Fiat 147 “Cachacinha”: primeiro carro a álcool do Brasil faz 45 anos

O lendário Fiat 147 a álcool foi um pioneiro: chegou em 1979 inaugurando uma tecnologia praticamente inédita no Brasil, que era o motor movido a etanol, combustível derivado da cana de açúcar. E o carrinho, lançado no dia 5 de julho de 1979, completou recentemente os 45 anos. Falar que ele foi o primeiro carro a álcool no mundo é exagero, já que, no início dos anos 1900, houve versões do Ford T que podiam beber etanol, mas foi o 147 quem popularizou essa solução.

Em fase de protótipos por aqui, em meados dos anos 70, também tivemos Dodge 1800 que bebiam álcool, mas nunca foram para a linha de produção. Eram tempos da Crise Mundial do Petróleo, e a alternativa do combustível de cana, sustentável, vinha em boa hora, tanto que o governo até lançou um programa em meados dos anos 70, o Proálcool, que garantia benefícios aos plantadores de cana de açúcar e para as fabricantes de carros que criassem modelos à álcool. 

Foto: Fiat/divulgação

O desenvolvimento do 147 a álcool começou ainda em 1976, com pesquisas de mercado e testes de motor, e já naquele ano o carro pôde ser visto em público no Salão do Automóvel de São Paulo. Lá estava exposto um protótipo com dezenas de milhares de quilômetros rodados. De lá até 1977, vários outros testes do carrinho se desenrolaram, e novas unidades para desenvolvimento foram fabricadas.

Foto: reprodução Facebook/Oficina 147

O “grand finale” aconteceu em setembro de 1978, quando uma unidade rodou impressionantes 6,8 mil km em apenas 12 dias sem parar, nas mais diversas situações de uso, pista, clima e temperatura, Brasil afora. Ainda em 78, três 147 a álcool serviram aos agentes da DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem) que faziam policiamento da Ponte Rio-Niterói.

Foto: Fiat/divulgação

Para o Fiat de 1979 funcionar perfeitamente com o combustível de cana, a engenharia da fabricante italiana teve que fazer algumas mudanças no seu motor 1300. Dentre elas, a regulagem de uma mistura mais rica no seu carburador de corpo simples, o que significava também uma taxa de compressão elevada (11,2:1, enquanto um 1300 a gasolina usava 7,5:1). Mexeram também na curva do ponto de ignição, que ficou mais contida, e desenvolveram um inédito sistema de partida a frio, inclusive com afogador, sem esquecer do tanque de combustível feito com novos materiais e dos revestimentos especiais das tubulações de combustível (o álcool é mais corrosivo).

Foto: Fiat/divulgação

Com isso, apesar do torque substancialmente maior (11,5 mkgf, versus 9,9 do 1300 a gasolina), o carro ficou restrito aos 62 cv de potência, afinal não se conhecia tão bem o combustível derivado da cana na época, e o que ele poderia causar a um motor a longo prazo. Ainda assim, em alguns números oficiais, a Fiat mostrava as vantagens do novo combustível: o 147 a álcool chegava a 144 km/h de máxima, ou 3 a mais que os 1300 a gasolina; e seu consumo médio era de até 12 km/l de etanol, só um pouco pior que os 15 km/l declarados do 1300 a gasolina.

O apelido “Cachacinha” veio logo após a estreia, e o motivo estava no cheiro característico da bebida destilada de cana que ele exalava pelo escapamento. De início, a maioria das unidades vendidas iam para empresas, frotas públicas e até para uso do Governo Federal, que queria incentivar a população a comprar carros à álcool e utilizar o combustível com mais frequência.

A variante a álcool do 147 permaneceu em linha até o carro sair de linha, em dezembro de 1986, quando já existiam diversos outros modelos movidos pelo mesmo combustível à venda no mercado brasileiro. No total, foram exatas 120.516 unidades produzidas em cerca de seis anos e meio, todas na fábrica mineira de Betim, que, aliás, também está fazendo aniversário (48 anos). O “Cachacinha 0001”, primeira unidade produzida do modelo, hoje faz parte do acervo nacional da Fiat, após alguns bons anos fazendo parte de um dos museus do Governo Federal.

Compartilhar:
Com 22 anos, está envolvido com o meio automotivo desde que se conhece por gente através do pai, Douglas Mendonça. Trabalha oficialmente com carros desde os 17 anos, tendo começado em 2019, mas bem antes disso já ajudava o pai com matérias e outros trabalhos envolvendo carros, veículos, motores, mecânica e por aí vai. No Carros&Garagem produz as avaliações, notícias, coberturas de lançamentos, novidades, segredos e outros, além de produzir fotos, manter a estética, cuidar da diagramação e ilustração de todo o conteúdo do site.