O mistério do Passat Iraque perfeito que não saía do lugar

Este é um desses “Causos” que fazem o caboclo coçar a cabeça: como é possível um Passat novinho, ainda na garantia e funcionando perfeitamente não conseguir sair do lugar? Pois foi isso que aconteceu. Esse “causo” envolveu o Dr Milton, um proeminente advogado paulista nas décadas de 70 e 80 e o Passat que ele havia comprado 0 km. Na época, esse modelo que ele havia comprado era chamado de Passat Iraque, pois na realidade era uma sobra da exportação desses veículos para o mercado Iraquiano, que acabaram sendo vendidos no mercado nacional.

Esse modelo diferenciava-se dos Passat normais comercializados aqui pelas cores mais chamativas do estofamento interno, por ser 4 portas, pela maior potência do seu ar-condicionado, entre outras coisas. O Dr. Milton comprou um Passat Iraque pois se interessou muito pela maior potência do ar condicionado, que em nosso verão tropical, andando de terno e gravata para cima e para baixo, fazia uma boa diferença. Ele morava, desde o início dos anos 80, nas cercanias do Bairro do Brooklin, uma região de classe média alta da cidade de São Paulo.

Sempre muito ocupado e correndo por todos os fóruns da cidade, o Dr. Milton era distraído. Carro? Ele sabia que era apenas uma máquina que, quando ligada, o levava onde ele precisasse ir. Simplesmente uma ferramenta de trabalho, não se atentando aos assuntos de manutenção. Por sorte, seu filho Milton Júnior era proprietário de uma oficina mecânica de porte médio localizada na Rua Augusta, perto do centro velho de São Paulo.

Era o Júnior quem ligava para o pai cobrando a manutenção básica do carro: “Os pneus estão calibrados? Deu uma olhada no nível da água do radiador? Verificou se o nível do óleo do motor está correto?” E por aí vai. Dr. Milton quase sempre se esquecia ou não estava atento a nenhum dos pedidos do filho Júnior.

Mas, em uma segunda feira pela manhã, Milton Júnior estranhou a ligação do pai: “Não sei o que está acontecendo com o meu carro, dou a partida e ele pega normalmente, piso na embreagem, engato a primeira, acelero e o carro não sai do lugar”. Um verdadeiro mistério! Milton Júnior tentou argumentar com o pai: “Como é possível, pai? Você tem certeza que está fazendo tudo certo? O carro é praticamente novo e esses carros não costumam ter problemas com pouco uso”.

Dr Milton não gostou das desconfianças do filho e contra argumentou: “Você está querendo insinuar que eu não sei dirigir? Muito antes de você nascer, eu já dirigia”. Milton Júnior, o filho, não teve escapatória: pegou seu carro e foi em socorro do pai. Um trajeto relativamente longo de quem sai de perto do centro de São Paulo para ir ao Brooklin, mas ele fez. Chegando a casa do pai, estranhou de longe a baixa altura do Passat, que estava estacionado em frente a casa do seu pai. E pensava consigo: “O que o meu pai aprontou dessa vez? Porque é que o carro está tão baixo daquele jeito? Será que é por isso que ele não consegue andar?”

À medida em que se aproximava da casa e consequentemente do carro, as dúvidas transformaram-se em certeza: larápios, durante a madrugada de domingo para segunda, roubaram as 4 rodas e pneus do Passat Iraque e em seus lugares foram colocados tijolos, cena típica após furtos de rodas de carros.

O pobre do Passat Iraque não poderia andar, pois não tinha rodas. Dr. Milton saiu de casa, abriu o carro e entrou sem se atentar que ele estava sem rodas, quase no chão. Ele dava na partida, o motor funcionava, ele engrenava a primeira marcha, acelerava, tirava o pé da embreagem e o que acontecia era que os dois discos de freio ficavam girando no ar, sem tração para movimentar o carro. Pois ele desceu do carro, entrou em casa para ligar para o filho e não deu sequer uma olhadela para saber o que estava acontecendo.

Milton Júnior ficou possesso com o pai, tamanha foi a sua distração, que acabou custando um longo trajeto da oficina até sua casa. A solução da questão foi fácil: Foram na loja de pneus mais próxima, compraram um jogo de pneus novos com as respectivas rodas, um jogo de parafusos originais e pronto, tudo estava resolvido! O que mais chama a atenção nesse causo, foi a distração e descuido do Dr. Milton, que deixou seu Passat Iraque novinho dormir na rua mesmo com uma garagem em casa, e depois de ainda não perceber que o carro estava sem as rodas.

Sabemos que muitos motoristas são desatentos e distraídos, mas é de relativa importância que quem dirige tenha ao menos noção de algumas necessidades básicas do carro, como calibragem dos pneus, nível do líquido de arrefecimento ou quantidade de óleo no cárter do motor. E, claro, perceber também quando está faltando alguma parte ou peça essencial para o deslocamento do carro, como por exemplo as rodas.

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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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