andar no meu carro?!”

 …mas achado (ufa!)

Eis que a amiga, namorada do também amigo Leandro, o mesmo que buscou o carro depois da compra, ligou no dia seguinte falando que acharam o carro, mas sem nada, parcialmente desmontado.

Graças a todo o movimento das pessoas, o Gol foi localizado. Mas não estava bonito como antes… (Foto: acervo pessoal/Caroline Ganho)

E era verdade: roubaram as rodas, bancos, vários acessórios e acabamentos, restando a carroceria, painel, volante e o motor, ainda intacto.

Carol foi na favela, onde o carro foi encontrado, juntamente com outras pessoas e as rodas de ferro na mão, emprestadas de um Santana pelo seu amigo Camillo, para levar o carro para casa. Já em casa, Carol passava reto na garagem para não olhar para o carro, que permaneceu por um ano inteiro sobre cavaletes.

Com rodas de ferro provisórias no Gol, Carol usou por muito tempo um banco esportivo emprestado, e depois comprou 2 bancos Recaro de um Kadett Turim, em péssimo estado, e tornou a usar o carro para passeios e mercado, conforme mostra a foto dela e de sua mãe sentada no assoalho após fazer compras.

Depois de adaptar bancos provisórios de um Kadett Turim, Carol voltava a usar o carro em trajetos curtos (Foto: acervo pessoal/Caroline Ganho)

Convite do Discovery Turbo

Convidada para participar do programa “Vida Automotiva” do Discovery Turbo, a Carol não perderia a oportunidade de contar a história de seu quadradinho, e tão menos de reavivá-lo como ele merecia.

Carol, Gol GTS e equipe da Attack Motors no dia da gravação . Era uma excelente oportunidade de mostrar sua história e do carro ao público (Foto: acervo pessoal/Caroline Ganho)

Com apenas duas semanas para a gravação do programa, o Gol voltou a seus dias de glória. Ganhou novas rodas, no mesmo estilo das originais, porém em aro 15, novos bancos em padrão de acabamento impressionante, além dos demais detalhes necessários para que o carro aparecesse bem no vídeo.

No dia da gravação, mais um percalço quase impediu que o carro chegasse ao local combinado. Mas usando seus conhecimentos, determinação e uma ferramenta comprada por R$2,99 em um posto, o vazamento de combustível foi arrumado e a gravação foi feita. Para as filmagens do programa, foram gastos 3 tanques de etanol. Acho que foi divertido, não?! O episódio você assiste clicando aqui.

Arrancada para Mulheres

Passadas as gravações e a estreia do programa, Carol ficou conhecida nacionalmente, e veio a oportunidade onde ela realizou seu maior sonho: participar do evento Arrancada para Mulheres e pilotar no autódromo de Interlagos, local onde anos antes fazia freelance como fiscal de pista.

Com o Gol turbo raiz, ou seja, carburado e com uma suspensão de 13 anos de idade, Carol ganhou 4 de 5 puxadas, e ainda foi top 3 de melhor reação na pista.

O Gol GTS, com a Carol ao volante, se mostrou um vencedor nas arrancadas (Foto: acervo pessoal/Caroline Ganho)

O que era diversão, está sendo levado mais a sério pela loirinha: enquanto você lê esta matéria, o carro está na oficina para a instalação de um kit de injeção programável, além de mais alguns acertos mecânicos para a participação do Arrancada para Mulheres 2022.

A paixão por seu GTS é maior que as dificuldades encontradas, tanto para compra, manutenção, quanto para tirar as fotos exclusivas para esta matéria.

O amor pelo Monstro é maior que as dificuldades, encontradas até na hora de fazer as fotos exclusivas para a matéria (Foto: Amanda Ganho)

Eu explico: após a sessão de fotos, a Carol “fez arte” e, a 300 metros de casa, depois de uma “puxada”, a alta pressão estourou a mangueira de óleo. Ela “lavou” de lubrificante a rua, conseguindo estacionar em sua garagem com o motor quase seco. Mas fique tranquilo, isso também já foi arrumado, e em breve o GTS, conhecido como Monstro, trará mais alegrias para sua apaixonada proprietária.

Compartilhar:
Neto de jornalista, é formado em gestão de pessoas, tem pós em comunicação empresarial e Marketing digital. É criador dos canais Autos Originais e Auto & Autos, digital influencer e atua há 18 anos com consultoria automotiva, auxiliando pessoas a comprar carros em ótimo estado e de maneira racional. Especializou-se na história dos carros nacionais, principalmente nos modelos populares dos anos 80, 90 e 2000. Apaixonado por carros e viagens, rodou mais de 800mil km nas estradas dos países da America Latina. É também colecionador de miniaturas, emblemas automotivos, revistas automotivas e principalmente de histórias.