O Escort XR3 voador que não sabia aterrissar

Esse causo ocorreu lá pela segunda metade dos anos 80. Pra ser mais preciso, em julho de 1987. Os protagonistas foram eu mesmo, Douglas Mendonça, o fotografo Mituo Shiguihara e um Escort XR3 de cor prata, modelo 1988. A Ford, no meio de 1987, apresentou para a revista Quatro Rodas, da qual eu era repórter especial, o seu novo XR3 para 1988. Fui encarregado de fazer os testes completos de pista: com o novo carro devidamente instrumentado, fazia provas de aceleração, retomada de velocidade, consumo em urbano e de estrada, nível de ruído e outras avaliações que compunham o teste da revista na época.

Viajávamos para a cidade de Limeira, no interior do estado de São Paulo, distante cerca de 150 km da capital, onde existe uma pista de testes, que naquele tempo pertencia à empresa Freios Varga e que era alugada pela revista para execução de suas aferições. Esse era o meu trabalho corriqueiro: viajava a Limeira, fazia todos os testes de pistas e estradas, colhia os resultados, acompanhava o fotografo nas fotos depois retornava à redação para escrever o texto daquela avaliação. Isso cerca de 3 vezes ao mês.

Claro que as fotos dependiam da criatividade de cada um dos fotógrafos que acompanhassem o teste, mas algumas ideias vinham da redação, dos editores e dos palpites que eu dava no momento das fotos, pois sabia quais eram as novidades daquele carro. Uma rotina que se repetia em todas as avaliações, em todos os meses. E, nessa estrutura, toda a equipe fazia um ótimo trabalho.

Pois bem: na avaliação daquele Escort XR3 prata modelo 1988, depois que conclui todo o meu trabalho e colhi todos os resultados dos testes, parti para as fotos, que eram a fase final do processo. Foi nesse ponto que as coisas se complicaram.

O fotografo Mituo veio com uma ideia brilhante: de que precisava fazer uma foto do novo carro voando, passando dessa forma ao leitor a impressão de que o carro era verdadeiramente rápido e que voava baixo. E o fotografo me disse com todas as letras que essa sugestão de pauta de fotos teria vindo dos editores, e que até o diretor de redação havia aprovado a ideia brilhante. Tentei argumentar que não teria problema algum em fazer o carro voar, mas que tinha certeza de que ele iria se esborrachar no chão no momento da aterrissagem.

Na época, eu era um intrépido repórter que fazia tudo que me mandassem com um carro; usava muita da experiência que havia adquirido como piloto nas corridas. Quando o assunto era dirigir, tudo para mim era fácil, por mais absurda que parecesse a manobra. Todos os argumentos que eu usei com nosso fotografo Mituo Shiguihara mostraram-se insuficientes para tirar a ideia do carro voador de sua cabeça. Se o negócio era fazer o Escort XR3 voar, eu faria!

Atrás da pista de testes, existiam canaviais repletos de estradas secundárias. Em uma dessas estradas, havia um longo aclive que voltava a ficar plano abruptamente. Lá fui eu na primeira tentativa de levantar voo com o esportivo da Ford. O fotografo, bem posicionado, já tinha focado a imagem do carro onde prevíamos que ele passaria voando. Como seria tudo muito rápido, o japonês colocou um motor drive em sua máquina, recurso que permitia fotos sequenciais, quase como se fosse um filme.

Na primeira passagem, subi a tal rampa a cerca de 70 km/h; lá no alto, o carro saltou e aterrissou numa boa. Parei e fui conversar com o Mituo para saber se a sequência tinha ficado boa e se bastava para encerrarmos nosso dia de trabalho. Claro que o japonês reclamou: afirmou que a sequência ficou ótima, mas que o carro tinha voado a apenas 20 cm de atura e ele queria que o carro voasse de meio até um metro.

Voltei a explicar a ele que, se fizéssemos o carro voar o que ele queria, a aterrissagem seria desastrosa. Ele contra-argumentou que eram ordem expressas do diretor e dos editores, e que era para eu fazer o meu trabalho. Lá fui eu na segunda tentativa, agora subindo a rampa a cerca de 100 km/h. No fim da rampa, o Escort XR3 prata voou bonito, como carro de filme americano (que, aliás, nós também não sabemos como aterrizam sem dano nenhum e qual o destino deles quando as filmagens terminam).

Desta vez, o esportivo da Ford voou cerca de 50 cm do chão e o fotografo Mituo fez uma ótima sequência para a reportagem da revista. Lindo! Mas, tudo que sobe, tem que descer pela velha lei da gravidade. Quando esse infeliz desse carro, que tinha só 1.500 km, aterrissou, foi um caos. Uma catástrofe, diriam alguns. Ele aterrissou primeiro com as rodas traseiras, com as suspensões batendo no final do curso e o para-choque raspando no chão. Depois foi a dianteira que bateu no solo em um forte impacto.

O XR3 prata foi parando vagarosamente, como um moribundo que levou um tiro. O volante, mesmo o carro estando na reta, estava virado, demostrando sérios problemas na direção e na suspensão. Quando fui abrir a porta, percebi uma fresta na parte superior, entre capota e porta: o monobloco da carroceria havia sido seriamente afetado. A porta do motorista abriu com dificuldades e as rodas dianteiras apontavam cada uma para um lado.

Acho que aquele carro estava morrendo! Novinho, jovem, ele não havia sequer sido lançado ao mercado e estava gravemente ferido, quase morto. Enquanto o fotógrafo comemorava a linda sequencia de fotos que conseguiu no voo, eu sabia que aquele carro não conseguiria sequer voltar andando para São Paulo. Como eu previa, uma catástrofe!

Para mim, coube a dura missão de avisar ao meu chefe e ao encarregado da área técnica da revista Quatro Rodas naquele momento que o carro do teste havia sido seriamente danificado na execução das fotos, o que o impossibilitaria de voltar rodando para a capital. Na época, Barthô, como era chamado, quase me comeu vivo pelo telefone, e aprendi que antes de fazer qualquer loucura que um fotografo me pedisse, deveria antes ligar para ele para perguntar se poderia ou não fazê-la.

Sem dúvida, aprendi a lição, e aprendi também que mesmo a foto mais sensacional do mundo tem seu limite em relação a segurança e também ao custo, pois essa foto sensacional, que abriu a reportagem da revista Quatro Rodas de setembro de 1987, custou nada menos que um carro, nesse caso um Escort XR3 que não havia sequer sido lançado. O saudoso Mituo Shiguihara, grande companheiro de muitas reportagens e testes, um tempo depois acabou partindo dessa para melhor quando fazia um teste de caminhão para uma outra publicação especializada. Coisas da vida!

Reportagem com Ford Escort XR3, feita por Douglas Mendonça e publicada na edição de setembro de 1987 da revista Quatro Rodas


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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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    Daniel
    20 de junho de 2019 - 12:54

    Boa tarde,Douglas,deu pena do fim que levou o Escort. Fez lembrar o destino de um dos Mustang após as filmagens do filme Bulitt. Abraço!

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      Lucca Rasera Mendonça
      21 de junho de 2019 - 02:44

      Realmente Daniel, triste fim desse Escort. Abraço!

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    Basil Sandhurst
    8 de julho de 2019 - 10:02

    LM, que história!
    Abraços.

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