Todo o desrespeito do Brasil à José Carlos Pace

Por Ricardo Caruso

Matéria originalmente publicada no site da revista Auto & Técnica (clique aqui para ler).

A história de José Carlos Pace, o “Moco”, foi contada e recontada incontáveis vezes (veja aqui e aqui). Todos sabiam que o título da Fórmula 1 era questão de tempo, mas o que ninguém esperava ou imaginava aconteceu em 18 de março de 1977, uma sexta-feira à tarde. Marivaldo Fernandes, José Carlos Pace e o piloto de avião Carlos Roberto de Oliveira saíram do Aeroporto Campo de Marte a bordo no monomotor Sertanejo, prefixo PT-EHR, com destino à fazenda de Fittipaldi em Araraquara, onde a família de Pace os esperava. Pace, na época, estava em vias de adquirir a fazenda vizinha, por isso visitava o local com certa frequência. 

O pior aconteceu naquele dia: Pace, e os outros dois ocupantes do avião, morreram na hora (Foto: reprodução/internet)

A visibilidade estava péssima, a chuva forte chegou de surpresa e o pior aconteceu. O avião, que não podia ser operado por instrumentos, estava voando baixo na Serra da Cantareira, região de Mairiporã e acabou colidindo com uma árvore no alto de um morro. Os três tripulantes morreram na hora. Pace tinha apenas 32 anos, era casado com Elda e deixou os filhos Rodrigo e Patrícia, bem pequenos. No sábado pela manhã o seu corpo foi reconhecido e o velório ocorreu na noite daquele mesmo dia, na sede do Automóvel Clube Paulista, na avenida 9 de julho. Seu corpo foi enterrado no Cemitério do Araçá, no domingo. 

A carreira de Pace, aquele que seria campeão, soma 73 GPs em seis temporadas; a vitória histórica em Interlagos, 1975; uma pole-position, cinco voltas mais rápidas (incluindo na Áustria, a pista de maior velocidade daqueles tempos, e Nurburgring, a mais difícil); seis pódios e 58 pontos no total. Em 1985, o Autódromo de Interlagos homenageou “Môco”, rebatizando a pista com o seu nome. Um busto também foi colocado ali, registrando para sempre aquele que conquistou naquele lugar o seu maior momento de glória. 

Então, por toda importância que teve no automobilismo brasileiro, pela trajetória na Fórmula 1, pela sua história e, mesmo como qualquer outra pessoa falecida, mereceu honras e respeito? Nada disso. Poucos dias atrás recebi uma chamada de um amigo, que perguntou se eu tinha ideia de como estava a sepultura de Pace, no assolado Cemitério do Araçá. Disse que não. Havia estado lá na semana seguinte ao seu sepultamento e depois em algumas visitas esporádicas. “Está arrasado”, disse ele, “vai lá e confere”. 

O estado de conservação do seu mausoléu assusta, e, principalmente, decepciona (Foto: reprodução/São Paulo Antiga)

Fui lá, conferi e voltei arrasado, incrédulo com o que fizeram ali. O túmulo de Pace, pertencente à família D’Andrea, de sua esposa, é uma capelinha com quatro espaços no lado esquerdo (Pace está sepultado na gaveta mais alta desta fileira), e um espaço no alto, no centro. No piso, abaixo, fica talvez um ossário. Acima, no teto, uma imagem de Jesus, que presenciou o que aconteceu ali, provavelmente entristecido… O lugar simplesmente está assolado, como a maioria dos túmulos daquele cemitério. Havia uma porta trabalhada, em metal, que segundo um funcionário, foi furtada há muito tempo. Colocaram uma porta de alumínio, que também foi levada. Mofo e marcas de depredação estão por todo lado. 

O abandono é evidente. Todas as placas com os nomes das pessoas ali sepultadas foram furtadas, menos a do Pace, que fica num ponto mais alto. Mas é questão de tempo para que desapareça. Até os puxadores das tampas de concreto das sepulturas foram levados. Os criminosos não pouparam nem mesmo uma enorme placa de bronze, que ficava no lado direito, com um epitáfio em forma de poesia. 

Não bastasse toda essa afronta, na parede interna da capelinha existem buracos tapados na altura das cabeças dos sepultados. Ainda segundo o funcionário que me acompanhou, os tais buracos foram feitos para furtarem os crânios, em busca de dentes de ouro. É surreal, pois não pouparam sequer os restos mortais do piloto. Fizeram-os nas duas extremidades de cada gaveta, e isso é uma imagem assustadora. “Ficou um pedaço da bandeira do Brasil (que recobriu o caixão) para fora”, disse o funcionário. 

Uma das poucas coisas que sobrou no local: a plaqueta com a identificação de Pace, que só não foi levada ainda pois está mais alta que as demais (Foto: Ricardo Caruso)

Fico pensando que tipo de pessoa invade um cemitério à noite, viola as sepulturas, vilipendia restos mortais e não tem respeito por nada. Com o perdão da palavra, tem que ser muito, mas muito escroto para fazer isso. E fica pior e mais tocante quando se trata de um dos raros ídolos que esse pobre país teve. No fundo da capelinha ainda estão, empoeiradas, duas fotos de Pace, colocadas por alguém depois de seu sepultamento. E um maço de flores plásticas. Ele merecia mais, muito mais do que isso. 

Numa prateleira suja, dois porta-retratos com imagens desbotadas do Pace: ele merecia muito mais do que isso (Foto: Ricardo Caruso)

Saí de lá triste e envergonhado, mais uma vez decepcionado e assustado com o ser humano, se é que quem fez isso possa ser chamado de “humano”. A solução cabe à família, com todo respeito, ou mesmo aos fãs do “Moco”, claro que com aprovação da viúva Elda e dos filhos. O túmulo pode ser revestido de mármore ou granito, e ter as identificações gravadas, para evitar furtos. Muitas famílias estão fazendo isso no Araçá. Outra alternativa é que todos sejam trasladados para um mausoléu, num local mais seguro, como o cemitério do Morumbi. Essa é uma decisão que cabe à família ou amigos próximos. Infelizmente presenciei esse nojento descaso, um atentado contra a história de alguém que não merecia isso. 

Pace deve ser reverenciado, e não esquecido ou largado às traças como sua sepultura, mas tudo depende da família ou de amigos próximos (Foto: reprodução/internet)

A verdade é que José Carlos Pace deve ser reverenciado pelo ídolo que foi, no merecido descanso. A situação atual é absurda e precisa ser revertida. Culpar a administração do cemitério por não cuidar e preservar as sepulturas é apenas redundante, no meu caso, o que pude fazer foi uma oração na saída do cemitério, pedindo desculpas a todos que estão enterrados ali. 

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