(Comparativo) Renault Novo Duster Iconic vs. Captur Bose: briga entre irmãos (quase) gêmeos

“Duster e Captur gêmeos, como assim?”. Sei que em uma primeira olhada eles não tem muito a ver, mas calma lá, já vou me explicando: falando de origem do projeto e linhas do design eles não tem nada em comum mesmo, afinal enquanto um é originalmente francês, o outro nasceu na Romênia, e cada um tem suas particularidades, mas esses dois SUVs compartilham entre si muita coisa além do logo da Renault, e provam que preço maior nem sempre significa um carro melhor. Os carros avaliados são das suas respectivas versões topo de linha, e nesse caso o Captur é quase R$9 mil mais caro que o Duster. Mas será que o Captur vale tanto assim ou é o Duster que é barato? Veremos…

Propostas diferentes, segmentos iguais

O Duster teve seu início na Romênia (foto: Lucca Mendonça)

Dando um breve relato de cada um, o Duster na realidade é um projeto da Dacia, subsidiária Romena da Renault, e nasceu em 2009 usando a base e diversos componentes do hatch Sandero (outro projeto Dacia). Com mecânica simples, opção de tração integral e oferecendo pouco luxo, ele tinha a missão de ser um SUV espaçoso, barato e bastante robusto, digno de enfrentar as severas condições climáticas e rodoviárias do Leste Europeu, África, América Central e afins. O modelo chegou aqui no Brasil como Renault Duster em meados de 2011, sendo o primeiro concorrente direto do Ford Ecosport, e conquistou o consumidor desde então pela proposta interessante e preço atraente.

Esse Novo Duster foi apresentado no nosso mercado em março de 2020, mas, na Europa, ele já marcava presença desde 2017. Na realidade, ele é uma profunda atualização da primeira geração, mantendo a mesma plataforma de 2009, mas com uma carroceria totalmente inédita, trazendo mais tecnologia e várias melhorias para manter os bons números de vendas.

Já o Captur é fruto da matriz francesa da Renault, e foi lançado em 2013 por lá, usando a moderna plataforma do hatch Clio de quarta geração. Ele, diferentemente do Duster, almejava os países da Europa Ocidental (França, Itália, Inglaterra, Portugal, Espanha, etc.), e era mais voltado para o uso urbano, por isso tem um design bem mais caprichado e estiloso, maior refinamento interno e a característica “cara de carro mais caro”.

Por aqui, o Captur chegou em fevereiro de 2017 visualmente idêntico, porém mais simplificado e bem maior que a versão europeia. O motivo disso? No Brasil, nada de base do Clio IV: ele chegou usando a mesma plataforma do Duster, garantindo dimensões mais generosas (20 cm de comprimento, 4 cm na largura, 5 cm na altura e 6 cm no entre-eixos), além de ser equipado com motorizações mais simples e fáceis de manter, também oriundas de outros modelos da marca no Brasil, e obviamente perder alguns equipamentos presentes no Velho Continente.

Captur veio da matriz francesa da Renault (foto: Lucca Mendonça)

O modelo também faz relativo sucesso em nosso mercado, batendo de frente com outros SUVs urbanos, mas nada comparado a fama do seu irmão mais bruto Duster. Hoje, aqui no Brasil, eles tem propostas parecidas (ser um SUV familiar), preços relativamente próximos e conteúdos igualmente interessantes.

Mecânica e consumo

No ponto da motorização, não tem erro, afinal eles usam exatamente o mesmo conjunto motor/câmbio nessas configurações, mas com calibragens diferentes: o moderno propulsor 1.6 16V da família SCe, com duplo comando de válvulas variável na admissão e bloco em alumínio, desenvolve até 118 cv/16,0 mkgf de torque no Captur e 120 cv/16,2 mkgf de torque no Duster, que surge a 4.000 rpm nos dois carros. A transmissão é do tipo CVT, com 6 marchas simuladas, sempre com prioridade no consumo de combustível. Na prática, apesar do peso praticamente idêntico, o Duster anda um tanto a mais, principalmente nas velocidades baixas e médias, respondendo melhor ao comando do acelerador e entregando força quando é preciso. O Captur, apesar de ter exatamente o mesmo trem de força (no final, os 0,2 mkgf de torque não fazem praticamente nenhuma diferença), é mais lento e demora mais nas acelerações, mas nada que chegue a incomodar, afinal os dois se saem bem em um dia-a-dia urbano.

O motor 1.6 16V SCe é o mesmo nos dois (foto: Lucca Mendonça)

+Na estrada a situação muda: com o torque máximo surgindo só aos 4 mil giros e o câmbio CVT focado na economia de combustível, os dois demoram pra embalar, principalmente acima dos 100 km/h, e as retomadas ou ultrapassagens requerem uma boa dose de paciência. E tudo isso ouvindo o motor gritar bastante. O outro lado da moeda desse desempenho limitado é o consumo de combustível, esse sim merecendo elogios tanto no Captur quanto no Duster: rodando a cerca de 115 km/h na rodovia, abastecidos com etanol, os dois registraram médias na casa dos 12 km/l. Na cidade, também com o combustível de cana e rodando da forma mais suave possível, as marcas de consumo dos dois ficaram entre 9,0 e 9,5 km/l.

Qual deles é mais confortável e gostoso de dirigir? E o acabamento interno?

Esse é outro ponto que eles tem muito em comum, afinal usam a mesma plataforma e mecânica básica, dando uma sensação de “eu já dirigi esse carro antes” quando se deixa um pra dirigir o outro. No geral cada um tem suas particularidades, mas ambos são confortáveis e bons de guiar (obviamente não espere a dinâmica de um carro alemão, por exemplo, mas eles agradam). Sendo praticamente 100% urbano, o Captur tem uma posição de dirigir um pouco mais baixa e cômoda, com bancos anatômicos e um rodar mais suave graças as suspensões voltadas para o conforto. Em contrapartida, ele tem um isolamento acústico mais deficiente, deixando entrar bastante barulho indesejado na cabine, inclusive de motor e transmissão.

Duster tem direção ajustável em altura e profundidade (foto: Lucca Mendonça)

Já o Duster, até pela sua proposta mais aventureira, tem uma posição de guiar mais altinha e o rodar é mais “áspero”, sendo um pouco menos confortável que o Captur. Ele ganha alguns pontos positivos pelo novo volante, mais bonito e com pega melhor, que ainda é regulável em profundidade (no Captur só existe regulagem de altura), o que ajuda bastante na hora de encontrar uma boa posição de dirigir.

O sistema de direção é exatamente o mesmo nos dois, mas com uma pequena-grande diferença: Captur conta com assistência eletro-hidráulica, mais pesada e antiga, e no Duster já temos o auxílio totalmente elétrico, que é moderno, preciso e leve na hora das manobras. Apesar de terem freios bons e eficientes (pecando apenas pelos velhos tambores traseiros), um problema em comum entre eles, assim como em Sandero/Logan que usam a mesma base, é o pedal do freio muito alto, totalmente desnivelado com o acelerador, complicando a vida de quem tem as pernas mais longas e causando um certo desconforto na hora de dirigir.

O Captur tem um design interior mais estiloso (foto: Lucca Mendonça)

Falando no acabamento interno, nenhum deles é referência no assunto:  nos dois casos é padrão o uso de bastante plástico duro e até mesmo algumas rebarbas ficam a mostra, além dos encaixes das peças que mereciam um pouco mais de atenção. Nesse ponto o Duster acaba se saindo um pouco melhor pela miscelânia de texturas e cores internas, resultando em um visual um pouco mais agradável do conjunto. Por dentro do Captur também existe um visual agradável e bonito, mas ele já sente o peso dos anos, tendo uma aparência mais simples e focando na funcionalidade.

Dimensões, espaço interno e porta-malas

Querendo ou não, os dois são utilitários pra uso da família, então precisam de bastante espaço interno e um porta-malas decente pra caber bastante coisa nas viagens. Mas essa tarefa, tanto o Captur quanto o Duster cumprem bem, com direito até a alguns méritos. Nas dimensões gerais, o Duster ganha por ser maior (4,37 m de comprimento e 1,83 m de largura, contra 4,33 m de comprimento e 1,81 m de largura do Captur), e ainda tem um porta-malas maior, com ótimos 475 litros de capacidade (contra 437 do Captur, mesmo assim ainda muito bom). O entre-eixos de ambos é o mesmo, de exatos e excelentes 2.673 mm (2,67 m), outro resultado do compartilhamento da plataforma.

O porta-malas do Novo Duster tem 38 litros a mais que o do Captur (foto: Lucca Mendonça)

Na prática os dois tem dimensões interessantes, acomodando tranquilamente quatro adultos, dois na frente e dois atrás, além de uma criança no meio do banco traseiro (colocar um adulto ali até dá certo, mas acaba ficando um pouco apertado), tudo isso sem se preocupar com as tão odiadas cabeçadas e joelhadas entre os ocupantes traseiros. Quem vai na frente também vai bem, mas o Captur leva vantagem por ter um painel mais recuado, dando uma folga maior para as pernas do passageiro dianteiro, fora a regulagem de altura dos cintos de segurança, uma coisa simples e presente até no subcompacto Kwid, mas que esse Novo Duster não tem.

Quem oferece mais conteúdo?

Os dois tem vários níveis de acabamento, mas nesse caso vamos focar nas tais versões topo de linha. Em comum, a dupla traz bastante coisa: ar-condicionado automático (com visor digital no Duster), direção com assistência, conjunto elétrico (vidros, travas e retrovisores), central multimídia com conexões Android Auto/Apple CarPlay e câmera de ré, sensor crepuscular, chave presencial (para destravamento das portas e partida do motor), sensor de estacionamento traseiro, piloto automático, luzes diurnas em LED (DRL), controles eletrônicos de estabilidade e tração, assistente de partida em rampas, rodas de liga-leve diamantadas aro 17, entre outras coisas menos importantes.

O Duster, por ser mais moderno, traz alguns mimos indisponíveis no seu irmão mais velho, como por exemplo o detector de ponto cego nos retrovisores externos, sistema Multiview Camera (com quatro câmeras externas, dispostas na frente, traseira e nos dois retrovisores externos), sistema Start&Stop, além da coluna de direção com ajuste de altura e profundidade, como já dito antes.

Enquanto isso, o Captur precisa justificar os exatos R$8.700 a mais em seu preço de tabela, então rebate com os bancos de couro de série (opcionais por R$1.700 no Duster), pintura em dois tons, airbags laterais dianteiros (o Duster só possui as duas bolsas frontais obrigatórias por lei, mesmo na versão topo de linha), luzes com função cornering light (que acendem para o lado que o volante é virado), sensor de chuva, além do sistema de som assinado pela Bose, que nomeia a versão, com quatro alto-falantes, dois tweeters dianteiros e um subwoofer colocado no porta-malas.

Multimídia do Duster é totalmente nova e melhor (foto: Lucca Mendonça)

Vale lembrar que a multimídia do Novo Duster é inédita: chamada de Easy Link, ela tem tela de 8”, layout totalmente novo (muito bonito e funcional, diga-se de passagem), e quebra uma tradição de quase 8 anos do uso ininterrupto da central Renault Media, que é figurinha conhecida em praticamente todos os modelos da marca desde meados de 2012, incluindo o Captur avaliado. Não é que esse dispositivo anterior, fabricado pela LG, seja ruim, mas mesmo passando por várias atualizações, adicionando inclusive as conexões para espelhar smartphones Android e IOS, ele já tem visual e configuração ultrapassados quando comparado com o que é oferecido pela concorrência, e a tela mediana de 7” não ajuda em nada nessa situação.

Finalmente, o mais importante: preços

Depois disso tudo, faltava saber o fator principal na hora dessa escolha: os valores que a Renault cobra por cada um. Como a gente já sabe, o Captur é posicionado acima do Duster, por isso é mais caro, mas nem sempre ele acaba sendo a melhor compra, e é exatamente isso que acontece nessas versões mais caras avaliadas: enquanto um Duster Iconic CVT equipado com os bancos de couro opcionais, como o carro das fotos, sai por R$100.990, o Captur Bose custa salgados R$107.990. Agora pare e pense: será que um sistema de som Bose mediano, airbags laterais e sensor de chuva valem R$7 mil? Colocando na balança com o porta-malas maior, multimídia bem mais moderna e o sensor de ponto-cego oferecidos pelo Duster Iconic, acho que não…

Analisando o conteúdo de cada carro e os itens que o Captur traz a mais, fica claro que o melhor negócio entre eles é pagar R$101 mil no Duster e guardar os outros R$7 mil para um bom tempo de combustível e revisões. Mas até agora estamos falando da relação custo X benefício, um ponto de vista totalmente racional, esquecendo emoções como design ou dirigibilidade, e é aí que o Captur leva a melhor: apesar de ele trazer “mais do mesmo” por um valor mais alto, tem um apelo emocional muito maior que o Duster, principalmente no quesito design. Vamos deixar essa situação mais clara e resumida: Não que o Duster seja feio, mas o Captur é mais bonito. E acreditem que isso, muitas vezes, acaba pesando mais na hora da compra do que a famosa continha do “oferece mais e custa menos”.

Basicamente, o resumo dessa novela é: se você quer pagar mais caro pra ter um carro mais bonito, digno de se orgulhar na hora de mostrar pro vizinho, e não liga muito pra os equipamentos que ele oferece, vai de Captur. Mas se o seu caso não for esse, e você preferir gastar menos em um utilitário mais “tradicionalzão” que entrega mais pelo o que cobra, leve um Novo Duster pra garagem que não tem erro.

P.S.: Ainda tá na dúvida? Vá em uma concessionária e faça um test-drive nos dois carros, você provavelmente vai ficar com o Duster…

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