Dúvida dos tempos modernos: híbrido ou puro elétrico? Vantagens, desvantagens e qualidades de cada um

Para essa curiosa comparação, escolhi dois SUVs “hi-techs”: de um lado o híbrido Volvo XC90 R-Design, e do outro o e-tron Sportback totalmente elétrico, o mais novo queridinho da Audi no Brasil. Não vamos considerar nessa comparação, o que um carro tem de melhor que o outro, ou então o que cada uma dessas marcas oferece aos seus exclusivos consumidores.

Vamos nos ater ao sistema de propulsão de cada um: um deles tem um motor de combustão interna, turbinado, que trabalha em associação a um motor elétrico e a um câmbio automático convencional de 8 marchas (Volvo XC90), e o outro tem dois motores elétricos, ligados a cada um dos eixos, alimentados por um conjunto de 36 módulos de baterias, todos posicionados no assoalho para baixar o centro de gravidade, e, com isso, melhorar a estabilidade direcional e o comportamento em curvas (Audi e-tron).

Na minha opinião, os carros híbridos são uma espécie de intermediários entre os convencionais com motor a combustão, e os totalmente elétricos. Explico! Passamos o século XX e o início desse século XI com a esmagadora maioria de veículos equipados com motores a combustão. Postos de serviço e reabastecimentos, e toda a infraestrutura de reparação que temos hoje no mundo, foram desenvolvidas para esses carros. Agora, estamos em um ponto de mudança, onde as exigências da sociedade em termos de emissão de poluentes, silêncio, consumo de petróleo, e por aí vai, estão apontando para carros movidos por energia elétrica, que, convenhamos, não são novidade.

No início do século passado, os veículos elétricos disputavam o mercado com os movidos a combustão. Mas, a liberdade do reabastecimento, e até mesmo a pressão exercida pelas petroleiras, que disponibilizavam o combustível em todas as partes, fizeram com que o motor de combustão ganhasse a batalha pela preferência do consumidor. Os tempos mudaram, e atualmente a sociedade quer menos barulho, fumaça, gastos de recursos naturais, e, principalmente, se preocupar menos com manutenção de máquinas complexas, como os motores a combustão e suas transmissões.

Agora, a indústria volta novamente seus olhares para a propulsão elétrica. O híbrido, como já dito, é uma fase intermediária desse processo de mudança que já se iniciou e, pelo visto, não volta atrás: acredito que no futuro a propulsão dos carros, caminhões e ônibus será mesmo elétrica. Enquanto a tecnologia não consegue adequar baterias que tenham recargas tão rápidas quanto as de um combustível líquido, ou mesmo que não tenhamos uma rede eletrificada de postos de serviço, que possam carregar tranquilamente e suficientemente os futuros veículos elétricos, foram criados os híbridos.

O que são os híbridos? Eles são equipados com motor de combustão interna, que, além de auxiliar na propulsão de um veículo com transmissão, também oferecem a energia que recarrega uma bateria que alimenta um motor elétrico auxiliar. Com esse conjunto, os carros híbridos acabam oferecendo um baixo consumo de combustível fóssil, e são bons nessa fase de transição entre combustão e eletricidade.

O Volvo XC90 R-Design está entre esses bons veículos de transição. Tem um potente motor movido a gasolina, com turbo, de 2.0 litros, que produz bons 320 cv e trabalha em conjunto com propulsor elétrico mais modesto, de 87 cv, que, na contrapartida, exige menos baterias, pesando menos. Somadas as potências, essa dupla de combustível e eletricidade entrega bons 407 cv na potência final, e, por isso, movem com boa desenvoltura esse grandalhão da Volvo, que custa perto dos 500 mil Reais.

Suas marcas na prova do 0 a 100 km/h são de 5,7 segundos, atingindo uma velocidade máxima de aproximadamente 220 km/h. Nada mal para um carro do seu peso (quase 2.400 kg) e tamanho (pouco menos de 5 metros de comprimento, por 2 de largura). Um legítimo híbrido, que apesar dos índices de consumo bastante satisfatórios, mostra a desvantagem da manutenção que requer no motor a combustão, câmbio automático de 8 marchas, bateria elétrica, e também no motor elétrico, que ocasionalmente pode precisar de um reparo.

Já o e-tron, diferentemente do Volvo, é totalmente movido a eletricidade. Tudo nele muda em relação ao XC90, inclusive o abastecimento, que deve ser feito em uma tomada elétrica, seja residencial (com tempo de recarga mais longo), ou em postos de recarga veicular, que ficam espalhados pelos grandes centros urbanos, ou alguns pontos específicos em estradas e rodovias. No caso do e-tron, esses postos de recarga permitem carregar até 80% da bateria em cerca de 30 minutos.

Não são os cinco minutinhos que você leva para abastecer um carro com gasolina ou etanol, mas já é uma grande vantagem quando comparadas as recargas dos elétricos de antigamente, que exigiam de 8 a 10 horas na tomada durante a noite, para que o carro pudesse ser usado no dia seguinte, por não mais do que 80 ou 100 km. A Audi, por exemplo, disponibiliza um aplicativo de celular, que mostra ao motorista do e-tron, de acordo com o ponto onde ele está, quais são os locais de recarga rápida mais próximos.

Mas, claro, o carro elétrico ainda exige que o motorista faça um planejamento prévio onde se deseja ir, onde existem tomadas e postos de reabastecimento, as distâncias que serão percorridas, e por aí em diante. Como nos aviões, o proprietário precisa se preparar, afinal não se pode abastecer um elétrico em qualquer lugar. Novos tempos.

O e-tron possui dois motores elétricos, cada um ligado a um eixo. Na dianteira, um de 183 cv, e na traseira outro mais potente, com 225 cv, resultando em 408 cv no total. Falando de torque, os motores totalizam cerca de 68 mkgf, inteiramente disponíveis a partir de 0 rpm. Não preciso dizer que, ao menor toque no pedal do acelerador, permite a esse Audi um arranque que chega a impressionar. Característica dos motores elétricos.

Ainda falando do e-tron, ele tem uma aerodinâmica muito bem trabalhada para um SUV, mostrando um coeficiente aerodinâmico (Cx) de baixíssimos 0,25. Com esse Cx de destaque, ele consegue marcas de consumo e desempenho excelentes: 446 km de alcance, 0 a 100 km/h em 5,7 segundos e velocidade final limitada em 200 km/h. Para esse resultado impressionante, foram suprimidos até mesmo os espelhos retrovisores, que foram substituídos por pequenas câmeras que reproduzem imagens nas laterais internas das portas, mais ou menos na altura dos espelhos convencionais. O carro é hi-tech até nesses pequenos detalhes.

Mas tudo tem seu preço, e no caso desse e-tron Sportback, o modelo supera a casa dos R$550 mil na versão de entrada. Outros fatos que impressionam são o peso das baterias (mais de 700 kg), e o sistema de arrefecimento também dos acumuladores de carga, que dispõe de mais de 22 litros de líquido, que pode circular até mesmo se o carro estiver estacionado desligado ao sol e a temperatura das baterias superarem as marcas consideradas ideais. Curioso que, mesmo não tendo um motor de combustão interna, o e-tron possua radiador e bomba de água.

Barulho ao rodar? Praticamente nenhum, com exceção do contato dos pneus com o solo, e do trabalho das suspensões pneumáticas. Para alguns, essas podem ser características bem positivas, e para outros pode ser bem sem graça. Gostando ou não, é um carro que, nem de longe, lembra os antigos e bons motores movidos a combustível líquido, que roncavam e traziam emoções. Esses, infelizmente, não têm mais lugar no mundo de hoje em dia. São os novos tempos que reinam no planeta Terra.

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Jornalista na área automobilística há 45 anos, trabalhou na revista Quatro Rodas por 10 anos e na Revista Motor Show por 24 anos, de onde foi diretor de redação de 2007 até 2016. Formado em comunicação na Faculdade Cásper Líbero, estudou três anos de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e no Instituto de Ensino de Engenharia Paulista (IEEP). Como piloto, venceu a Mil Milhas Brasileiras em 1983 e os Mil Quilômetros de Brasília em 2004, além de ter participado em competições de várias categorias do automobilismo brasileiro. Tem 64 anos, é casado e tem três filhos homens, de 17, 28 e 31 anos.