Frota, o lado escuro da lua (1/3)

Os três passos para a previsibilidade

Durante mais de trinta anos, eu vivi de desenvolver sistemas completos para o agronegócio. Dentre todos os módulos, o mais fascinante era o de manutenção, que envolvia desde motocicletas a aviões agrícolas. Naturalmente, o conhecimento prévio de mecânica ajudou muito, ao mesmo tempo em que o uso do sistema mostrava os vícios mais bizarros dos mecânicos. Esta série procura mostrar, ao mesmo tempo, uma rotina de manutenção de frota e relata algumas ocorrências interessantes, quando não engraçadas do lado sujo na indústria automobilística e de máquinas rodantes em geral.

Rotina

Não vou esconder que o sistema deu um enorme salto quando um cliente, também empresário de transporte rodoviário de passageiros, abriu as portas para eu ver como eles conseguiram rodar quinze milhões de quilômetros sem nenhuma reparação digna de nota. A empresa recebeu, em 1994, o prêmio mundial de manutenção entre todas as empresas de ônibus. Tudo se resume na previsibilidade.

Não que, nesses quinze milhões de quilômetros, nenhum ônibus tenha tido avarias. É que elas não os impediam de rodar. Eram lâmpadas queimadas, fusíveis interrompidos, peças de acabamento ou hotelaria que se danificavam (ou por pequenos acidentes, ou por vandalismo dos passageiros). Hotelaria? Sim, em alguns aspectos, ônibus são hotéis circulantes, pois contam com banheiros, geladeiras, travesseiros, cobertores e muitos outros itens destinados ao bem-estar do passageiro.

O primeiro segredo é a rotina. As viagens eram previstas tal que, a cada dez mil quilômetros, o veículo estivesse entrando na cidade onde se encontrava a sede da empresa. Isso eliminou a rede autorizada de oficinas espalhadas pelo Brasil, onde, por mais que se quisesse, não era possível garantir uniformidade na prestação de serviço.

Homogeneidade

O segundo passo é a escolha do equipamento. A princípio, exceto raríssimas exceções, todos os modelos do mercado são extremamente confiáveis, desde que a oficina tenha o mínimo de especialização. Quanto mais homogênea for a frota, mais econômica tende a ser a operação, pois maior será o número de componentes compartilhados, menor será o número de ferramentas especiais e, principalmente, menor será a necessidade treinamento da mão de obra.

As fazendas Itamarati, para quem trabalhei por dezessete anos, dado ao seu gigantismo, tinha uma oficina por marca: Valmet, CBT/Engesa, Ford/New Holland, John Deere e Mercedes-Benz, enquanto carros e motos eram mantidos em oficinas externas, em Ponta Porã e Tangará da Serra, ao passo que os aviões seguem uma rotina obrigatória de revisões em oficinas credenciadas pela Anac.

O fato de haver prestadores externos de serviço não exime a empresa de controlar os serviços, no mínimo, porque disso depende a contabilidade de custos; no máximo, porque é o histórico de manutenção que garante que a máquina vai continuar funcionando futuramente.

Essa variedade de marcas resultava em um custo administrativo enorme, afinal o número de itens de compra atingia facilmente os 100 mil, sem contar o consumo de ferramentas especiais e insumos vários como óleos lubrificantes, fluidos hidráulicos, soluções de arrefecimento e, naturalmente, combustíveis.

A multiplicidade de marcas pode parecer uma contradição. Ocorre que elas não fazem todas o mesmo serviço, não havendo como não comprar equipamentos de fornecedores diferentes. O que não se admite são misturarem-se equipamentos de várias marcas em uma só oficina, a não ser que a quantidade não permita a especialização.

Antecipação

O terceiro passo rumo à previsibilidade é deixar de seguir algumas indicações dos manuais. Não se verifica, antecipa-se a troca, como se faz nos aviões, e é por isso que eles não caem. Digamos que a embreagem de um trator dure, por padrão, 1.500 h, mas uma verificação deva ocorrer com 1.000 h. Se o manual for seguido, essa embreagem torna-se aleatória pois, mesmo que a folga no garfo esteja como esperado, não se pode prever o quão desgastante será a próxima atividade, assim, ela poderá quebrar com 1.200 h, 1.385 h ou qualquer outra indicação do horímetro. Como dizia meu sogro, que tinha um autoelétrico: “o limpador de para-brisas só quebra quando chove”. A quebra, certamente, ocorrerá no campo, causando uma parada inesperada e custosa.

“o limpador de para-brisas só quebra quando chove”

Não há nada pior para o empresário do que a administração pelo susto. Mesmo seguindo os três passos: rotina, homogeneidade e antecipação, a lei de Murphy continua a assombrar. É justamente por isso que é preciso ter sempre uma máquina reserva, mas isso é outra história.

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Luiz Alberto Melchert
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. Dos seus 45 anos de vida profissional, dedicou 35 aos agronegócios, o que o levou a conhecer, virtualmente, todos os recantos do Brasil e suas mazelas. Em sua vida acadêmica de mais de 20 anos, lecionou as matérias de Custos, Orçamento, Operações Estruturadas, Controladoria, Metodologia Científica e Tópicos em Produção Científica. Orientou mais de 180 trabalhos de TCC e participou de, pelo menos, 250 bancas de graduação. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.