Fittipaldi e velocidade são quase sinônimos, mas o guarda não sabia disso

Foto de capa: Fernanda Freixosa/Stock Car

Esse causo ocorreu lá pelo início dos anos 90 e envolveu nosso amigo Wilson Fittipaldi Júnior, carinhosamente chamado pelos amigos de Wilsinho, e um Mercedes que ele utilizava para se locomover pelo estado de São Paulo naquela época. Wilson é o filho mais velho do clã Fittipaldi, encabeçado pelo saudoso Barão Wilson Fittipaldi, e que tinha como outro famoso filho o bicampeão mundial de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi.

Wilsinho foi piloto de Fórmula 1 nas temporadas de 1972 e 1973 pela equipe Brabham, e na temporada de 1975, já com seus carros, os Copersucar-Fittipaldi FD01, FD02 e FD03. É importante ressaltar o arrojo e a ousadia de Wilsinho, que estruturou uma equipe de F1 aqui no Brasil e teve a coragem de fundar a primeira equipe e construtora da Fórmula 1 em toda a América Latina. Um feito imbatível até hoje.

Além de pilotar, Wilsinho estruturou a equipe Copersucar no cenário da Fórmula 1 nacional do início dos anos 70 (Foto: reprodução/Jornal Tribuna Ribeirão)

Wilsinho viajava pelo interior do estado de São Paulo para visitar a fazenda da família e resolver alguns problemas de ordem administrativa, normais para quem tem esse tipo de agronegócio. Havia sido um final de semana péssimo e tudo aquilo que precisava ser feito e resolvido não deu certo. Foram uns daqueles dias que pareciam noites. Acontece com todo mundo, até com nosso internacional piloto.

No final do domingo em que tudo dava errado, nosso querido Wilson Fittipaldi resolveu retornar para sua casa em São Paulo. Acostumado de que nem todos os dias são de glória – afinal de contas Wilsinho havia sido chefe da equipe Copersucar-Fittipaldi de 1976 até 1980, quando teve como principal piloto seu irmão mais novo, Emerson Fittipaldi – sabia que as dificuldades diárias são absolutamente normais, quer seja cuidando de uma equipe de Fórmula 1 ou administrando uma fazenda.

Como todo Fittipaldi, Wilsinho não andava devagar, mas tinha como mérito a capacidade de saber o que fazia quando estava atrás de um volante. Voltava da fazenda pela Via Anhanguera, uma importante rodovia que liga a capital ao interior de São Paulo em pista dupla, o que permite boas velocidades médias nas viagens mais longas. Já de noite, vinha rápido com seu Mercedes, algo ao redor dos 200 km/h, quando foi surpreendido com um flash de luz. No mesmo momento, olhou o velocímetro e pensou: “Acho que algum radar me pegou”. Reduziu um pouco sua velocidade e, logo adiante, percebeu que quatro viaturas da polícia rodoviária bloqueavam a estrada com os giroflex ligados. Ao se aproximar, recebeu uma ordem de parada dos policiais.

Depois daquele complicado final de semana, Wilsinho voltava pra casa a bordo do seu Mercedes a mais de 200 km/h (Foto: Mercedes-Benz/divulgação)

Depois de parar, enquanto alguns guardas ficavam ao redor do seu Mercedes, um único o abordou pela sua janela: “O senhor sabe a que velocidade vinha trafegando?” Wilsinho, calma e educadamente, respondeu: “Sei, sim senhor. Estava ao redor dos 200 km/h”. O guarda rodoviário, admirado com sua sinceridade e precisão, tentou dar-lhe uma bronca: “Quem o senhor pensa que é? Um Fittipaldi?” e Wilson rapidamente respondeu: “Sou sim um Fittipaldi!”

A resposta do nosso piloto/construtor despertou a ira da autoridade rodoviária, que achou inicialmente que Wilsinho estava desrespeitando e brincando com ele. Em voz dura, o policial pediu para que ele descesse do Mercedes juntamente com os documentos do carro e dele próprio. Wilsinho foi obrigado a colocar as duas mãos sobre o teto do seu carro e foi revistado. Enquanto isso o guarda rodoviário, indignado, verificava sua documentação.

Os guardas rodoviários não sabiam, mas estavam realmente falando com um Fittipaldi (Foto: divulgação/Polícia Rodoviária Federal)

Surpreso, o policial disse aos seus companheiros que revistavam Wilsinho: “O cara é mesmo um Fittipaldi!” e nosso piloto/construtor, incomodado com aquela situação, foi logo se justificando: “Claro que sou um Fittipaldi, também piloto de Fórmula 1, chefe da equipe Copersucar e irmão do Emerson Fittipaldi!”

Depois de todo o mal-entendido resolvido, os guardas que o pararam pediram-lhe autógrafo e reconheceram que, se alguém tinha capacidade para andar a 200 km/h na Via Anhanguera, esse alguém era Wilson Fittipaldi Júnior. Ele, que não via a hora de chegar em casa depois do desastroso final de semana na fazenda, finalmente teve a estrada liberada para continuar sua viagem, e essa história acabou se transformando em um causo que Wilsinho, hoje, depois do susto, conta aos amigos.

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Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.