O Ford Corcel que pulava até macumba

Esse causo aconteceu lá pelo início dos anos 70, mais precisamente em 1973. Tinha como personagens meu amigo de velhas datas Alvino Pereira Júnior e o Ford Corcel 1.3 ano 1972 de seu pai, um belíssimo cupê amarelo de duas portas. Seu Alvino, o pai, utilizava o simpático Corcel para trabalhar durante a semana e, nos finais de semana, era o seu filho Júnior quem aprontava mil e uma com o Corcelzinho, que resistia bravamente aos castigos do jovem piloto.

Alvino Júnior, o filho, era meu amigo e toda vez que ele aparecia na escola com o carro do pai, sabíamos que coisas boas não estavam por vir. Júnior já demostrava nessa época seus incríveis dotes de piloto, que acabaram sendo confirmados como verdadeiros quando ele se graduou piloto e começou a competir: venceu muitas corridas, inclusive Mil Milhas e 1000 km de Brasília, fazendo dupla comigo, além de outras inúmeras provas de campeonatos regionais e nacionais. O cara é realmente bom.

Mas, voltando ao pequeno Corcel, me lembro que o Alvino Júnior contava que, nas saídas dos bailes e domingueiras, ele puxava o freio de estacionamento do carro, que bloqueava as rodas traseiras. Em seguida, virava todo o volante para um dos lados, acelerava forte o motor e tirava o pé da embreagem. O pobre Ford ficava cantando o pneu sem sair do lugar e levantando uma tremenda fumaça e, por causa do volante esterçado girava em cima do próprio eixo, como se estivesse desenhando um círculo. Essas façanhas são conhecidas como “zerinhos”. Uns aplaudiam, outros assoviavam e existiam ainda aqueles que vaiavam. O importante era que todo mundo olhava na direção do Corcel amarelo. Inclusive as meninas, que, diga-se de passagem, eram o grande centro das atenções de Alvino Júnior.

Como naquela época o Corcel ainda utilizava as famosas cruzetas em seus semieixos dianteiros, Seu Alvino, o pai, nunca entendeu porque é que tais componentes duravam tão pouco: quase toda segunda-feira ele tinha que trocar um par delas, pois estavam fazendo barulho. Seu Alvino, em sua inocência de pai, sempre perguntava aos mecânicos: “Porque o defeito aparece sempre nas segundas-feiras? As tais cruzetas têm calendário e sabem o dia da semana?” O que o Seu Alvino não sabia eram as constantes “apresentações” que seu filho fazia com seu carro. Sempre aos finais de semana, que se refletiam nas quebras da segundas-feiras.

A rampa de salto do Corcel

Aqueles que não gostam do Corcel poderiam fazer a ele todo o tipo de crítica, mas a verdade é que ele era um Renault R12, mas que aqui no Brasil foi batizado com esse nome pela Ford, que significa Cavalo Selvagem. Alvino Júnior contava que, lá na Vila Maria onde ele morava, um bairro localizado na zona norte da capital paulistana, existia uma rua calçada em paralelepípedo que consistia em uma descida muito ingrime precedida de uma ladeira mais suave que culminava com um cruzamento em sua parte mais alta.

Alvino Júnior tinha o hábito de descer essa ladeira ingrime acelerando o máximo o Corcel, que subia a rápida ladeira suave e no cruzamento em seu alto, dava um tremendo salto para então aterrizar novamente. O grande curso da suspensão do Corcel, fazia com que ela absorvesse toda a irregularidade do piso, do declive, do aclive que a sucedia e, finalmente, no salto que o carro dava no final. Segundo Alvino Júnior, o grande barato dessa brincadeira era o frio na barriga quando o carro terminava a descida e ia começar a subir e, principalmente, a sensação de vazio quando ele saltava no final da subida.

Era um loteamento novo, sem casas nem pessoas ao seu redor e os jovens sentiam-se a vontade nessa diversão de montanha Russa dentro de um carro. Em um sábado a noite, Alvino Júnior foi em busca da tal proeza. Embalou o Corcelzinho na descida, trocou todas as marchas que tinha direito, subiu a ladeira a mais de 100 km/h e saltou. O Corcel aterrizou bem, como sempre fazia, e quando Alvino foi passar no cruzamento para refazer a brincadeira, uma surpresa: haviam feito uma macumba bem no meio da encruzilhada. E ela estava lá, intacta: A galinha preta morta, a garrafa de pinga, aquele monte de velas acessa e o prato com farofa.

A conclusão dos jovens que brincavam de carro por lá foi óbvia: o Corcelzinho voou tão alto que pulou a macumba, sem derrubar a garrafa de pinga ou mesmo apagar qualquer uma das velas. Vocês pensam que eles se assustaram? De maneira nenhuma, desceram do carro para que o intrépido piloto repetisse a prova para eles saberem o quão longe o Corcel passava do despacho. Foram várias tentativas em que os jovens dentro do carro se revezavam para ver a valentia do Ford Corcel em pular a macumba. Acho que até os Santos que receberam aquele despacho ficaram maravilhados em ver o espetáculo sobre a macumba deles. E aquele cruzamento virou ponto de despacho, pois toda sexta e sábado tinha um trabalho novo para ser pulado.

Sucessor não agradou nem aos santos

Mas as coisas melhoraram e o Seu Alvino, o pai, vendeu o glorioso Corcel amarelo e comprou um Maverick azul-marinho metálico com as famosas rodas palito e pneus largos. Visualmente falando, um show de carro! Mas esse novo Ford era impulsionado pelo frouxo e antigo motor 6 cilindros, uma catástrofe que consumia mais que os motores V8 e andavam muito menos que os motores de 4 cilindros.

Maverick com motor V8 – Ford/Divulgação

Com esse, Alvino Júnior tentava cantar pneus nas portas dos bailes e ele em vez de fazer fumaça e chamar a atenção, simplesmente batia pino. Uma vergonha! A prova final, foi levá-lo para a montanha Russa dos carros. Alvino Júnior desceu o ladeirão acelerando tudo o que o lento Maverick 6 cilindros conseguia, subiu e foi para o glorioso salto sobre a macumba. Adivinhem? O Mavecão não pulou coisa nenhuma e levou a macumba inteira, com a pinga, galinha preta, velas e farofa, tudo no peito. Acabou com o despacho, seja lá de quem (e para quem) fosse.

Acho que para esse vexame do belo-Antônio Maverick 6 cilindros, os santos que iam receber aquela oferenda devem ter ficado bem bravos: a macumba inteira foi para o vinagre! E o Maverick foi vendido em poucos dias, pois o Alvino Júnior, ficou com medo da reação dos destinatários da macumba, que poderiam perseguir para o resto da vida aquele carro. Sai pra lá, azar!

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Douglas Mendonça
Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.
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