Uma Rural Willys sem freio morro a baixo: Quem segura?

Esse causo aconteceu quando eu ainda tinha lá pelos meus 15 anos de idade, e estava a bordo de uma Rural Willys. Minha irmã Míriam casou-se com meu cunhado Ricardo e foram morar no Paraguai, administrando as vendas das terras que se transformariam na atual cidade paraguaia de Corpus Christi, a cerca de 80 km da fronteira do Brasil, perto da cidade de Guaíra. Partimos de ônibus para visitá-los eu, minha irmã e meu cunhado, meu pai João, minha mãe Maria e meu tio Zé, irmão da minha mãe.

Fomos os quatro de ônibus de São Paulo até Londrina, no Paraná. De lá, pegamos uma condução, que eu não sei se merece o titulo de ônibus pela precariedade da condução, que serpenteava estradas de sítios e fazendas do interior do Paraná, até a cidade de Guaíra, onde meu cunhado e minha irmã nos esperavam para irmos todos juntos ao que eles, na época, chamavam de acampamento, e que no futuro se transformaria na tal cidade de Corpus Christi. Depois de quase um dia e meio dentro desse improvisado ônibus, com direito a atoleiros e quebras, chegamos na (ainda brasileira) cidade de Guaíra.

Quando todos pensamos que a epopeia já havia acabado, fomos apresentados pelo meu cunhado e minha irmã à velha perua Rural Willys que eles utilizavam como condução. Atravessaríamos o rio Paraná e viajaríamos no território paraguaio até o nosso destino. Apesar de aparentemente em bom estado de conservação, a Rural era uma perua de sítio que não sabia sequer o que era rodar no asfalto. Mesmo sendo do ano de 1964, então com apenas 5 anos de uso (esses fatos ocorreram em meados de 1969), a Rural sentia em sua mecânica o castigo das condições que rodava e a mais absoluta falta de manutenção, que naquele fim de mundo não existia.

Meu tio Zé sempre um foi um exímio motorista. Orgulhava-se de ter pertencido ao corpo de bombeiros, à Força Pública e à Polícia Militar, de onde se aposentou como tenente. Mas falava com mais orgulho do período de sua vida onde foi motorista de ônibus da Cometa, que na época escolhia os profissionais que conduziam seus coletivos de maneira muito rígida. E meu tio Zé estava entre eles. Claro que ele não perderia a oportunidade de dirigir a velha Rural em território Paraguaio. E meu cunhado Ricardo não lhe negou essa gentileza.

Estávamos em seis pessoas no interior da velha Rural, e o meu tio Zé no volante. Atravessamos de balsa o Rio Paraná até Salto de Guairá. Na frente íamos eu (no meio do banco inteiriço), meu tio Zé no volante e o meu cunhado do lado direito. No banco traseiro, meu pai, minha mãe e minha irmã, além das nossas tralhas no bagageiro da perua. Da cidade Paraguaia, pegamos uma estrada batizada de Ruta Internacional, rodovia que ligava Salto de Guairá até Assunção, a capital do país vizinho. Seria uma viagem relativamente rápida, de não mais que uma hora e meia.

Apesar de ser uma estrada extremamente larga, o piso era de terra batida, e os carros que nela trafegavam utilizavam só o meio da pista (o restante era todo esburacado e difícil de trafegar). As conversas e risadas eram muitas, contando as agruras de se chegar até lá. Em um trecho da estrada havia uma longa descida, relativamente íngreme. O velocímetro da velha perua ficava bem na minha frente e eu fui vendo os números crescendo de 6, que representava 60 km/h, para 8, que indicava 80 km/h, uma velocidade relativamente alta para uma estrada de terra. Foi nesse momento que o meu cunhado disse ao meu tio “melhor diminuir a velocidade porque no fim dessa descida tem um mata burro e uma curva fechada a direita”. Para quem não sabe, mata burro é uma daquelas pontes feitas no interior, que têm uma tábua espaçada da outra, cujo objetivo é impedir que animais passem por elas.

Meu tio, no maior silêncio, não diminuía a velocidade. E eu, no meio, ouvi o outro apelo do meu cunhado: “Tio, diminui senão a gente não vai fazer a curva”. Foi nesse momento que meu tio, com olhar meio assustado e um tom mais grave na voz, foi logo dizendo: “Diminuir como, já estou com o pé no freio desde o início da descida, e a velocidade só aumenta ao invés de diminuir”. Nesse momento já estávamos passando pelo tal mata burro a uns 70 km/h; meu tio tentou fazer a curva a direita e a Rural se inclinou com pinta de quem ia capotar, e ele, malandramente, endireitou o volante e nós fomos reto rumo a uma plantação de mandioca. A Rural pulou um pequeno barranco e adentrou no mandiocal. O barulho da derrubada dos pés de mandioca era ensurdecedor, e, logo depois, paramos.

Meu cunhado se virou para trás, perguntou se todos estavam bem e, graças a Deus, estávamos todos sem nenhum arranhão. A resistente Rural abriu uma trilha de uns 50 metros na plantação. Meu tio ligou novamente o motor que havia parado, mas não conseguia engatar a marcha ré para que voltássemos a estrada de onde tínhamos vindo. Como a Rural tinha a alavanca do câmbio embaixo do volante, os varrões que conectavam a alavanca ao câmbio estavam repletos de ramos de mandioca, que impediam os engates das marchas. Meu tio abriu o capô e meu cunhado foi arrancando os pés de mandioca de dentro do cofre do motor, até que se conseguiu engatar as marchas. Demos marcha-a-ré naquela mesma trilha que a Rural havia aberto e chegamos novamente à estrada. Ficou engraçado: Os pés de mandioca tinham de 1,8 a 2,0 metros de altura e ficou uma longa trilha que ia longe, lá pra dentro desse mandiocal. Certamente, o dono da plantação deve ter ficado bem bravo quando descobriu aquela verdadeira estrada dentro de sua plantação. E com razão.

Só para sabermos como a falta de comunicação, às vezes, pode levar a situações difíceis: meu tio dirigiu a Rural antes do ocorrido apenas em baixas velocidades, e não se deu conta que o carro não tinha freios. Meu cunhado, por sua vez, nunca disse ao meu tio para que tomasse cuidado, já que não seria fácil parar a Rural carregada. Segundo ele, como o carro só trafegava em estradas de sítio e em baixa velocidades, ele praticamente não utilizava o freio e não ligava para o fato da perua não os possuir. Além disso, por uma falha de projeto, a Rural possuía o cilindro mestre do freio e o reservatório de fluído ao lado do coletor de escapamento, e todo o calor que irradiava dessa peça fazia evaporar o fluido do sistema hidráulico.

Para quem possui ou possuiu Jeep, Rural ou a picape dessa perua, sabe que pelo menos uma vez por mês, o reservatório de fluido de freio deve ser verificado e preenchido quando necessário. Vocês acham que no cafundó do interior do Paraguai alguém vai ficar verificando se tem fluido no sistema ou se é preciso completá-lo? Claro que não! Mas para evitar o contratempo que tivemos, correndo até risco de um acidente grave, bastava que o meu tio tivesse verificado atentamente o carro antes de dirigir ou que meu cunhado o tivesse alertado sobre a insuficiência dos freios. Nem um, nem outro, e deu no que deu…

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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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