Carro popular: sonho de ontem, nem em sonho hoje (Parte 2)

Graças a uma resolução do governo, ainda em 1993, os veículos com motor 1.6 boxer e/ou de tração traseira também recebiam o mesmo incentivo de redução de IPI (parece até que alguém foi privilegiado com isso). Esta redução permitiu a volta do VW Fusca, e a GM tratou logo de substituir o GM Chevette Junior pelo GM Chevette L, com motor 1.6 e muito mais disposição. Mas caro leitor, o mercado consumidor é também modista, e não entendia as vantagens de se ter um carro 1.6 com bom preço. A moda era mesmo ter um 1.0 (!).

Graças a algumas mudanças na legislação de impostos da época, a GM conseguiu substituir o fracassado Chevette Junior pela versão L 1.6, mas o público consumidor ainda preferia andar de 1.0 (Foto: Chevrolet/divulgação)

A GM sabia que o Chevette não era mais competitivo, e já desenvolvia a sua versão do Opel Corsa desde que lançou o Chevette Junior, como em um jogo de xadrez, aguardou o momento certo para fazer sua jogada. Os planos eram lançar o Corsa apenas em 1995, mas com a movimentação da Volkswagen para lançar o Gol bolinha e da própria Fiat, que já desenvolvia o projeto 178 (o Fiat Palio), a Chevrolet antecipou o lançamento do carro em 1 ano.

O primeiro Corsa produzido no Brasil, ainda em 1993 (Foto: reprodução/internet)

A primeira unidade foi fabricada em 21 de setembro de 1993, quando o estoque começou a ser formado, e em 10 de janeiro de 1994 era lançado no mercado nacional o GM Corsa. A concorrência se mexeu e logo a Fiat lançou o Uno Mille ELX, “o popular de luxo” como ela mesmo o chamava. Com nova frente (igual as demais versões mais caras da linha Uno), novo painel, volante de 4 raios espumado, ênfase nas 4 portas e o ar-condicionado (opcionais) e um acabamento bem mais caprichado, o ELX manteve o Mille forte no segmento.

Mille ELX: popular “de luxo” tinha melhor acabamento e opção de equipamentos inéditos (Foto: Fiat/divulgação)

A GM respondeu com o Corsa GL, sua primeira versão mais luxuosa lançada também em 1994. E, meses depois, a VW lançava o Gol bolinha, que chegou primeiro nas versões 1.6 e 1.8 e, no início de 1995, 1.0 (1000i). Dessa forma, o VW passava a ser o principal concorrente do Corsa, que, nessa altura do campeonato, já tinha a opção da carroceria de quatro portas.

O novo Gol passava a ser o principal concorrente do Corsa, mas o VW ainda não tinha a opção de quatro portas (Foto: VW/divulgação)

Com o Real equiparado ao Dólar e importações de carros em alta, outros populares entraram nessa guerra: Subaru Vivio, Peugeot 106, Renault Twingo, Asia Towner, Ford Fiesta (ainda espanhol), Daihatsu Cuore, Suzuki Swift e por aí vai. Alguns outros modelos abocanharam por quase 2 anos este mercado que só crescia.

Nem mesmo os importados populares ficaram de fora desse mercado. Renault Twingo, com todo seu carisma, que o diga… (Foto: Renault/divulgação)

Em 1996, foram lançados Fiat Palio e Ford Fiesta nacional, deixando a concorrência ainda mais acirrada e os consumidores com mais opções. A GM respondia com novas versões do Corsa e novo sistema de injeção eletrônica multiponto para os motores 1.0 e 1.4. Em renovação, saíam de linha o VW Gol 1000 quadradinho, VW Fusca 1600 e Ford Escort Hobby.

Logo em 1996, o Ford Fiesta nacional chegava ao mercado e, em um movimento de modernização, tomava o lugar do Escort Hobby (Foto: Ford/divulgação)

Em 1997, a Ford surpreendia a todos com o Ford Ka e seu design moderno, ótimo acabamento e excelente custo-benefício. Simultaneamente, a VW lançava os motores com injeção eletrônica multiponto, além do Hitork 1.0 16v, pioneiro no Brasil e sensação daquele ano.

Logo em seguida, a VW inovava com o 1.0 Hitork, primeiro motor “mil” com quatro válvulas por cilindro do mercado nacional (Foto: VW/divulgação)

E não parou por aí: a VW surpreendeu ao lançar o VW Parati 1.0 16v, o primeiro Station a entrar na guerra dos populares. Naquele ano, só o Gol 1.0 vendeu 251.615 unidades e os demais modelos 1.0 totalizaram 880.038 carros vendidos no país. Veja força dos populares em 1997:

Elaborada por Leonardo França

Em abril de 1998, o mercado tinha 30 versões de carros populares, entre modelos de 2 e 4 portas e com os mais variados opcionais. Veja:

Os modelos identificados com o * possuem apenas uma variação, de duas ou quatro portas (Tabela elaborada por Leonardo França)

A guerra estava prestes a receber mais competidores, e no decorrer do ano chegaram Fiat Siena 6 marchas e Palio Weekend 6 marchas, e, em 1999, uma nova explosão de novidades: novas versões do VW Gol, Ford Fiesta, GM Corsa, além de Corsa Sedan 1.0 8v e 16v, Corsa Wagon 1.0 16v, Peugeot 206, Renault Clio e o Palio Citymatic, primeiro 1.0 com sistema de embreagem automática opcional (leia mais sobre ele aqui).

Também pioneiros, Palio Weekend e Siena com câmbio de 6 marchas vieram no decorrer de 1998 (Foto: Fiat/divulgação)

É claro que se eu for citar todos os modelos lançados até hoje, esta coluna seria transformada em um e-book, mas eu quero mostrar é que, até então, o mercado crescia, e a demanda também. Os carros populares chegaram a corresponder a 69,8% das vendas em 2001.

Com a virada do milênio, a indústria nacional ganhou volume, e com isso, foi possível diluir o custo de desenvolvimento e de equipamentos extras. Passamos a ver uma corrida desenfreada por maior potência e equipamentos de conforto. Passou a ser muito mais comum ver um VW Gol 1.0 com ar-condicionado e direção hidráulica, equipamentos raros em 1996, por exemplo.

Com o passar dos anos, passou a ser bem mais comum ver carros populares 1.0 com ar-condicionado, rodas de liga-leve, faróis de neblina e por aí vai. A era dos populares completinhos (Foto: reprodução/pinterest)

De acordo com a FENABRAVE, em 2003 o carro popular correspondia a 49,1% do mercado. Já em 2005 esse número caiu para 42,7% e, em 2010, correspondia a 34%. A partir dos anos 2010, novas regulamentações governamentais de segurança e de emissão de poluentes começaram a impactar os custos e, por consequência, os preços dos carros.

É claro que o consumidor ganhou e muito nisso, pois os carros passaram a ser mais seguros e mais econômicos. Em 2014, por exemplo, freios ABS e duplo airbag frontal passaram a ser obrigatórios, e a maioria dos carros já ofereciam ar-condicionado e direção assistida de série. Um novo estudo em 2015 mostrava que a participação dos populares despencava para 23,4%, e em 2020, apenas 12,7% dos carros 0 km eram populares.

Praticamente todos os carros vendidos no Brasil já contam com ar-condicionado e direção assistida, e itens antes de luxo, como vários airbags, se tornaram comuns também nos ditos populares (Foto: Hyundai/divulgação)

O gosto do público também mudava, uma vez que o acesso a informação estava cada vez mais fácil graças à internet e aos smartphones. A conectividade era a bola da vez, e foi explorada por todas as marcas, onde mais um recurso passou a ser muito comum e requisitado nos veículos: central multimídia.

Raciocinemos, caro leitor: nos anos 80, um carro de luxo as vezes podia vir básico, sem opcionais obrigatórios hoje, e quando completo, trazia ar-condicionado, direção hidráulica, vidros elétricos, travas elétricas, sistema de som. Dependendo do modelo, poderia oferecer ainda os retrovisores elétricos, abertura elétrica do porta-malas, diferenciações estéticas e, as vezes, alarme.

Até os anos 90, era comum adquirir carros grandes e mais requintados sem nenhum equipamento de conforto ou luxo, a exemplo do VW Santana nas suas versões de entrada (Foto: VW/divulgação)

Hoje, um carro básico trás pelo menos ar-condicionado, direção assistida, vidros elétricos e travas elétricas. Escolhendo um ou dois pacotes opcionais, traz também sistema de som e/ou central multimídia, retrovisores elétricos, algumas diferenciações estéticas e até mesmo câmbio automático.

Mas, além do trivial, todos saem hoje com freios ABS, Air Bag (pelo menos 2), além de muitas tecnologias de segurança, conforto e comodidade embarcadas, algo que só cresce com as novas regulamentações.

Hoje, populares são bem completos. O Fiat Mobi, um dos mais baratos do país, já traz central multimídia, ar-condicionado e computador de bordo de série desde a versão de entrada (Foto: Lucca Mendonça)

O carro popular deixou de existir na sua essência, tanto em recursos oferecidos, quanto em preço. E isso não é só para o consumidor final, mas também para as fábricas, já que o custo de produção é similar em vários modelos. E para carros ditos “populares”, a marca de lucro é bastante enxuta.

Agora em 2022, uma nova fase do programa de controle de emissões, o Proconve L7, passa a exigir até controle dos vapores de combustível emitidos durante o abastecimento, o que acelerou a despedida do mercado de vários modelos de projeto ou mecânica ultrapassada.

O Grand Siena foi um dos populares que se despediu por conta do Proconve L7 (Foto: Lucca Mendonça)

Em 2023, chegará a obrigatoriedade de controles eletrônicos de estabilidade e tração e, em 2024, serão exigidos testes de impacto lateral para a homologação dos automóveis vendidos no país, além de tornar obrigatórias as luzes de rodagem diurna (DRL), indicação de cintos desfivelados e ajuste de altura dos faróis. Tudo isso impactará no custo final para as fábricas e para o consumidor, sem dúvidas.

O gosto do público consumidor está mais apurado. Exige motores superalimentados, híbridos ou mesmo 100% elétricos, além de carrocerias maiores e mais confortáveis, onde os SUVs surfam na onda por poderem oferecer tudo isso junto.

E o público consumidor, mais exigente, já prefere motores superalimentados, equipamentos de luxo, conforto e espaço interno, o que justifica o sucesso dos SUVs (Foto: Lucca Mendonça)

No final das contas, a inclusão de tantos recursos pesará mais na planilha de custos dos modelos de entrada, e, mesmo que ainda existam os veículos mais simplórios, poucos irão querer um “pé-de-boi”. Sendo assim, está cada vez mais decretado o fim da era do carro popular.

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Neto de jornalista, é formado em gestão de pessoas, tem pós em comunicação empresarial e Marketing digital. É criador dos canais Autos Originais e Auto & Autos, digital influencer e atua há 18 anos com consultoria automotiva, auxiliando pessoas a comprar carros em ótimo estado e de maneira racional. Especializou-se na história dos carros nacionais, principalmente nos modelos populares dos anos 80, 90 e 2000. Apaixonado por carros e viagens, rodou mais de 800mil km nas estradas dos países da America Latina. É também colecionador de miniaturas, emblemas automotivos, revistas automotivas e principalmente de histórias.