Eduardo Pincigher: Um dia em Interlagos com Ayrton Senna

“E o doido do Galvão…”

Todo dia 1º de maio continua sendo muito triste. Mesmo 25 anos depois da morte de Ayrton Senna, eu não deixo de me lembrar de cada detalhe daquele trágico acidente. Se bem que a memória logo remonta a outro dia, alguns meses antes, em que tive oportunidade de conhecer o campeão ao vivo. Quando ele estava lançando a Audi no Brasil, eu fiz uma reportagem pra Quatro Rodas com o cara. Andamos em Interlagos num S4 – era uma espécie de RS6 Sedan da época.

Fotos: Cláudio Laranjeira

Ayrton chegou pontualmente às 10h00 de helicóptero. Os fotógrafos Marco de Bari e Cláudio Laranjeira logo se dividiram entre as imagens aéreas e a pista. Logo sentei no banco do passageiro e Ayrton assumiu o volante do carro. Ali, mais do que o piloto, ele era o “empresário”, já que a Senna Import estava sendo fundada e seria responsável pela importação e comercialização da marca Audi no Brasil. Depois de 3 ou 4 voltas mais lentas, em que meu gravador captava todas as explicações do chefe sobre o comportamento e os dotes do carro, cismamos de bater papo. Ali a entrevista ficou bem melhor. Três passagens foram bem engraçadas:

-(Senna) Edu, o Charlinho (Charles Marzanasco Filho, assessor de imprensa) me disse que você correu Mil Milhas, né? Então você TAMBÉM é piloto.

-(Eduardo) Pô, Ayrton, você tá brincando…TAMBÉM é sacanagem!

-(Senna) Posso andar rápido? Sempre quis andar aqui com carro de rua…

-(Eduardo) O quê? Faz o que você quiser. Acelera aí. Se eu tiver medo com você guiando, vou ter com todo mundo…

Eis que na primeira aproximação do “S do Senna”, o inusitado acontece. Ele deixa pra frear na mesma placa de 50 metros que estava acostumado com um F1. Adivinhe? O sedan passou reto. Foi lá na brita da primeira perna do S. Ayrton, então, me fita com o olhar arregalado e murmura algo como “o erro foi meu, você viu, né?”

-(Eduardo) Não se preocupe. Percebi que você freou muito dentro. Nenhum carro de rua consegue frear o suficiente na placa dos 50…

Satisfeito com minha conclusão – ele estava diante de um editor da Quatro Rodas fazendo uma avaliação do primeiro carro da Audi no Brasil – ele franziu a testa e pediu um momento. Entendi que devia me calar. Ayrton termina de contornar aquela volta e chega à mesma freada do S. Sobe nos freios uns 30 metros antes e, agora, sim, uma manobra digna do piloto campeão. O carro vem soltando a traseira, ele dá um ligeiro contra-esterço, mata a primeira perna pra ficar bem aprumado na segunda e, depois despeja potência. Agora sim…

Viro pra ele, aproveitando que estamos descendo a Reta Oposta, e pergunto:

-(Eduardo) Ayrton, eu assisti ao GP de 1991 aqui, quando você venceu só com a sexta marcha…

-(Ayrton) Não foi 91, foi 92.

-(Eduardo) Não! Foi 91. 92 você bateu no Nakagima, no Bico de Pato.

-(Ayrton) Tá louco? Quer saber mais que eu? Fui eu que corri…

-(Eduardo) Mas quem virou a madrugada na chuva pra pegar lugar na arquibancada fui eu…

-(Ayrton) Putz, é verdade Edu, você tá certo. Já um pouco mais descontraído, viria o bate-papo mais curioso.

-(Eduardo) Naquele ano, você liderou de ponta a ponta. A galera da arquibancada da reta oposta “levantava” a cada passagem. Você nunca se desconcentra?

-(Ayrton) Aconteceu sim. Tinha uma faixa laranja que chamava minha atenção. Mas ficava bem na freada do Lago. Uma hora, eu não resisti. E olhei. E perdi a freada. Quase fui parar na brita…

-(Eduardo) E aí?

-(Ayrton) Quando fui ver o tape, à noite, o doido do Galvão disse que a McLaren estava com problemas nos freios (risos). Nada! Foi cagada minha mesmo.”

Fotos: Cláudio Laranjeira

Depois de tal descontração, onde não havia mais as figuras do empresário/piloto e do repórter, ainda caberia mais uma brincadeira. Até porque aqueles dois personagens haviam se transformado em apaixonados por automóveis. Só isso. E Ayrton acabaria dando o tom perfeito desse sentimento.

-(Ayrton) Você sabe que eu sempre tive vontade de fazer uma molecagem aqui? Vamos fazer logo, antes que o Edgard (de Mello Filho, então administrador do autódromo de Interlagos) veja e me dê um esporro?

-(Eduardo) Claro! O que você quer fazer?

-(Ayrton) Andar na contramão.

E sorriu, como se fosse um moleque fazendo arte.

Nunca senti Ayrton Senna tão de perto. Se você imaginar que a subida do café, que antecede a reta dos boxes, se transforma em descida do café – e isso depois de toda a reta dos boxes acelerando -, eu sei que chegamos à freada na curva da junção muito mais rápido do que a entrada da curva suportaria. Ayrton golpeou o volante, passou com as quatro rodas na zebra de dentro e foi beliscar a zebra de fora.

Fotos: Cláudio Laranjeira

E assim demos mais três ou quatro voltas, até que chegou a tal da bronca do Edgard.

-(Edgard) Pô, Beco (Apelido de Senna), não me f… sei que é você, mas o cheiro de pneu da barata tá subindo aqui no escritório! (Área administrativa do autódromo localizada em um prédio na beira da pista).

Descemos do carro e fizemos uma foto de toda a equipe. Celso Unzelte, editor de Quatro Rodas, Waldemir Cereser, Ayrton, Marco de Bari (outro craque que já nos deixou também precocemente) e eu. Pra finalizar, eu não resisti e fiz algo que foi a primeira – e última vez – na vida, até porque não previa sua breve partida meses depois:

-(Eduardo) Dá um autógrafo, Ayrton?

Texto de Eduardo Pincigher.

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