Carro: Sangue, Suor e Látex (3/3)

Daqui para a frente

Dá para sermos campeões?

A seringueira toma entre cinco e sete anos para produzir, quando plantada a partir de mudas. Estas são obtidas de borbulhas, mais raramente, de sementes, que os índios usavam como fonte de hidrato de carbono. O plantio é feito, geralmente, em 8 m x 25 cm, mantendo uma área de 20 m² para cada planta. A largura entre linha garante que, nos três primeiros anos, seja possível plantar grãos, que garantem uma receita enquanto as árvores não puderem ser sangradas. As estratégias mais recentes agregam irrigação por gotejo nos cinco primeiros anos para acelerar o crescimento da planta, quando a água é cortada para obrigar a árvore a ir buscar água mais profunda, evitando que as raízes fiquem excessivamente superficiais.

O noroeste de São Paulo, com seu solo drenado, juntamente com as técnicas de cultivo e o melhoramento genético, transformaram a produtividade local em 3,5 vezes a da Malásia: 4,3 ton./ano daqui, contra 1,2 ton./ano de lá. A variação do fotoperíodo das latitudes acima dos 18° garante a desfolha entre julho e agosto, impedindo a disseminação do mal das folhas, o maior pesadelo dos eveacultores. O preço de US$3,50/kg garantem uma renda de US$15.750,00/ano contra US$1,740,00 da cana de açúcar, e o Brasil produz somente 40% da borracha que consome que, por sua vez, é só 5% das 20 ton./ano milhões do mercado mundial. Com tanto mercado, com tanta vantagem competitiva, por que o país não está coberto por seringueiras?

Colheita de Látex no Seringal de Lins, interior de São Paulo (foto: reprodução/Brasil Agro)

O látex é ou não é commodity?

Os motivos dividem-se entre de mercado agrícola e de mercado industrial. Pelo lado agrícola, apesar de o látex ser entendido como commodity, seu preço é definido pela bolsa da Malásia e não por uma localizada nos centros de consumo. Assim, o preço pago no Brasil é equivalente ao fixado em bolsa, descontados os custos de frete, o que torna vulnerável o produtor brasileiro. Ao contrário da soja e do milho, os títulos de crédito baseados em látex não têm liquidez, ou seja, o produtor tem muita dificuldade para custear sua safra vendendo antecipadamente o látex. Some-se a isso o tempo de espera para a planta começar a produzir e a atratividade do negócio diminui consideravelmente. O golpe final é a dependência das usinas, algumas delas ligadas à indústria de pneus, que têm o poder de monopsônio e ditam o preço.

O látex virou negócio da China

Para entender o lado industrial, é preciso saber que há dois tipos de látex: o branco líquido, que se destina às peças mais maleáveis como as de vedação e para uso em Medicina e Higiene, e o coágulo, que se destina aos pneus, mangueiras e outra peças que precisam suportar altas temperaturas e esforço mecânico. A extração deve ser feita com extremo cuidado, preservando o painel da planta para que ela não sofra mais que o necessário durante a sangria. Ademais, a higiene do material é imprescindível para evitar a transmissão de doenças entre elas. A diferença entre o látex líquido e o coágulo está no contato com o ar, que se deve evitar no primeiro caso. O coágulo, por sua vez, depois de ter a elasticidade atestada, nas usinas, é moído e prensado em lingotes, denominando-se o produto como GEB (gome escura brasileira). Esse é 90% do consumo da indústria.

O problema é que a indústria não está aqui. Desde que a China ultrapassou os vinte milhões de veículos ao ano, e a borracha tornou-se a matéria-prima não metálica mais empregada, o país passou a ser o maior produtor de pneus, mangueiras, e demais componentes automobilísticos do mundo, consumindo uma quantidade mais que significativa e exportando o resto, no que se vale da proximidade com o maior centro produtos do mundo, que é a Malásia.

(foto: reprodução)

Será que dá para consertar?

Mas as oportunidades para o produto brasileiro não são ruins. Em primeiro lugar, a proibição da queima da cana fez com que as áreas com mais de 9% de inclinação ficassem disponíveis, porque as colhedeiras de cana não funcionam em aclives acentuados, e o látex é mais lucrativo do que o florestamento com pinheiros e eucaliptos, cujo desfrute também é de longo prazo. Além disso, a própria China prevê que, até 2030, esteja consumindo todo o látex disponível no Sudeste Asiático, sendo ela própria obrigada a importar do resto do mundo em geral, do Brasil em particular.

Hoje, o contrabando de sementes e mudas não assusta porque o Brasil é o único país dotado de um instituto estatal como a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que se dedica exclusivamente ao desenvolvimento de novas cultivares adaptadas ao nosso solo e clima, o que nos manteria sempre à frente em produtividade. Resta ter a sabedoria que nos faltou no século XIX para manter o investimento produtivo e não torrarmos esses recursos, muito menos nos desfazer dos órgãos de pesquisa que são o verdadeiro esteio da iniciativa privada.

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Luiz Alberto Melchert
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. Dos seus 45 anos de vida profissional, dedicou 35 aos agronegócios, o que o levou a conhecer, virtualmente, todos os recantos do Brasil e suas mazelas. Em sua vida acadêmica de mais de 20 anos, lecionou as matérias de Custos, Orçamento, Operações Estruturadas, Controladoria, Metodologia Científica e Tópicos em Produção Científica. Orientou mais de 180 trabalhos de TCC e participou de, pelo menos, 250 bancas de graduação. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.