Grandes esportivos importados dos anos 90: Mercedes e seus marcantes AMG

A Mercedes-Benz sempre marcou sua história no mundo automotivo com carros de competição que fizeram muito sucesso nas suas épocas. E essa tradição perdura até hoje, bastando olhar os inúmeros campeonatos mundiais, tanto de construtores quanto de pilotos na Fórmula 1, que a marca alemã vai somando em seu currículo internacional. Claro que, quem é competente assim nas pistas, não pode deixar de fazer esportivos lendários para as ruas.

Nos anos 90, a Mercedes comercializou no Brasil muitos de seus esportivos com a já consagrada preparadora de carros AMG (que significa Aufrecht, Melcher, Grosspach, ou seja, os dois primeiros nomes de seus fundadores e o terceiro a cidade onde a empresa foi fundada). Por fazer um trabalho tão sério, os dois técnicos alemães e sua empresa sediada em Grosspach acabaram por se transformar oficialmente no braço esportivo da Mercedes-Benz em todo o mundo.

C36 AMG

Foto: Mercedes-Benz/Divulgação

Aqui no Brasil, a AMG surgiu em 1994, dando nome à versão esportiva do sedan de entrada Classe C, batizada oficialmente de C36 AMG. O carro realmente se diferenciava da suavidade e tranquilidade ao rodar dos demais modelos da marca. Com suspensões mais firmes, rodas de maior diâmetro, e acabamentos estéticos que o diferenciavam do pacato Classe C normal, o C36 AMG brilhava pelo motor de seis cilindros em linha, com 3.6 litros (daí seu nome), câmbio automático de quatro marchas, além dos freios de maior capacidade.

O motor 3600, com quatro válvulas por cilindro e duplo comando no cabeçote, produzia bons 280 cv de potência máxima, com torque que beirava os 39 mkgf. Esses números de força, não por acaso, eram muito semelhantes àqueles produzidos pelo motor também de seis cilindros em linha com 3.0 litros da BMW M3, que rendia 286 cv (na versão alemã). Claro que, como sempre, ambos eram concorrentes ferrenhos pelo mesmo consumidor.

Com esse conjunto motriz, a C36 AMG acelerava de 0 a 100 km/h em aproximadamente 6,7 segundos, com a velocidade máxima limitada eletronicamente em 250 km/h. Um desempenho de tirar o fôlego para meados dos anos 90, principalmente quando falamos de um sedan de luxo. Com a carroceria W202, o C36 AMG foi evoluindo e, no seu último ano, em 1997, o motor já produzia um pouco a mais de potência, e ele já ostentava um novo câmbio automático de 5 marchas.

Uma curiosidade é que ele foi feito de forma artesanal: assim como acontecia nos BMW M, esses Mercedes saíam da planta de Stuttgart como C-280 comuns, que eram encaminhados à sede da AMG para a transformação em C36, e esse processo durou até o término da produção do modelo, em 1997. Ao todo, foram fabricadas cerca de 5.200 unidades em aproximadamente 4 anos de produção.

C43 AMG

Foto: Mercedes-Benz/Divulgação

No final de 1997, a C36 AMG saiu de cena, deixando seu lugar para a C43 AMG. Utilizando a mesma velha carroceria W202, a nova integrante da família AMG tinha sob seu capô um novo propulsor V8 de 4.3 litros que produzia saudáveis 310 cv e um torque máximo respeitáveis 41,8 quilos.

Ainda usando o mesmo câmbio automático de 5 marchas da C36, a novidade esportiva da Mercedes-Benz partia da imobilidade e chegava aos 100 km/h em 5,7 segundos, com a velocidade máxima sempre limitada em 250 km/h, como mandava a legislação alemã. Sem o limitador eletrônico, o carro chegava fácil aos 270 km/h. Ao contrário da sua antecessora, a C43 passou a sair da mesma linha de montagem dos demais modelos da Classe C, não sendo mais feita artesanalmente nas instalações da AMG. Vendido no Brasil somente em 1998 e 1999, ele se despediu do mercado mundial em 2000, após 4.200 carros fabricados.

E55 AMG

Foto: Mercedes-Benz/Divulgação

Já como marca consagrada e respeitada mundialmente pela qualidade e confiabilidade de seus modelos esportivos, a AMG começou a produzir outra lenda: o E55, que foi lançado na Europa em 1998. Utilizando a carroceria W210 do sedan intermediário Classe E, que já possuía sistema de suspensões independentes nas quatro rodas, o E55 era equipado com o motor V8 de 5.5 litros (na realidade, 5.439 cm³), que acabou sendo utilizado em outros modelos da linha AMG. A transmissão era sempre automática, e tinha 5 velocidades.

A usina de força V8 de 5.5 litros não era para brincadeiras, e com suas quatro válvulas por cilindro e duplo comando no cabeçote, produzia vigorosos 354 cv com abundantes 54 mkgf de torque. Com esse poderoso conjunto motriz, o pesadão E55, com seus mais de 1.600 kg, chegava aos 100 km/h em 5,9 segundos. A velocidade máxima ainda eram os mesmos 250 km/h, mas, sem o limitador, o modelo alcançava os 280 km/h. Saindo de linha em 2002, a E55 AMG foi um sucesso total de vendas: cerca de 12 mil carros foram fabricados em cerca de quatro anos.

ML55 AMG

Foto: Mercedes-Benz/Divulgação

A ML55 AMG, derivada do ML Class carroceria W163, foi, sem sombra de dúvidas, uma jogada ousada da Mercedes com sua divisão esportiva. Imaginem, no final dos anos 90, a proposta de um veículo utilitário (SUV, ou Sport Utility Vehicle), com uma pegada esportiva para ruas, estradas e off-roads. Parecia uma coisa sem sentido: um carro bom de curva, freio, aceleração e velocidade, feito em cima de um veículo concebido para andar com a família no fora-de-estrada. Aparentemente, sem cabimento!

Mas os alemães da AMG foram trabalhando essa ideia louca que, aos poucos, foi tomando forma. Colocaram no recém-lançado SUV da Mercedes o potente motor V8 de 5.5 litros, e também a mesma transmissão automática de 5 marchas do sedan E55 AMG. Foram adequando a altura da carroceria, as molas e amortecedores e as barras estabilizadoras para estabilizar e tornar seguro o alto centro de gravidade do SUV ML. E não é que o tal utilitário literalmente esportivo, depois de muito trabalho de engenharia, foi se transformando em um veículo rápido, seguro e com proposta Sport?

Em 1999, aquilo que parecia ser um Frankenstein, transformou-se em um carro familiar bem agradável pra quem gosta de andar rápido. Claro que o motor V8 perdeu um pouquinho de sua força para se tornar mais adequado ao maior peso e altura do utilitário ML: a potência máxima caiu de 354 para 350 cv, para torna-lo mais dócil em seu novo lar na ML55 AMG. Mesmo assim, esse utilitário doidão fazia de 0 a 100 km/h em 6,9 segundos, atingindo os 232 km/h de velocidade máxima. Um espanto para um carro desse porte e segmento na época!

Só para se traçar um paralelo com um modelo atual da mesma categoria, o VW Tiguan R-Line, com seu motor 2.0 turbo de 220 cv e 35,5 mkgf de torque, cumpre a prova de 0 a 100 km/h em 6,8 segundos, atingindo a máxima de 223 km/h. Em um hipotético racha, o Mercedão V8 e o atual Tiguan disputariam lado a lado, com a vantagem do motor turbo no VW, o que garante retomadas de velocidade mais vivas. Mais de 11 mil unidades da ML55 AMG deixaram as linhas de produção da Mercedes-Benz durante mais ou menos 5 anos.

Até hoje, a maioria dos modelos de carros da Mercedes-Benz tem suas variações AMG, e a divisão esportiva, inclusive, acabou virando até marca própria em algumas situações (no caso do AMG GT, por exemplo). Um nome de peso e sucesso indiscutíveis dentre os carros esportivos de rua e que, a cada lançamento, só faz aumentar a quantidade de fãs e amantes dos consagrados AMG.

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Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.