O teto solar do Fusca que resfriava o chifre

Esse modismo do teto solar não vem de agora: alguns carros europeus dos anos 50 já dispunham desse descolado equipamento que, realmente, dá um charme todo especial ao carro. Além de clarear o ambiente interno do veículo, também serve para maior ventilação, como uma janela extra. E, visualmente, o carro fica com ar mais descontraído, como de um domingo de sol.

No Brasil, o primeiro carro produzido por aqui em 1956, o Romi Isetta, oferecia esse item, pensando no público jovem que também deveria comprar o carrinho. Não era o teto solar sofisticado de hoje, aquele com comando elétrico, cheio de ajustes, posições e redinhas protetoras. Na época, ele era mais rústico, aquele feito de um material plástico impermeável que se dobrava automaticamente quando aberto. Não era uma maravilha tecnológica mas funcionava muito bem.

Mas, aqui no Brasil, veio a malícia e as piadas de mau gosto dos brasileiros. Não demorou muito para que começassem os comentários maldosos de que o teto solar era um recurso utilizado por homens cujas esposas, noivas ou namoradas, não eram muito fiéis e que popularmente eram chamados de cornos. Então, quanto mais eles eram traídos, mais os chifres cresciam.

E como machos raivosos, poderiam utilizar essas presas para correr atrás de outros machos que cortejassem as suas mulheres. Claro que esses motoristas com as cabeças enfeitadas pela galhada não poderiam entrar em seus carros, pois o teto atrapalharia, então por isso o ideal para os chifrudos eram carros com teto solar. Pronto, estava criada a lenda de que carros com teto solar serviam para homens com galhadas – ou cornos se você assim o preferir.

Chega a ser impressionante como uma ideia tão boa passou a ser tão mal vista pela sociedade. Mas não se assuste: essa cultura era muito forte lá em meados dos anos 60. Ainda bem que ninguém fala mais sobre isso hoje em dia.

Chifres a parte, vamos ao causo deste episódio: exatamente no meio da década de 60, mais precisamente em 1965, a Volkswagen resolveu lançar por aqui uma versão caprichada do Fusca com teto solar. Não aquele mixuruca de material plástico do Romi Isetta, mas um teto de chapa, na cor do carro, que quando fechado deixava ver apenas um leve contorno retangular de seu formato. E olha que era preciso prestar atenção para ver que aquele carro tinha teto solar, de tão perfeito que era. Coisas de engenharia alemã.

No material publicitário de campanha de venda desse Fusca, as agências de publicidades colocavam o carro na praia com a família ou amigos, ou então fazendo piquenique no campo, sempre em condições de lazer. Isso deixava muito claro a descontração da versão equipada com esse equipamento. A Volkswagen lançou essa versão aproveitando o sucesso que fazia pela Europa e, pensando que aqui as vendas seriam mais retumbantes por conta do nosso clima tropical, acabou caindo na maldosa boca do povo, que logo começaram a chamar o Fusca com teto solar de carro de chifrudo.

Pronto, a desgraça estava feita! Ninguém queria comprar esse Fusca para não ser associado a corno. Acreditem, o carro começou a encalhar nas concessionárias, por mais bacana que fosse a versão. Um amigo, Antônio Carlos Machado, na época com cerca de 10 anos de idade, e seu pai, o português Horácio Augusto Machado, foram à concessionária Brasilwagen comprar um Fusca zero-quilômetro para a família no final de 1965.

Chegando lá, ele, garoto, foi olhar os diversos carros do showroom, maravilhado com as novidades e a diversidades de cores. Enquanto aguardava atendimento, Seu Horácio, como era chamado por nós, em um dado momento estava ao lado de um Fusca com teto solar, mas o equipamento estava fechado.

Meu amigo Antônio Carlos entrou nesse Fusquinha, animado pela novidade e pelo cheiro de carro 0 km, notou a pequena alavanca no teto. Como toda criança curiosa, foi mexer e descortinou-se a grande novidade: bastava girar a manivela e o teto do carro abria. Sua escolha de garoto estava feita: o pai iria comprar aquele carro espetacular. Ele já se imaginava passeando com o pai, em pé no banco e com a cabeça para fora do teto enquanto sentia a brisa bater em seu rosto. Logo, chamou o Seu Horácio e disse: “Pai, olha só isso, vamos comprar esse Fusca!”.

Experiente comerciante de negócios, Seu Horácio não dizia nada, apenas fazia sinal de negativo com o dedo indicador para o pedido do filho. Certamente o experiente comerciante português já tinha ouvido falar qual era a utilidade do teto solar, então não queria nem ouvir falar sobre desfilar em seu bairro em um carro que era ligado a homens chifrudos. Ele sabia das piadinhas que iria ouvir de amigos e vizinhos, então logo reprovou a escolha do filho.

Meu amigo, na época garoto, insistia com o pai para que ele viesse olhar aquela maravilha. Mas Seu Horacio nem perto do carrinho queria chegar. Deveria haver até mesmo a preocupação de algum amigo ou conhecido flagrar Seu Horácio perto do Fusca de teto solar e a partir daí virar alvo de piadas.

Hoje Antonio Carlos entende tudo que aconteceu naquela ocasião, mas na época, com 10 anos de idade, nunca entenderia porque o pai fez questão de comprar uma versão sem o teto solar e ainda ter que esperar pela entrega do Fusca comprado, que demoraria mais de 1 mês para chegar. Fusca normal tinha fila de espera, mas a versão com teto solar sobrava na concessionária, todos sem vender.

Não é preciso dizer que não existiu Fusca 1966 com teto solar. Essa raridade limitou-se a 1965, afinal foi desgraçadamente caluniado pela opinião pública da época. Hoje, carros mostram o equipamento com acionamento elétrico em uma clara demonstração de versatilidade de design das novas carrocerias. E o Fusquinha, coitado, foi difamado por estar tão a frente do seu tempo. Vai entender!

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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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