A curva em que o Chevette novinho perdeu o rumo e as rodas

Como sempre, o “causo” é absolutamente verídico. Aconteceu, exatamente, no segundo semestre de 1977, mais precisamente nos últimos três meses do ano. Os protagonistas são o Chevette 1977, aquele com a primeira frente do modelo, e o meu amigo Antônio Carlos Machado, o Toninho, que cursou comigo o segundo grau do Colégio Técnico em mecânica e depois a Faculdade de Engenharia Industrial FEI. Amigo de longas datas e de muitas aventuras automobilísticas, na época do causo, estava prestes a iniciar seu curso de Engenharia Mecânica e, por isso, ganhou de seu pai um Chevette 0 km.

O Chevette chegou em boa hora e veio substituir sua Brasília 1974, que serviu muito bem ao Toninho e a nossa turma, tinha no Chevette um concorrente superior, dinamicamente falando. O Chevette, quando comparado a Brasília, fazia mais curvas, freava melhor e era um carro muito mais equilibrado para uso diário. Esses fatores, aliás, fizeram com que o Toninho trocasse sua querida Brasília pelo Chevrolet.

Devo confessar que tenho muito a ver com essa escolha. Meu pai havia comprado, em 1975, um Chevette 1973 modelo 1974, daqueles com câmbio alemão com anel para engatar a marcha à ré. Esse carro, apesar de utilizar ainda os pneus diagonais, era excelente quando o assunto era curvas. Na época, fiz o maior alarde da excelente dinâmica do carrinho e meu amigo Toninho se impressionou com o meu relato. Não faltaram oportunidades para eu mostrar para os meus amigos a ótima dinâmica do Chevette que pertencia ao meu pai. O carro era muito ágil ao comando do volante e contornava curvas como ninguém.

Como estávamos acostumados com o comportamento instável da plataforma Fusca/Brasília, ficamos impressionados com o que o pequeno sedan era capaz de fazer. As minhas propagandas do Chevette de meu pai surtiram efeito e, na primeira oportunidade, Toninho trocou sua Brasília por um. No segundo semestre de 1977, o Chevette lançado no segundo semestre de 1973 receberia sua primeira reestilização da dianteira. Era uma boa oportunidade de se comprar o carro com a frente antiga, zero km com um superdesconto nas revendas Chevrolet. Foi aí a oportunidade que o Toninho esperava para trocar seu carro.

Em poucos dias, um pouco antes do final do ano de 1977, Toninho já desfilava com o seu novo Chevette branco. Em nossa turma ele tinha o carro mais veloz em curvas, certamente. Porém foi justamente nesse aspecto que teve início o seu causo com o carro que ele tanto aguardou.

Um sábado a tarde, o Chevette ainda não tinha completado os 500 km de uso, nosso piloto amigo se deliciava com a capacidade de fazer curvas do seu novo carro que já vinha de fábrica com pneus radiais. Na zona norte da cidade de São Paulo, Toninho fazia curvas nos limites do carro. Em um trecho, havia uma pequena reta de cerca de 150 metros e uma fechada curva a esquerda. Nosso amigo Toninho pensou: “O Douglas me disse que esse carro faz muita curva e chegou a hora de comprovar isso”.

Chevette “vesgo”

O trecho que citei era um ligeiro declive, que serviu para embalar ainda mais o Chevrolet. Quando ele iniciou a curva a esquerda, descobriu que o carro não estava indo para onde o volante mandava: Ele estava derrapando na curva e o carro rumava rapidamente de lado para uma guia de calçada.

A violência do impacto foi tão grande que nosso intrépido piloto, sem o cinto de segurança, foi jogado no banco do passageiro, onde ele, provisoriamente, tinha colocado um alto-falante ligado a um rádio no painel de instrumentos. Com a bunda, ele simplesmente esmagou o tal alto-falante e, quando o carro parou, ele estava sentado no banco do passageiro com as mãos no volante e as pernas no lugar do motorista. Um tremendo susto!

Toninho apressou-se em descer do carro para avaliar os prejuízos. Estranhou ao abrir a porta do motorista que o chão estava pertinho da soleira da porta. Esse não era um bom sinal. Ao descer, descobriu que no eixo traseiro não existia mais rodas. No ato ele colocou as mãos na cabeça, em desespero. Mas o desespero aumentou quando um garoto da favela que existia logo após o local do tal acidente veio em direção a ele com uma roda e um pneu dizendo: “Olha moço, a outra roda do seu carro”. Junto com a roda e o pneu que o garoto trazia, vinha a panela de freio e um pedaço do semieixo que havia quebrado.

Nesse momento, o desespero foi completo. Ele descobriu que havia arruinado seu Chevette praticamente 0 km! Na dianteira as rodas apontavam uma para cada lado, ficaram vesgas. Não é preciso dizer que o Seu Horácio, pai de Toninho, quase o matou quando descobriu que ele simplesmente arrancou as suspensões do Chevette que havia ganhado em uma única manobra mal-feita.

Por sorte do nosso amigo, ninguém se machucou e seu pneu perdido com rodas e peças não feriu ninguém da favela. O carro tinha seguro, que pagou todo esse prejuízo, e a concessionária que o arrumou fez um trabalho perfeito, pois nosso amigo nunca reclamou de problemas de alinhamento ou comportamentos estranhos quando o carro andava. O carro foi bem consertado.

Toninho rodou mais de 60 mil km com esse carro sem problema algum. E esse causo acabou se transformando em piada na turma. Ele, bem humorado, sempre aceitou o seu erro com gargalhadas e risadas dele próprio. Infelizmente nem todos os acidentes de automóveis terminam só nos danos materiais, mas, nesse causo, a história terminou apenas com um pai bravo e boas risadas. Ainda bem!


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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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