Crônica da chegada das marcas chinesas (para irritar muita gente)

Marcas chinesas

Vendedor de mão cheia, Rafael sempre esteve no TOP10 do Brasil. Tirava dezenas de pedidos todo mês de carros zero km na concessionária de uma fabricante tradicional, enorme, conhecidíssima, e que ocupa um portentoso edifício na zona sul de São Paulo. Ele já ganhou viagens, prêmios, TVs, fez visita à fábrica. Tirou foto com o presidente e foi até marcado no Instagram da fabricante. O Rafa é o cara. Sabe mesmo vender carro. Batia as metas geralmente antes do dia 25 de cada mês. 

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Rafael, o melhor vendedor da sua marca de carros tradicional – Foto: criação de IA

Até um ano e meio atrás, ele exibia rotineiramente o mesmo suve compacto no showroom com um largo sorriso. Falava do motor turbo como se estivesse vendendo a mais rara joia da coroa. O preço ultrapassava os três dígitos com facilidade e a lista de itens de série incluía airbags, ABS, ESP e uma multimídia mirradinha. E muito plástico. Mas o Rafa fazia aquilo parecer ouro.  

Quando o cliente pedia desconto, ele sorria. “A fábrica não tá dando conta de tantos pedidos. Vou ver com meu gerente, mas não garanto nada”, dizia, apontando para o logotipo tradicional cravado no capô, um símbolo que valia cada centavo cobrado na nota fiscal. E saía com condescendência superior pelo showroom. Voltava sem o desconto, mas, surpresa! O cliente ganharia um vistoso jogo de tapetes. 

Rafael, o melhor vendedor da sua marca de carros tradicional – Foto: criada por IA

A virada de chave aconteceu em uma sexta-feira. Do outro lado da avenida movimentada, uma montadora vinda da China inaugurou sua fachada moderna e luminosa. No vidro temperado da vitrine, letras garrafais e brilhantes anunciavam um veículo híbrido, equipado com tela imensa de multimídia, câmeras por todos os lados e preço R$ 15 mil acima do modelo oferecido pela revenda da Rafa. No dia seguinte à inauguração, o trânsito travou. O estacionamento da loja do Rafa ficou vazio, sob o brilho inclemente do sol e a poeira da indiferença. 

O fenômeno que se seguiu nos meses seguintes foi genuinamente histórico para o país. Pela primeira vez, o brasileiro viu o preço do carro zero despencar sem que houvesse uma crise financeira global ou a retirada sistemática de itens de série. Pelo contrário: as marcas tradicionais começaram a rechear seus modelos para tentar estancar a sangria contínua de clientes fiéis. 

Rafael, o melhor vendedor da sua marca de carros tradicional – Foto: criada por IA

Longe das metas, Rafa viu sua própria montadora bolar um pacote inédito na história: bônus de fábrica, supervalorização do seminovo na troca, IPVA grátis. E tapetes, claro. O suve compacto que custava uma pequena fortuna ganhou um agressivo desconto, quase 20%. “Queima de estoque”, justificava o locutor no comercial de TV em horário nobre, mas todo mundo sabia o verdadeiro motivo da promoção repentina: e ele atendia pelo nome de “concorrência”, especialmente das tais marcas chinesas.  

Com sua assustadora agressividade fabril e baterias de última geração sob os assoalhos, parecendo nem se importar com a escalada de tributos imposta para barrá-las, as marcas chinesas obrigaram as tradicionais multinacionais instaladas no país (não há fabricantes nacionais no Brasil) a deixarem a zona de conforto. 

GWM Ora 03 BEV58 – Foto: Lucca Mendonça

A paisagem urbana das metrópoles mudou em ritmo acelerado. Os veículos com linhas futuristas e silêncio absoluto ao rodar passaram a dividir o espaço com os velhos conhecidos da frota nacional. O consumidor brasileiro, de repente, descobriu o real significado de ter poder de escolha.  

A desconfiança natural sobre a confiabilidade mecânica ou a eficiência do pós-venda das marcas chinesas foi atropelada pela realidade implacável do custo-benefício na hora da TED. Diante da escolha clara entre o suvezinho pelado “nacional” e o suvezão completo, moderno, eletrificado e tecnológico, por uma diferença ínfima de preços, o comprador foi pragmático e deu um chega-pra-lá no preconceito. Marcas chinesas já são donas de quase 20% das vendas de carros zero km no país. Se você considerar que eles estão praticamente ausentes de uma faixa inferior a R$ 120 mil, 20% do que sobra é bastante. 

IPVA
Trânsito em SP – Foto: divulgação/Governo do Estado de São Paulo

Nas mesas de negociação das concessionárias tradicionais, o teatro tem novo roteiro. O cliente agora entra na loja do Rafa segurando o celular, mostrando a tela com a oferta de uma das marcas chinesas. “Lá eu tenho carregador de parede grátis, revisões fixas, oito anos de garantia e um carro meio metro maior do que o seu. O que você me oferece em troca?”. Antes absoluto nos argumentos, o Rafa passou a frequentar a mesa do gerente da loja com certa tensão. “Esse cliente só vai chegar a 160 e não adianta malhar mais nada. Fazemos?”  

A verdade dos fatos sobre as marcas chinesas

O texto, até aqui, confesso, é só uma crônica. Mas que não tem nada de ficcional. Garanto. Isso é mais pura e líquida vida real! 

Teve marca oferecendo híbrido R$ 100 mil mais caro, mas ninguém comprou

Defendo a chegada massiva das marcas chinesas por dois motivos: o primeiro deles é que você teve a introdução da eletrificação no mercado brasileiro de um modo contundente e eficaz. Não tivessem vindo os chineses, os produtos à disposição possivelmente seriam poucos, raros e caros. Houve um híbrido de uma marca instalada no Nordeste do Brasil, que estreou anos atrás… por R$ 100 mil a mais que a versão a combustão. Nunca vi nenhum na rua. Mesmo. 

Eficientes e acessíveis, os carros de marcas chinesas vêm sendo posicionados na mesma faixa de preços dos veículos à combustão de fabricantes tradicionais. São incontáveis, hoje, as opções híbridas ou elétricas que estão à venda na faixa de R$ 150 mil a R$ 200 mil. 

BYD Song Pro GL – Foto: divulgação

Já engato uma segunda e explico o outro motivo, a despeito de tantas críticas feitas por puristas (aka haters): marcas chinesas estão balizando os preços de todo o mercado. Há diversos exemplos que comprovam essa tese. O varejo tem praticado descontos de até 20% ante os preços sugeridos. Mais do que isso: há quem esteja anunciando reduções oficiais nos preços de tabela, às vezes de até R$ 50 mil. 

Isso é concorrência, amigo. E só alguém desconectado do bom senso pode condenar o benefício que tem sido o desembarque de hatches elétricos de R$ 150 mil ou suves híbridos de R$ 180 mil. Eles estão forçando pra baixo os preços das marcas tradicionais. 

GAC Aion UT 2027 – Foto: divulgação

Você pode continuar com toda a sua ojeriza frente às marcas chinesas. Pode até fazer um solene juramento que nunca comprará um carro fabricado por lá. Pode. Você tem todo o direito. Ninguém vai te obrigar. Só agradeça a eles, porém, pelo majestoso desconto na compra do seu futuro carro. Tão simples como isso.  

Geely EX2 Max - Foto: Lucca Mendonça
Geely EX2 Max – Foto: Lucca Mendonça

Liturgia

Durante anos, o mercado automotivo brasileiro operou sob uma espécie de liturgia. Entrar em uma revenda de uma montadora tradicional era aceitar o acordo silencioso de pagar caro por calotas, painéis rígidos e a eterna promessa de que “o valor de revenda estaria garantido”. O consumidor aceitava o carnê de 48 ou 60 meses com a cabeça baixa, conformado de que ter um carro zero no Brasil era um luxo cobrado em ouro e embalado pelo desdém. 

Carro 0 km com laço vermelho – Foto: Ivan Sviatkovskyi/Vecteezy

Mas esse feitiço está sendo rompido de forma avassaladora. O vento que mudou o rumo dessa história septuagenária trouxe navios carregados de suves eletrificados, telas multimídia enormes e preços que pareciam erro de digitação para os antigos barões. A chegada das marcas chinesas não está sendo apenas uma expansão comercial. Foi uma verdadeira invasão bárbara no império dos “preços de tabela”. 

O mercado ficou mais difícil para quem vende, mas se tornou mais justo para quem compra. Entramos na era da desmistificação definitiva de que o carro zero precisa ser um sacrifício financeiro. As marcas tradicionais continuarão fortes, sustentadas pela capilarização das redes autorizadas e pela longa história construída no país. Mas agora o jogo está sendo diferente: o cliente dita as regras e o preço final precisará ser atrativo, sob a pena de ver o comprador atravessar a avenida – lá os tapetes são de série, aliás. 

A Coluna do Edu, bem como o conteúdo nela publicado, é de responsabilidade de seu autor, e não necessariamente reflete a opinião do Carros&Garagem.

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Eduardo Pincigher é jornalista formado pela PUC-SP e atua no setor automotivo desde 1989, com passagens em diversas publicações e montadoras. Hoje trabalha como assessor de imprensa por intermédio de sua agência de comunicação.