Mustang Mach 1: dançando na chuva com o novo ícone da Ford (Vídeo)

Era uma terça-feira chuvosa, com tempo fechado em São Paulo, quando eu fui convidado para ir a Interlagos conhecer a nova versão do Mustang, que a Ford começou a oferecer para alguns sortudos e selecionados compradores, que teriam a oportunidade de ter nas mãos um dos ícones dos carros esportivos mundiais: o Mustang Mach 1. Ao chegar aos boxes do autódromo, me deparei com equipes que filmavam e fotografavam alguns pouquíssimos e raros exemplares da fera, fazendo a captação de parte do material que seria disponibilizado para a imprensa algumas semanas depois.

Foto: Lucca Mendonça

Dessa vez, infelizmente, não seria eu o piloto, e sim o experiente profissional de pilotagem da Ford, Luís Gozzani, que residiu muitos anos em Detroit, trabalhando na engenharia da própria marca de lá, onde desenvolveu máquinas ferozes como esse Mach 1. Luís, aliás, é o único latino-americano que possui nível 4 na escala de pilotos de testes da Ford. Essa é a última escala dos melhores profissionais das pistas, e ele tem muito orgulho de contar isso.

Coincidência ou não, em 2004, Gozzani era o engenheiro que cuidava do carro que eu pilotava nas Mil Milhas daquela época. Agora, trocamos: ele foi o piloto, e eu seu assistente no banco do carona. No momento que íamos sair para experimentar a nova máquina da Ford, a chuva ficou mais intensa, mas isso não intimidou o experiente piloto-engenheiro Luís. Com todo esse know-how que ele adquiriu nas pistas de Detroit, eu me senti totalmente seguro, até mesmo porque eu sabia que o carro tinha largos pneus (255/40 na dianteira e 275/40 na traseira, ambos com roda aro 19).

Luiz Gozzani me “aprontando” no carro para a volta em Interlagos (Foto: Lucca Mendonça)

Talvez encontrasse dificuldades na chuva forte que caía naquele momento, mas, para a minha surpresa, o comportamento do carro foi absoluto. E, mesmo acelerando forte, o Mustang Mach 1 não desgrudava do asfalto encharcado. Na reta dos boxes, chegávamos na freada do S do Senna a cerca de 200 km/h. O carro freava firme e reto, sem nenhum desvio de trajetória. Perfeito! É tudo aquilo que se espera de um esportivo nato, do naipe de um Ford Mach 1. O carro contornou curvas de baixas e altas velocidades, para a direita e esquerda, sempre com segurança. A vontade que dava era a de sempre acelerar mais, tamanho era a firmeza do carro nas situações difíceis da pista naquele dia.

Destaque fica por conta também da performance do seu V8 Coyote de 5.0 litros, especialmente reformulado pela Shelby para que se chegasse a incríveis 483 cv a pouco mais de 7.200 rpm. O ronco desse V8 é inebriante, e qualquer um apaixonado por carro, principalmente os de alta performance, vai se sentir emocionado quando o V8 passa das 7 mil rotações, indicando o momento de se engatar a marcha seguinte. Outro destaque fica por conta da transmissão automática de 10 velocidades, que tem um tempo de troca curtíssimo, tanto nas marchas ascendentes quando nas descendentes.

Foto: Lucca Mendonça

Essa dupla motor/câmbio funciona como se fosse uma orquestra sinfônica, tamanha a precisão e harmonia com que eles trabalham. Depois de darmos algumas voltas pelo circuito em que corri tantas vezes em minha vida e inclusive ganhei competições, para mim foi uma grande emoção estar dentro desta máquina, que é pura tecnologia, fazendo esse traçado que na minha mente é tão familiar.

O novo Ford Mustang Mach 1 é pura tecnologia. Tem suspensões independentes adaptativas nas quatro rodas fornecidas pela Delphi, que podem ser calibradas de acordo com as necessidades, freios da especialista italiana Brembo (que, inclusive, fornece sistemas para a Fórmula 1), e uma direção do tipo pinhão e cremalheira com assistência elétrica, com uma calibração que permite sentir um pouco da carga do volante e uma rapidez de resposta que chega a impressionar.

Foto: Lucca Mendonça

E, é claro, não poderíamos deixar de falar do seu Ford Coyote V8 de altíssima performance, com quatro comandos de válvulas nos cabeçotes, quatro válvulas por cilindro, cabeçotes de alto rendimento volumétrico e um sofisticado sistema de alimentação que une a injeção direta para as baixas e médias rotações, e injeção direta para as rotações mais elevadas e alta performance. O resultado prático é que esse Coyote V8 rende 483 cv a 7.250 rpm, o que garante uma potência específica bem próxima aos 100 cv/litro. A transmissão automática de 10 marchas também permite ao Mach 1 estar sempre na rotação certa em que se quer acelerar para o alto rendimento. Um show onde a alta tecnologia foi pensada sempre para a boa performance.

Foto: Lucca Mendonça

Veja o vídeo institucional produzido pela Ford:

A trajetória do Mach 1

Foto: Lucca Mendonça

Esse é o Mustang Mach 1 mais potente de todos os tempos, mas sua história já vem de lá da década de 60. Seu nome de batismo não vem ao acaso: essa é a denominação da velocidade do som, que fica na casa dos 1.235 km/h (ou 767 mph). A versão deu as caras pela primeira vez em 1968, ainda como carro conceito. Feito sempre na carroceria Fastback, o Mustang Mach 1 acabou chegando ao mercado oficialmente no ano seguinte, em 1969. O carro definitivo possuía capô pintado em preto fosco com scoop (tomada de ar) e dispositivos que impediam sua abertura (os chamados “pinos de capô”).

As várias tomadas de ar espalhadas pela carroceria ajudavam a resfriar seu motor, e também davam um visual ainda mais agressivo às linhas do Mustang. Por dentro, ele se diferenciava pelo acabamento em madeira e bancos especiais de encosto alto. Assim como o carro lançado pela Ford agora em 2021, o Mach 1 de 1969 era equipado apenas com motores V8, que poderiam ter 250 hp, 290 hp, 320 hp, e, como opção mais potente, um 428 de 335 hp. Em 1971, já com um visual levemente renovado, ele ganhou uma aprimorada mecânica que fez seu motor 428 chegar aos 375 hp. Eram três opções de transmissão: manual de 3 ou 4 marchas, além de uma caixa automática de 3 velocidades.

 

Esse primeiro Mach 1 perdurou até 1978, sempre mantendo o característico espírito esportivo, e, 25 anos depois, em 2003, o mito retornava ao mercado. Agora já na quarta geração do Mustang, ele tinha uma pegada retrô, revivendo vários detalhes que remetiam ao modelo clássico original de 1969. Sob seu capô estava outro V8, desta vez um 4.6 com 32 válvulas e cabeçotes herdados do SVT Cobra, que produzia 305 cv.

Com as produções dessa linha 2003 encerradas já em 2004, era hora do Mustang Mach 1 hibernar mais uma vez, o que durou 17 anos até essa linha 2021, quando a fera despertou exatamente do jeito que vemos hoje: um dos esportivos tradicionais mais emblemáticos da história.

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Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.