Poste doido entrou na frente! Deu pra desviar?

Todos sabemos que poste não anda, muito menos corre. O que dirá então de um poste enlouquecido que, como um suicida, entra repentinamente na frente de um carro? Papo de gente louca! Pois bem, vou contar esse “causo” que ocorreu comigo e com o, hoje, conhecido artista plástico Ciro Cozzolino, no final dos anos 70.

Ciro e sua namorada Xexa compraram juntos um Skoda modelo Octavia Super ano 1957. Um carrinho pequeno com câmbio manual de quatro marchas na coluna, tração traseira e duas portas. Em razoável estado de conservação para a época, eu e o Ruivo utilizávamos esse carrinho esquisito às vezes para irmos para a faculdade de Engenharia que cursávamos.

O problema é que o Artista (era assim que chamava o Ciro que, na época, já mostrava um grande talento nas artes plásticas, com seus quadros e esculturas. Para mim, suas obras eram esquisitas como o carro) não sabia dirigir. E tem essa dificuldade até hoje, depois de velho, com família formada e duas filhas. Num domingo a tarde, o Artista me procurou e perguntou se eu o ensinaria a dirigir com o Skoda. Como, para mim, o ato de dirigir foi sempre algo absolutamente natural, achei que fosse da mesma forma para todos. Prestativo, disse ao Ciro que poderia fazê-lo naquele mesmo instante e que dirigir era tão fácil que em 10 minutos ele já poderia estar conduzindo seu Skoda Octavia Super com a maior facilidade do mundo.

Fomos até o carrinho azul claro ligeiramente desbotado, coloquei o Artista no posto de motorista e me posicionei no banco do passageiro. Dei as instruções básicas de embreagem, freios, acelerador, mostrei a alavanca de marcha sobre o volante e ensinei a ele como deveria operar tudo aquilo. Que pretensão e inocência a minha achar que em cinco minutos de instruções verbais, mostrando o que era o cada coisa e para que servia, e a pessoa entendesse e já saísse dirigindo como um motorista profissional.

Ah se fosse fácil assim… Todos dirigiriam muito bem e o trânsito seria comportado e civilizado, exatamente como manda a lei. Pois bem, voltemos ao aluno Artista: ele ouviu o que eu disse e até foi receptivo a tudo. Talvez minhas instruções tenham sido tão seguras que até o aluno acreditou que fossem realmente fáceis. Motor funcionando, depois de deixar a máquina morrer algumas vezes, controlou bem a embreagem e aceleração e o carro saiu. Viramos a primeira travessa a esquerda para darmos uma volta no quarteirão, distância que eu julgava suficiente para que o motorista aprendesse a dirigir. Que pretensão a minha!

Pois o Artista virou bem a esquerda, conseguiu engatar a segunda marcha e o Skoda ia firme a não mais que 20 km/h em uma rua reta e longa. Eu, um instrutor confiante e seguro do que estava fazendo, estava relaxado e tranquilo pois tudo corria como eu havia planejado. Chegou o momento de virarmos novamente a esquerda, bem vagarosamente, em uma rua curta em que novamente viramos a esquerda para iniciarmos o retorno ao ponto de partida. Tudo sob o mais absoluto controle.

Skoda/Divulgação

Nessa reta final, uma coisa esquisita acontece: o motorista aprendiz subiu com duas rodas na calçada e duas continuaram na rua. Claro, que o carro começou a trafegar torto. Eu estava tão seguro como instrutor que achei que meu aluno estava fazendo uma brincadeira comigo e dirigia daquela forma para me pregar um susto. Dei uma de durão e fingi que tudo ocorria na mais absoluta normalidade. Adiante, tinha um poste, aí pensei: “Quando chegar bem perto, ele desvia e coloca o carro na rua novamente tentando me assustar”. O poste veio se aproximando e nada acontecia. E eu, dando uma de durão. Até que BUM! Batemos no poste. O susto foi de ambos: meu porque achei que ele desviaria e o dele porque não tinha a mínima noção do que estava acontecendo, nem que estava com duas rodas sob a calçada e muito menos que tinha batido em um poste.

Logo após a batida ele me olhou com cara de assustado e perguntou: “O que aconteceu?” Nesse momento me senti o instrutor mais idiota do mundo e percebi que meu aluno não sabia o que acontecera. Eu, aos berros, disse a ele: “Seu idiota, você acaba de bater em um poste!” E ele me perguntou incrédulo: “Que poste?” Era um desses postes antigos feitos em ferro fundido do antigo bairro italiano da Moóca, onde tudo aconteceu. O poste não fez um risco sequer, mas o Skoda Octávia Super saiu bem machucado: toda a dianteira direita com grade e para-choque amassados e o farol quebrado. Uma catástrofe para o velho carrinho. E o povo começou sair a rua para ver o que havia acontecido naquela via estritamente residencial. Um caos!

Desci, empurrei o Artista para o banco do passageiro e assumi o comando do carrinho. Tirei ele de lá com uma rapidez que faria inveja a um piloto de Fórmula 1 quando termina sua troca de pneus. Terminei o restinho do trajeto até a porta de sua casa e, nos 10 minutos que eu imaginava que ele já estaria dirigindo com a pericia de um profissional, voltamos com a frente do carro completamente danificada do lado direito.

O resultado final não poderia ser pior: o tão querido Skoda Octavia Super todo quebrado e o Artista tão barbeiro como começou a aula. Eu não poderia ter errado mais! O carro só não ficou mais quebrado porque não batemos a muito mais que 15 km/h e, por sorte, não nos machucamos e não ferimos ninguém. Definitivamente, descobri que não levava o mínimo jeito de instrutor de direção e que dirigir bem não significa ensinar bem a quem queira dirigir. Uma boa lição daquelas que a vida nos dá.

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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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