Edu, qual carro eu compro?

Foto de capa: Skynesher/Getty Images

Há 34 anos atuo no jornalismo especializado em automóveis. Você faz uma vaga ideia de quantas vezes ouvi a pergunta: “Edu, qual carro eu compro”? No mínimo, e sem qualquer exagero, duas ou três vezes por mês. E isso acontece na família, no círculo de amigos, com os vizinhos, leitores etc.  

Se para nós, que gostamos do assunto, é difícil escolher um carro novo, imagina para quem é leigo no assunto? Pois é… (Foto: reprodução/Freepik)

Se para nós, você e eu, que somos apaixonados por automóvel, nem sempre a escolha final é uma decisão fácil, imagine para quem não é. Essa tarefa de recomendar compras de veículos é tão importante que até já se profissionalizou. O jornalista automotivo @fabianomazzeo, por exemplo, aproveita sua extensa experiência nas avaliações de carros novos para prestar consultoria. O processo pressupõe entrevistas customizadas por email, conversas por telefone e um relatório final com as indicações de modelos zero km específico para aquele cliente.  

Felipe Carvalho, o “Caçador de Carros” (Foto: reprodução/internet)

Já Felipe Carvalho, o @cacadordecarros, especializou-se em buscar modelos seminovos e usados. Ele não só indica a compra como se incumbe de achar o veículo pretendido. Cuida de documentação e da vistoria. Dá uma tremenda segurança para quem compra um usado. 

Outro profissional que se notabilizou nessa função foi o @paulo_korn, do Car Chase, um serviço de consultoria para comprar e vender automóveis seminovos de luxo e esportivos. Antes de comprar meu atual carro, inclusive, eu investi um bom tempo assistindo aos vídeos do seu canal, que detalhavam minuciosamente os possíveis perrengues com manutenção do meu carro pretendido. Ele conhece profundamente esse segmento high end (modelos caros e sofisticados) e pode orientá-lo a vender o seu carro, bem como achar o novo com uma análise minuciosa do estado de conservação. 

Paulo Korn, do “Car Chase”, costuma trabalhar com carros de alto padrão (Foto: reprodução/Korn Cars)

Recomendo esses três caras, dependendo da necessidade. 

Aposto que você também é consultado 

Mas essa tarefa de aconselhar compras de veículos, pressuponho, não é totalmente novidade pra você. Sim, você mesmo, que está lendo essa coluna. Esse privilégio de influenciar, recomendar, aconselhar ou definir qual carro o seu amigo, parente, namorada, esposa, pai, filho, coleguinha e afins não pertence só ao jornalista ou ao profissional de consultoria. 

Sim, até mesmo os fãs e entusiastas também podem servir de consultor à algumas pessoas mais leigas que pretendem trocar de carro (Foto: reprodução/Revista Carro)

Quem consome o conteúdo de colunas de um site automotivo não é um consumidor qualquer que se informa sobre automóveis, lançamentos e novidades do setor. Não! Leitor de coluna é fanático por carro. Como eu. E como você. Simples assim.  

Nada mais natural do que ser uma espécie de “fonte de consulta” de sua bolha. Você é o CARA que entende de carros e, por isso, acaba recomendando alguns veículos, ou vetando outros, em seu círculo social. Não sei como você costuma fazer, mas, no meu caso, eu tento ser neutro, buscando acatar as necessidades de quem busca o conselho. Imagine que eu nunca gostei de carro com motor 1.0 e nem de SUV. O que sobraria pra eu indicar à maioria das pessoas?

Na hora de sugerir ou dar conselhos sobre determinados carros, procuro ser neutro, afinal não gosto do que a maioria gosta, a exemplo de SUVs (Foto: Lucca Mendonça)

Palpite ao gosto do freguês 

Abdico do meu gosto pessoal e tento descobrir a essência das necessidades de cada pessoa antes de dar um palpite. Vinte e cinco anos atrás, por exemplo, meu pai pediu sugestões para trocar seu carro. Queria um sedã seminovo com câmbio automático, que tivesse um desempenho acima da média. A dica foi fácil e única: Honda Civic EX. Você consegue imaginar um cara feliz com seu carro? Era o meu pai. Ficou com ele entre 2000 e 2006. Mas nem sempre dá tão certo.  

Meu pai foi muito feliz com seu Civic EX, e ficou seis anos com o carro: minha sugestão foi perfeita! (Foto: Honda/divulgação)

Minha sogra pediu conselhos nos últimos dois carros que adquiriu. No primeiro, ela queria um hatch compacto 1.0 seminovo. Indiquei algumas opções, em especial o Nissan March. Ela comprou um modelo com 3 anos de uso e só teve alegrias. No momento de trocá-lo, anos depois, a ordem era outro compacto, mas com câmbio automático. 

Outra “consultoria” que deu certo foi com minha sogra: ela adorou o Nissan March 1.0 que sugeri na época (Foto: Nissan/divulgação)

Fui certeiro no Hyundai HB20, com o objetivo de escapar dos câmbios automatizados. Mas só encontrávamos modelos com 1 ou 2 anos de uso. E ela queria algo mais em conta. Acabei achando um Fiat Cronos Precision. Fiquei empolgado com o carro. Motor 1.8, confortável, amplo porta-malas, dinâmica de guiar, bem equipado. E com 19 mil km. 

Não que ela não tenha gostado, tanto que está com o carro até hoje. Mas, no uso em que faz, o alto consumo transformou-se em ponto negativo. A experiência de andar com um carro tão legal para os propósitos que ela tinha se dissipa na hora de reabastecer. Eu avisei que ele era mais gastão. Mas não fui enfático o suficiente. Quando vi o Cronos em estado de zero km, forcei a barra. E a conta do consumo, por mais que ela seja elegante e não me culpe, sei que existe…  

Acabei forçando a barra na escolha do Cronos, afinal eu havia gostado bastante do carro. O alto consumo, certamente, incomoda ela (Foto: Lucca Mendonça)

Nessa vida de me frustrar com as recomendações que eu dou… nada é mais dolorido, entretanto, do que o que acontece dentro da minha própria casa. Não sei se você tem uma esposa (ou um marido) teimosa (o). Eu tenho.  

Dentro de casa, eu não apito nada 

Cerca de 10 anos atrás, a Priscilla (minha esposa) tinha um Citroën Aircross, e eu uma Triumph Street Triple, que usava muito pouco, inclusive. Resolvemos juntar os valores e comprar um carro maior, até porque faríamos uma viagem ao Sul do Brasil e rodaríamos 3.000 km com mais três crianças. Ela já curtia a ideia de carros grandes e, preferencialmente, SUVs. Achei um Fiat Freemont com 6.000 km rodados e fechei negócio. 

Vendidos Aircross e Triumph, procuramos um SUV espaçoso para viajarmos: achei um Fiat Freemont pouco rodado e fechei negócio (Foto: Fiat/divulgação)

A viagem foi ótima. Usávamos um dos dois assentos extras para um dos meninos na terceira fileira de bancos. As malas cabiam no espaço restante e a fileira do meio garantia conforto aos outros dois que lá viajavam. Um carro perfeito para longas viagens, não fosse pela pouca potência do motor, que me obrigava a pisar mais fundo, aumentando exponencialmente o consumo. O Freemont fez média abaixo de 9 km/l de gasolina nos 3 mil km. Faz a conta aí. 

O carro nos atendeu muito bem numa viagem de 3.000 km, porém faltava potência (Foto: Fiat/divulgação)

Ficamos com esse carro mais dois anos. E o combinado era que alternássemos as preferências. Esse Fiat era um SUV / Crossover. O próximo seria um sedã (opção mais do meu gosto). Depois voltaríamos a outro SUV. Resultado: estamos no terceiro utilitário-esportivo. A gente sabe quem sempre dá a palavra final, não? 

Sempre do contra 

Queria um sedan, mas minha palavra não teve muita força: acabamos trocando o Freemont num Renegade (Foto: Lucca Mendonça)

Calma. Isso ainda piora. Quando fomos trocar o Freemont, recomendei o Honda HR-V. Ela quis um Jeep Renegade. Na hora de vender o Renegade, eu sugeri um VW Tiguan. E ela escolheu um Jeep Compass. Cansei de só dar bola fora… e comprei meu próprio carro. Mas antes de escolher o meu, eu ficava pensando na hipótese de recomendar a ela algo que me agradasse minimamente. 

Depois, sugeri um VW Tiguan, mas ela gostou da Jeep: preferiu um Compass (Foto: Lucca Mendonça)

Seu próximo alvo seria um Commander, cliente fiel à marca Jeep que ela se transformou. Avisei que ele pode não ter sucessor no Brasil, é uma jabuticaba (feito só aqui…) e que convinha especular outras opções. Tudo com muito “jeitinho”. Detalhe: a atividade profissional dela envolve, vez ou outra, a acomodação de muita bagagem no porta-malas.   

Ela se tornou fã da Jeep, mas guiou uma Ram Rampage e adorou! (Foto: Lucca Mendonça)

Muita bagagem? Peguei uma RAM Rampage de teste e fiquei uma semana com ela. E não é que funcionou? A Pri não largava a picape. Adorou. Resultado: eu até nem uso mais o carro dela, já que tenho o meu. Mas, pelo menos, quando tiver que guiá-lo nos passeios de família, não conviverei mais com o comportamento desagradável de oscilações laterais de um SUV. E vou usufruir da acertadíssima suspensão do Rampage… e seus mais de 270 cv. Não compramos ainda. Mas porque aí surgiu outro problema… 

Pagando o “preço” do palpite 

As Rampage não tem concorrência direta, por isso vão encarecendo conforme ganham mercado: ainda são caras para termos uma na garagem (Foto: Ram/divulgação)

Por não ter sofrido com a ação de concorrência direta com os SUVs eletrificados chineses, como ocorreu com o Jeep Commander, a RAM tá custando caro… mas tão caro que até dói. De um ano pra cá (fevereiro de 2024 versus 2025), um Jeep Commander Limited T270 zero km (R$259 mil) passou a custar R$13 mil a menos – hoje a tabela é R$246 mil. A livre concorrência é a melhor amiga de qualquer consumidor. Já a Rampage Laramie, praticamente navegando em voo solo, era R$268 mil. Hoje? R$283 mil.   

Os Jeep Compass, por exemplo, tenderam a ficarem mais baratos, mas as picapes da Ram subiram de preço (Foto: Jeep/divulgação)

Fica o conselho, portanto, ao amigo que lê a coluna: muito cuidado com as recomendações que você dá, principalmente dentro de casa.  

A Coluna do Edu, bem como o conteúdo nela publicado, é de responsabilidade de seu autor, e não necessariamente reflete a opinião do Carros&Garagem.

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Eduardo Pincigher é jornalista formado pela PUC-SP e atua no setor automotivo desde 1989, com passagens em diversas publicações e montadoras. Hoje trabalha como assessor de imprensa por intermédio de sua agência de comunicação.