Uno Mille, inovação do Brio ao SX Young – o Mille jovem!

Considerado carro de gênio em seus anúncios de lançamento no Brasil, o Fiat Uno trazia em 1984 como grande trunfo seu espaço interno e soluções criativas como alavanca interna para abertura do porta-malas, cinzeiro deslizante no painel, limpador de para-brisas único e todos os comandos do painel a mão por teclas, que eliminava a necessidade de o motorista tirar as mãos do volante para acionar, isso sem falar no pioneirismo em oferecer o computador de bordo opcional. Veja a história dele até 1996 clicando aqui  e aqui.

O Uno, repleto de soluções inovadoras, estreou em 1984 no Brasil (Foto: Marco de Bari/Quatro Rodas)

Dentre tantas versões, o Fiat Uno revolucionou o mercado no início de 1990 com o lançamento do Uno Mille, e com este, foi o grande responsável pela explosão de carros populares nas ruas das próximas duas décadas, lê-se décadas de 90 e 2000. Uma simples redução de 40% para 20% na alíquota do IPI vigente viabilizou o lançamento do primeiro carro popular dos novos tempos.

Baseado no Uno S, o Uno Mille teve alguns itens retirados, como: servo-freio, saídas de ar laterais, câmbio de 5 marchas (trocado por outra caixa de quatro velocidades), reclinador do encosto, apoios de cabeça, tampa do porta-luvas e acionamento elétrico do limpador de para-brisas. Como opcionais, oferecia: acendedor de cigarros, protetor para o motor e câmbio, bancos reclináveis com apoio de cabeça, câmbio de cinco marchas, filtro de ar adicional, limpador, lavador e desembaçador do vidro traseiro, protetor do tanque de combustível e servo-freio.

Equipado com o motor 1.050 do 147 em versão reduzida, o Mille perdia vários equipamentos de série (Foto: Fiat/divulgação)

Seu motor era o antigo 1050 do Uno S a gasolina e Fiat 147, mas com a cilindrada reduzida a 994cm³. Oferecia 48,8cv a 5700rpm e 7,4kgfm de torque a 3000rpm.

Um carro tão espartano e fraquinho estaria fadado ao fracasso?! O mercado dizia que não, e a Fiat provou isso com mais investimentos: em 1991 chegava a primeira versão mais requintada do popular, o Uno Mille Brio. Trazia volante espumado (o mesmo da versão CS), estofamento com tecido diferenciado, carpete azul, console e alavanca de câmbio diferenciada (também os mesmos da versão CS) e retrovisor do lado direito.

Além disso, seu motor era mais vigoroso graças a adoção de um carburador de corpo-duplo, ante o carburador de corpo simples da versão comum, maior taxa de compressão (8,6:1 ante 8,5:1) e novo ângulo de abertura e fechamento das válvulas. Agora, o motorzinho tinha 54,4cv a 5750rpm e 7,7kgfm de torque a 2750rpm.

A Fiat foi responsável por lançar tecnologias e tendências do segmento de populares, que ela reinaugurou. A primeira delas foi em 1993 com o Mille Electronic, quando a Fiat trouxe uma importante evolução técnica: ignição eletrônica do sistema de injeção eletrônica, porém usando o carburador. Confuso?!

A versão Electronic estreava o sistema de ignição eletrônica, embora ainda trouxesse o carburador (Foto: Fiat/divulgação)

Para atender às novas exigências do Proconve vigentes, a engenharia da Fiat aproveitou o sistema de ignição eletrônica do Uno 1.5 I.E., que usava sensores eletromagnéticos com sensor de detonação, uma espécie de ignição estática e por sua vez eliminava a necessidade de distribuidor, mantendo o bom e barato carburador.

Na prática essas alterações eliminavam a necessidade do uso do catalisador, permitia partidas mais fáceis, além de alguns cavalos a mais no motor, que saltava de 48,5cv a 5700rpm e 7,4kgfm de torque a 3000rpm (da versão comum) para 56,1cv a 6000rpm e 8,0kgfm de torque a 3250rpm.

Mille Electronic (Foto: Fiat/divulgação)

Além desta evolução mecânica, no mesmo ano o agora Mille (sem “Uno” em seu nome) trazia opcionalmente as 4 portas, sendo o primeiro veículo popular dos anos 90 a oferecer esta comodidade. Outro opcional ao qual reforçava o pioneirismo da Fiat no segmento era o ar-condicionado, oferecido também em 1993 – são raros os Mille Electronic com este recurso, mas existem.

De olho nos lançamentos da concorrência como GM Corsa (este fez muito barulho), o novo VW Gol – o famoso Gol bolinha (e no começo de 1995 o VW Gol 1000i), além dos então importados Ford Fiesta, Renault Twingo, entre outros menos famosos, a Fiat inovou mais uma vez em 1994 ao apresentar àquele que seria, de uma maneira forçada, o primeiro popular de luxo: o Mille ELX.

A receita deu certo: nova frente (igual as demais versões da linha Uno), novo painel, volante de 4 raios espumado, ênfase nas 4 portas e o ar-condicionado (opcionais) e um acabamento bem mais caprichado manteve o Mille forte no segmento.

O projeto 178, vulgo Fiat Palio, estava quase pronto, quando em 1995 era apresentada a linha 96 com os novos Mille I.E., em substituição ao Mille Electronic, e o Mille EP, em substituição ao Mille ELX, ambos com a tão aguardada injeção eletrônica monoponto. Falando especialmente da versão EP, trazia um bom padrão de acabamento, os mesmos opcionais do ELX (ar-condicionado e 4 portas), lanternas fumê, faróis de neblina, rodas de liga-leve, além de belas cores. O danado era bonitinho.⠀

Chegando a 58cv a 6000rpm e 8,2kgfm de torque a 3000rpm, ele era 10cv mais forte que o primeiro Mille de 1990, Ford Escort Hobby (desde 1993) e GM Corsa Wind (desde 1994), todos com 50cv, e 6 cv mais forte que o então recém-lançado VW Gol 1000i (52cv), também de 1995. Como curiosidade, o Fiat foi lançado com comerciais divertidos, como o do Mille EP subindo a ladeira.

Mas a guerra estava em curso, e para 1996 o GM Corsa traria 10cv a mais, passando a 60cv (com cambio longo e curto – versões Wind e Super), ao mesmo tempo que a Ford lançava o Fiesta nacional com 53cv e, no final do mesmo ano, o VW Gol passava a 62cv com o novo motor AT. Todos eles traziam injeção Multiponto, e o desempenho do Mille EP já não seria tão bom. A Fiat trazia no mesmo ano o Fiat Palio com 61cv, injeção multiponto e um novo conceito, ao qual eu falarei mais para frente.

E em 1997 a guerra era emocionante e não parava aí, e o Mille, claro, não ficava de fora. Ainda vendia bem, mas perdia a luxuosa versão EP e resumia a sua linha à versão única SX, cujo a missão era ser o carro mais barato da Fiat. Equipado com motor injetado (recurso que estreara na linha 1996 nas versões EP e I.E. e que elevava a potência aos 58 cv), o Mille SX trazia apenas o básico: bancos dianteiros reclináveis, calotas, para-brisa laminado e volante espumado – sim, as montadoras enchiam muita linguiça ao falar dos equipamentos de série.

Existiam opcionais como ar-condicionado, rádio toca fitas, vidros verdes, retrovisores externos com regulagem interna, vidros elétricos, limpador e desembaçador do vidro traseiro, travas elétricas, vidros laterais basculantes (para a carroceria 2 portas), desembaçador com ar quente e protetor do cárter, além das 4 portas e pintura metálica. Tal estratégia não abalou suas vendas. Cobrando R$ 9.950,00 zero Km pelo Mille SX 2 portas (equivalente hoje a R$ 78.581,34), que tinha consumo médio de 11,31km/l gasolina, a Fiat se deparou com algo inesperado: dois produtos bons de venda na prateleira, onde o Palio ganhou seu público e o Mille manteve seus fiéis clientes.⠀

Para confirmar isso, ainda em 1997 foi lançado o Mille SX Young, uma versão intermediária com 2 portas e adesivos da versão na carroceria. Trazia de série revestimento exclusivo dos bancos e forros de porta, painel de instrumentos diferenciado com fundo branco e termômetro de temperatura, tabelier cinza, pneus 165-70R13 (o SX comum ainda trazia os pneus 145SR13), para-choques cinza, vidros verdes, retrovisores externos com regulagem interna, limpador e desembaçador do vidro traseiro, travas elétricas, vidros laterais basculantes (para a carroceria 2 portas), desembaçador com ar quente e protetor do cárter.

Oferecia os mesmos opcionais disponíveis da versão SX comum, e uma proposta de outras opções de adesivo na carroceria, desconhecidas na prática. Um tanto raro, o Mille SX foi sucedido pela versão EX no final de 1998 e o SX Young foi descontinuado no início de 1999.

Sobre o EX, falarei mais para frente sobre ele e as demais versões que o sucederam, nesta longeva história que terminou em 2013 com o Mille Fire de primeira geração, e se encerra de vez em 2021 com a despedida do Fiat Uno do mercado nacional.

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Formado em gestão de pessoas, tem pós em comunicação empresarial e MKT digital, é gerente comercial por profissão e também atua há 18 anos com consultoria automotiva, auxiliando pessoas a comprar carros em ótimo estado e de maneira racional. Especializou-se na história dos carros nacionais, principalmente nos modelos populares dos anos 80, 90 e 2000. Apaixonado por carros e viagens, já rodou mais de 800mil km nas estradas deste país. É também colecionador de miniaturas, emblemas automotivos, revistas automotivas e principalmente de histórias, aqui compartilhadas.