Hofstetter sem janelas: e na hora de pagar o pedágio?

Trabalhei por mais de 10 anos na revista Quatro Rodas e, por lá, vi todo tipo de carro estranho que você possa imaginar. Alguns deles – normalmente, os veículos fornecidos pela grande indústria nacional – chegavam a ser admiráveis para a época. Em contrapartida, também tive o contato com alguns carros inovadores e até estranhos.

Mas meu trabalho como jornalista era o de apresentar as novidades para os milhares de leitores que a revista tinha na época. Eu e os meus amigos responsáveis pela área técnica da revista testávamos e, quando não era possível, dávamos uma pequena volta no novo carro para que pudéssemos contar para os nossos leitores como era o comportamento dinâmico dele.

Era um trabalho extenuante, mas compensador para toda a equipe, porque todos éramos apaixonados pelo que fazíamos. Entre as centenas de avaliações que fiz ao longo dos anos que trabalhei lá, me lembro de histórias divertidas, algumas que já tive a oportunidade de contar nessa coluna e outras surpreendentes como a que vou relatar agora.

Era final de 1984, há quase 35 anos, e o Salão do Automóvel acontecia no centro de exposições do Anhembi, na capital Paulista. Na época ainda não existiam os carros importados, que começaram a chegar apenas no início dos anos 90. O consumidor brasileiro tinha que se contentar com os produtos oferecidos pela, ainda limitada, indústria automobilística nacional.

Como não existiam os importados, além das grandes Fiat, Ford, GM e Volkswagen, tínhamos os pequenos fabricantes que, devido à sua pequena produção, construíam chassis tubulares com carrocerias em fibra de vidro. Em 1984, umas das novidades do salão foi a apresentação de um superesportivo nacional batizado de Hofstetter.

Como Ferrari, Porsche, Maserati, Lamborghini, entre outros superesportivos mundiais chegavam ao nosso país em um volume limitadíssimo, Mario Richard Hofstetter pretendia com o seu novo produto atrair a atenção daqueles que não podiam comprar os esportivos importados por questões legais.

O novo carro tinha um design que chegava a chocar, de tão futurista. Baseado nas linhas do Alfa Romeo Carabo, um carro conceito apresentado na Europa nos anos 70, o Hofstetter possuía visual muito à frente do seu tempo. As portas, por exemplo, abriam para cima no estilo “asas de gaivota”, e em cada uma delas havia uma janela feita de fibra de vidro. Além disso, um enorme para-brisa acompanhava a forma de cunha da dianteira.

Foto: Reprodução/BestCars UOL

Praticamente um espetáculo para quem curtia carros avançados na época! Na mecânica, havia o motor 1.8 e o câmbio de 4 marchas do Gol GT, e para incrementar o desempenho, um turbo sobrealimentava o propulsor, que desenvolvia saudáveis 140 cv de potência. Naquele tempo, um número assustador.

Na revista Quatro Rodas, recebíamos sempre os carros para avaliações em primeira mão. Andávamos nos carros antes de todos, e até mesmos dos próprios construtores algumas vezes. Pois bem, recebemos o primeiro Hofstetter para teste, aquele mesmo exposto no salão, que era a primeira unidade construída.

Coube ao chefe da área técnica, Luiz Bartolomais Júnior, o primeiro teste com o Hofstetter. Como o carro não possuía janelas que abrissem, pois tudo era fixo e fechado, o ar condicionado era ligado automaticamente junto com o motor. Era isso ou motorista e passageiro morreriam sufocados ou de calor. Luiz partiu para a cidade de Limeira, no interior Paulista, onde estava localizada a pista de teste que a revista utilizava para as suas avaliações, mas foi aí que o caldo entornou.

Nosso chefe Bartô, como Luís era chamado, pegou a rodovia dos Bandeirantes rumo ao interior paulista. Na estrada existem os tradicionais pedágios e, no primeiro deles, um problema que nem o projetista do carro pode prever: como pagar o pedágio se as janelas não se abriam e o motorista ficava hermeticamente fechado? Bartô, experiente na avaliação de carros, também só percebeu isso quando chegou na cabine de pagamento. E aí, como pagar o pedágio se o carro não tinha janelas?

Percebendo esse fato naquele momento e sabendo que a passagem é bem estreita, Bartô jogou o carro totalmente para a direita e fez o inusitado: puxou o freio de mão, abriu a porta, desceu, pagou o pedágio, voltou pra dentro do carro, fechou a porta e seguiu a sua viagem. A atendente do cabine de cobrança ficou sem entender nada, até porque certamente nenhum motorista desceu do carro e pagou o pedágio como se fosse uma bilheteria de cinema.

Claro que nos pedágios seguintes ele teve que repetir a operação e, por sorte, as portas se abriam para cima, pois se fosse abertura convencional, ele teria pouquíssimo espaço para descer e voltar.

Depois dos testes realizados e a reportagem publicada, esse sério problema construtivo teve de ser resolvido pelo construtor Mario Richard Hofstetter: a exemplo de outros superesportivos mundiais, o Hofstetter passou a ter uma pequena janela corrediça, para que o motorista pudesse pagar pedágios ou simplesmente pegar tickets de estacionamentos.

Posteriormente, uma pequena janela corrediça foi colocada (Foto: Reprodução/BestCars UOL)

Imaginem um projetista pensando em um superesportivo: seu design, chassi, mecânica, acabamento interior, aerodinâmica e tudo mais, será que ele se lembraria da trivialidade de se pagar um pedágio? Claro que não! Mas a questão foi resolvida, e o Hofstetter hoje é um carro raríssimo, pois apenas 18 unidades foram fabricadas e seus proprietários não o vendem por dinheiro algum. Fatos curiosos da história de nossa indústria automobilística.

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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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