O Passat peixe que mergulhou no Lago da Independência

Esse “causo” é um daqueles que nos faz até mesmo prender a respiração. Mas não de emoção, como poderíamos pensar, mas sim para não morrermos afogado mesmo. Os protagonistas desse episódio foram o proeminente advogado Dr. Mílton e o seu belíssimo Passat LS 1976 de duas portas.

Apesar da versão de três portas do Passat ser a grande novidade de 1976 para a linha, o Dr. Mílton, mais conservador, fez questão que o carro dele não tivesse aquela grande e desengonçada porta traseira, mas, simplesmente, a pequena tampa que abria apenas o porta-malas.

Então o Passat LS 1976 do Mílton tinha apenas duas portas e uma bonita cor azul-escuro. Carro sóbrio e discreto, típico de um advogado. Antes desse belíssimo Passat, ele tinha uma perua Variant 1970 na cor bordô, que servia muito bem para o seu trabalho e para o transporte da família nos fins de semana.

Mas, em 1976, o doutor achou que era hora de trocar a velha e familiar Variant por um carro mais moderno, que impressionasse positivamente sua clientela. Como sabemos, para um advogado é muito importante a imagem que os clientes fazem dele. Além do terno bem cortado pelo alfaiate, era importante também o carro em que ele se apresentava. O potencial cliente, vendo o advogado garbosamente bem vestido e transitando em um carro último tipo, era um claro indício de um profissional de Direito bem sucedido.

E o Dr. Mílton descobriu que seu novo Passat LS, com o motor 1.5 de 78 cv, além de chamar atenção pela modernidade, era um carro tecnologicamente superior aos seus concorrentes de mercado na época. O advogado rodava orgulhosamente com o seu Passat por toda a cidade de São Paulo e também fazia curtas viagens para Sorocaba para ver a família nos fins de semana.

Com o bom Passat, era só alegria! Mas, às vezes, o doutor abusava um pouco da “cangibrina”, ou seja, da bebida. Em alguns encontros com a turma da área do Direito, tomava whisky além da conta. E o que é pior: saia dirigindo com a cara cheia, como se nada tivesse acontecido. Na época, como infelizmente ainda hoje, isso era normal. E todo mundo que bebe acredita que está dirigindo muito bem, até melhor até que se não tivesse bebido. Uma grande ilusão!

Em uma noite dessas com os amigos, o Dr. Mílton encheu o caneco de whisky e depois tentou voltar para casa dirigindo o seu Passat, ainda novo. Para piorar, ainda chovia bastante. E o advogado, quando ficava assim alegre, perdia o rumo e ficava zanzando pela cidade tentando achar o caminho de volta para sua casa. Numa dessas, ele estava na avenida que dava continuidade a rodovia dos Imigrantes e, perdidinho, rumava para o monumento do Ipiranga. Lá mesmo onde, segundo a história, Dom Pedro I sacou a espada e deu o famoso grito de “independência ou morte” à corte portuguesa.

Mílton caiu direto no espelho d’água que reflete o monumento da Independência, no Ipiranga (Foto: Ciete Silvério)

O Passat e o lago

Pois bem… Noite, chovendo e o Dr. Mílton com a cara cheia de alegria rumando para o monumento da Independência. Para quem não conhece, em frente ao monumento há uma bela área com um lago, que, na realidade, é um espelho d’água com cerca de 40 cm de profundidade e que reflete tudo o que há ao redor.

E, claro, muito bem iluminado com as potentes luzes de mercúrio que dão a impressão de um dia claro. Chegando nesse ponto, Dr. Mílton estava tão perdido que, sem saber para onde ia, subiu na calçada e seguiu direto com o seu Passat para dentro do espelho d’água, como se o carro fosse um peixe. E, não deu outra: “tchibum” dentro d’água.

Ele estava tão perdido que não tinha a mínima noção do que tinha acontecido. Tentou engatar marchas e andar para frente ou para trás, claro que sem sucesso. E aí, fez aquilo que não deveria ter feito: Abriu a porta para tentar entender o que estava acontecendo. Nesse momento, para surpresa do motorista, seu Passat novinho encheu de água em questão de segundos. Foi nesse momento que ele ficou ainda mais confuso. Desceu com água quase até os joelhos e, aí, percebeu a grande bobagem que havia feito. Aquela chuva que caía em cima do doutor foi boa para despertá-lo da bebedeira e perceber o que tinha feito.

Como em uma outra ocasião, telefonou ao filho mais velho – um grande amigo meu – e pediu socorro para tirar o belo Passat daquela encrenca. Por sorte, nada foi quebrado da mecânica, o motor funcionava perfeitamente  mas a suspensão e a direção estavam ligeiramente desalinhadas.

O filho não se conformava e não conseguia entender como o carro do pai foi parar no meio do lago do monumento do Ipiranga. Perguntado pelo filho, ele respondeu: “Eu acho que as gotículas da chuva somadas a essa luz forte no para-brisa cegaram minha visão temporariamente, perdi o controle e cai no lago. Mas a culpa foi da chuva e da luz forte”.

Na cabeça do doutor, o whisky e a bebedeira não tinham nada haver com o incidente. Todo o bêbado pensa que o álcool não interfere na qualidade de sua condução e que ele está vendo e dirigindo perfeitamente bem. Se todos tivessem consciência do que a bebida faz com a qualidade de direção de um motorista, milhares de vidas seriam poupadas todos os anos.

Depois, eu acabei comprando o tal Passat, que me serviu como primeiro carro de corridas (Foto: arquivo pessoal/Douglas Mendonça)

Ainda bem que a história do Dr. Mílton acabou apenas em uma boa faxina, tanto nele quanto no carro. Só para complementar, eu fui o próximo dono desse Passat, e ele virou meu carro de corridas. Em sua estreia, larguei na nona colocação e terminei minha primeira corrida em um segundo lugar. Claro sinal que o VW continuava valente e que as bebedeiras do Dr. Mílton não interferiram na qualidade de seu monobloco. Ainda bem!!!

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Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.