Uma volta em Indianápolis com Émerson Fittipaldi

Alguns fatos em nossas vidas são realmente inesquecíveis, principalmente aqueles que envolvem carros e velocidade. Algumas competições são mundialmente marcantes: a 24 Horas de Le Mans, o Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1 e a lendária 500 Milhas de Indianápolis. Quem curte corridas sabe que essas provas são a expressão máxima do automobilismo mundial. Eu, particularmente, posso me orgulhar de ter estado próximo a todas elas. Essas provas foram marcantes na minha adolescência quando lia todas as informações que recebia de qualquer uma dessas corridas que na época era divulgado pela imprensa nacional. Estamos falando de meados dos anos 60 e início dos anos 70. Nessa época, as informações não chegavam até nós abundantemente como hoje e qualquer noticiazinha de qualquer um desses eventos eram devoradas por mim na adolescência e na juventude.

Tudo precisava ser garimpado. Queria saber tudo sobre cada uma delas, de seus lendários pilotos e qual foi a estratégia utilizada por cada um deles para vencê-las. Na realidade, acabei trazendo esses sonhos da adolescência e da juventude o que aumentou minha paixão pelos carros e pelas corridas. Já como jornalista experiente, tendo passado pelas competições nacionais e já tendo dedicado boa parte da minha vida profissional na Revista Quatro Rodas e posteriormente tendo iniciado em 1994 a Revista Motor Show, pude realizar o sonho de estar próximo dessas três grandes provas do automobilismo mundial. Convidado pela Audi, em 2004 fui à França ver de perto a 24 Horas de Le Mans, com que tanto sonhei na adolescência. Ver de perto aqueles carros em velocidades altíssimas, com seus faróis acesos à noite, é algo indescritível . Só estando lá para sentir essa emoção.

Por sorte, a Audi, que convidou a todos os jornalistas brasileiros, foi premiada com a vitória e seus poderosos Audi R8 equipados com o motor V-8 de 3,6 litros biturbo, cruzaram a linha de chegada da prova francesa em primeiro lugar. Uma corrida belíssima de ser vista e que me marcou mais não pela vitória da Audi, que já era esperada, mas sim pela dobradinha da Chevrolet nos quarto e quinto lugares na geral, primeiro e segundo lugares na categoria GT do seus dois Corvette. Um resultado fantástico.

Em Mônaco,infelizmente não assisti a corrida de Fórmula 1. Deve ser uma sensação fantástica ouvir o ruído estridente dos escapamentos dos Fórmula 1 em meio aos prédios e construções da cidade de Mônaco. Ficou apenas na minha imaginação os cerca de 25 carros largando juntos nas estreitas ruas do Principado monegasco. Mas, em contrapartida, tive a oportunidade de fazer toda a volta a pé do famoso circuito, acompanhado do meu grande amigo Rubens Caruso, outro apaixonado por carros e competições. Um aprendizado dos seus segredos e curvas que vi de perto e levarei para o resto de minha vida. Como é que alguém consegue acelerar um Fórmula 1 em ruas tão estreitas e com curvas tão fechadas? Só estando lá para ver…

Finalmente chegamos à 500 Milhas de Indianápolis. Em 2011, quando a famosa prova completava 100 anos de existência ( a primeira foi em 1911), um pequeno e seleto grupo de jornalistas foi convidado pela General Motors do Brasil para essa memorável prova. Eu estava nesse grupo e, para minha satisfação, um dos convidados era o bicampeão mundial de Fómula 1 Émerson Fittipaldi que, não por acaso, também venceu em duas oportunidades essa famosa e importante prova.

A grandiosidade e as festividades que cercam a 500 Milhas é um episódio à parte. Só para que se tenha uma ideia, no dia da corrida o público gira ao redor de 1 milhão de pessoas! Um fato inimaginável quando o assunto é um evento envolvendo corrida de automóvel. Dentro dessas festividades que incluíam até mesmo bandas de fanfarra, no sábado que antecedeu o domingo da corrida tive uma oportunidade que nem nos meus maiores sonhos de adolescente pensaria em realizá-lo: uma volta completa pelo circuito em um Camaro conversível pilotado por ninguém menos que Émerson Fittipaldi.

Émerson, um sujeito muito gentil e um tremendo contador de casos e historias, se prontificou a me propiciar esse momento único. Pista liberada, eu e meu respeitado amigo com os cintos de segurança devidamente afivelados, partimos pelos boxes do circuito de Indianápolis. Pura emoção! Émerson, com sua calma peculiar, foi mostrando o circuito e, ao mesmo tempo, falando de sua experiência nas duas oportunidades em que venceu a prova, 1989 e 1993.

A saída dos boxes se dá praticamente entre as curvas 1 e 2. Para quem não conhece, o circuito de Indianápolis é praticamente um retângulo com os cantos arredondados, são portanto quatro curvas, duas retas longas e duas retas curtas, num total de 4 quilômetros. Veloz, muito veloz, é assim que ele pode ser descrito. E o Camaro, também não estava para brincadeiras. O seu enorme motor V-8, empurrava com muita vontade e me surpreendeu pelo vigor de sua aceleração. Mas Émerson, continuava calmo, falando devagar e explicando tudo o que devia ser explicado. Já na curva 2, estávamos em uma velocidade bem alta. Descemos a reta e o Camaro continuava acelerando forte e Émerson deu uma dica: “Você está vendo as bandeirinhas ali no alto? Na corrida a cada volta eu olhava a posição delas, pois elas me mostravam a direção do vento e isso poderia significar eu frear antes ou depois na chegada da curva 3, uma informação muito importante”.

Chegamos à tal curva 3 no final da reta longa a cerca de 150 mph (240km/h). Émerson freou levemente o Camaro e entrou na curva. O muro ficou bem perto da minha cara e a partir do meio da curva a traseira do carro começou a escapar. Émerson, conversando comigo, chegou a cruzar os braços em um contraesterço que fez o carro retomar sua trajetória com a maior segurança, continuou acelerando até a curva 4,onde o muro se aproximou novamente de mim. Terminada a curva 4, nosso campeão se dirigiu à entrada dos boxes, onde a volta emocionante se acabava.

Entrando nos boxes em velocidade mais moderada, não resisti e fiz a brincadeira com o experiente piloto: “Você já pensou em fazer isso profissionalmente? Nessa volta que demos achei até que você leva jeito para isso…”. Nosso piloto de bate pronto respondeu”Você não é o primeiro que me diz isso, estou pensando seriamente em seguir nessa profissão de piloto!”, disse Émerson, rindo. Acontecimentos como esse são para se guardar na mente.

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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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