Os motores mais populares e longevos da nossa indústria (parte 1)

A indústria automotiva brasileira começou a florescer em meados dos anos 50, quando o então presidente Juscelino Kubitschek criou o GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística). A partir daí, incentivos governamentais e mostras do potencial de consumo do país fizeram com que a indústria avançasse a largos passos. Desde então, alguns motores marcaram presença nesses quase 70 anos da produção de automóveis no Brasil. Por isso, elenquei, em dois textos, quais os motores foram fabricados por maior tempo e em volume maior da nossa indústria, sem necessariamente estarem em ordem cronológica.
Fiat Fiasa – 28 anos
Fazendo contas e olhando o mercado, um dos motores mais populares e reconhecidos que tivemos foi o Fiasa (sigla para “Fiat Automóveis S/A”). Ele estreou em meados de 1976, no primeiro 147, ainda numa versão de 1.050 cm³, sendo aumentado logo depois para 1.300 cm³ (que originou o primeiro motor movido a álcool de produção em série). Depois de receber alterações, chegou até mesmo a ter uma versão 1.5, largamente utilizada principalmente nos veículos profissionais ou maiores, pelo maior torque. Esteve, além do 147, na Panorama, Pick-Up (depois Fiorino), Uno, Prêmio, Elba, Palio, Siena, Palio Weekend e Strada, até sair de linha em 2004. Na ocasião, era apenas 1.5 a álcool.
VW AP – 38 anos

O consagrado motor AP, da Volkswagen, foi, sem dúvidas, um dos grandes queridinhos do Brasil. Essa preferência nacional permitiu sua longevidade nos carros nacionais da marca por cerca de 38 anos. Lançado no Passat em 1974, claro que com outro nome (“BR 1.5”), depois passou a ser “BS 1.6” no Passat TS. Ainda foi reformulado em 1982, quando passou a ser chamado de MD-270, oferecido apenas na versão 1.6.

No lançamento do Santana, em 1984, recebeu a versão 1.8, passando, em 1985, a ser o famoso “AP” (“Alta Performance”), graças a bielas mais longas e pistões mais leves. Em 1988, ganhou sua maior versão, 2.0, que equipava esportivos ou modelos maiores. Saiu de linha em meados de 2012, na versão 1.6 8v da última Parati. Nesses 38 anos, graças a durabilidade, fácil manutenção e robustez, acabou ganhando confiança do público, e moveu desde Gol até Quantum. Como curiosidade, esteve também no cofre dos Ford Del Rey, Belina e Pampa, na época da Autolatina.

Renault Cléon-Fonte – 38 anos
O conceito desse motor chegou ao Brasil em 1959 com o Renault Dauphine. Com 850 cm³, quatro cilindros em linha, o pequeno e frágil motor desenvolvia não muito mais que 20 cv de potência máxima (ABNT), porém com qualidades inegáveis: consumia pouco combustível e era confiável, adequado as condições brasileiras e ao nosso combustível. Em 1962, nasceu o verdadeiro Cléon-Fonte na Europa, que era, digamos assim, o pai do motor que equipou o Ford Corcel no seu lançamento, em 1968.

Vale ressaltar que o conceito básico do motor do Dauphine, com três mancais no virabrequim, quando comparado ao verdadeiro Cléon-Fonte de 1962, com cinco mancais, era distinto, sem peças intercambiáveis. Mas o que valia aqui era o conceito, nesse caso bastante semelhante: na realidade, o Cléon-Fonte era o motor do Dauphine numa versão reforçada, com maiores potência e torque, sem perder qualidades. Ele foi longe: além dos Renault, passou para o Corcel (originalmente, um projeto Renault), Escort, Del Rey, Pampa e afins, depois chegando até mesmo nos VW Gol, Voyage e Parati nos anos 90 (graças a Autolatina, novamente).

Acabou saindo de linha em definitivo em 1997, quando existia em uma versão 1.0 8v no VW Gol 1000i, já com injeção eletrônica. De populares, passou por esportivos, utilitários, familiares, com diferentes nomes (Cléon-Fonte, CHT e AE).

GM Família I e Família II – 43 anos
Esses motores, fabricados pela Chevrolet brasileira, são frutos de um projeto original da Opel alemã, integrante do Grupo GM (também dono da nossa Chevrolet). Apesar dos nomes de batismo diferentes, basicamente são o mesmo motor, apenas com dimensões diferentes no bloco e cabeçote. Tanto é que foram projetados juntos na Europa, e apresentados simultaneamente em 1979 no Velho Continente. Aqui no Brasil, nasceram primeiro como Família II no Monza, em 1982, na versão 1.6 (depois 1.8, 2.0, 2.2 e 2.4, este último aposentado em 2016).

Já a Família I, com cabeçote e bloco menores, chegou para nós no Corsa 1994, na versão 1.0. Mas, nesse conjunto menor, a GM produziu outras configurações 1.6 e 1.8, sem contar a 1.4, todas previstas no projeto original da Opel, datado lá dos anos 70. É esse Família I que está em produção até hoje, na configuração 1.8, movendo a minivan Spin. Nos anos 2000, esse 1.8 era fornecido também para os modelos maiores da Fiat, como Doblò, Stilo, Palio Weekend, entre outros. De Monza 1982 até Spin 2025, basicamente o mesmo motor com outros tamanhos de bloco e cabeçote. São respeitáveis 43 anos. E segue contando…
VW boxer – 55 anos
O motor à ar que foi produzido pela VW para a Kombi até 2005 pode ser considerado como uma verdadeira lenda. Isso em termos mundiais! Quem é que poderia imaginar que um projeto de motor pensado pelo Dr. Eng. Ferdinand Porsche, que tinha como missão equipar um carro popular para o operariado alemão lá nos anos 30, pudesse ir tão longe. Esse motor surgiu no Brasil pela primeira vez ainda importado, nos primeiros Fusca’s, verdadeiros extraterrestes se comparados aos enormes sedans e peruas norte-americanas que entupiam nossas ruas e estradas.

O motor VW à ar debutou no mercado nacional com quatro cilindros e 1.100 cm³, passando depois para 1.200 cm³, 1.300 cm³, 1.500 cm³, 1.600 cm³ e até 1.700 cm³, para o uso exclusivo do esportivo SP2. Em que pese o fato de o motor 1200 não ter nenhuma peça intercambiável com o 1300 e cilindradas maiores, o conceito do projeto era o mesmo. O fabricante alemão reprojetou o mesmo motor, tornando-o mais robusto, durável e adequado aos sucessivos aumentos de cilindrada, potência e torque. Há quem tenha feito versões com até 2.400 cm³ nesse motor, fundindo outros blocos e cabeçotes para que isso fosse possível.

Ainda assim, basicamente e conceitualmente, falamos do mesmo motor lá dos anos 30, que só foi sair de linha em 2005, quando ainda movia a Kombi. 55 anos de bons serviços prestados aos consumidores. Apesar de obsoleto, deixa saudades.
Na próxima semana, os 3800/4100 da GM, EC5 da Peugeot/Citroën, Fire da Fiat, EA-111 da VW e F-Type da Renault. Não perca!













