BMW M3 E36 e E46: a união entre brutalidade e conforto que deixa saudades

Os BMW sempre fizeram parte da minha vida. Tive literalmente dezenas deles. Dos 296 carros que comprei da concessionária BMW Autostar em dez anos, a maioria foi de BMW. Teve M3, M5, M6, das gerações E36, E46, enfim, muitas delas. De todas as cores, de todos os jeitos, em todos os estados de conservação.

Mas duas particularmente mexeram comigo: foram as duas M3 de duas gerações diferentes, consecutivas, que tive ao mesmo tempo, uma E36 e uma E46. A E36 foi feita entre os anos de 1990 e 2000 (dependendo da carroceria) e a E46 entre os anos de 1998 e 2006. A M3 E36 foi apresentada em 1992 e a M3 E46 em 2000. As duas tiveram várias séries especiais com acabamentos e potências distintas, mas de uma forma geral, a E36 europeia tinha 286 cv e, em setembro de 1995, passou a ter motor 3.2 de 321 cv. A E46, por sua vez, tinha 343 cv.

A M3 mais nova, da geração E46, tinha 343 cv (Foto: Acervo pessoal/Alexandre Ule Ramos)

No Brasil, ambas tiveram duas opções de câmbio, manual e um automatizado, denominado SMG, que nada mais era do que um câmbio tradicional mecânico, mas com trambulador automatizado. As duas que eu tive eram SMG, ambas pretas, uma 1998 (portanto com 321 cv) e a outra 2003 (343 cv).

É impressionante como mesmo depois de tantos anos, esses carros ainda são muito interessantes, com excelente dirigibilidade, confortáveis (sim, confortáveis mesmo, você não leu errado) e “usáveis”. Aí cabe uma explicação: embora fossem carros potentes, eram (e são) dóceis. O câmbio era agressivo, sem dúvida, e demandava muito cuidado para não provocar desgaste acentuado na embreagem. Mas não havia grandes problemas em usar esses carros no dia a dia, em percursos urbanos, por exemplo.

Mas na hora de andar, andavam. E como! A aceleração de 0 a 100 km/h da M3 E46, por exemplo, era feita em apenas 5,2 segundos (estamos falando de um carro lançado há 21 anos, época em que a Porsche 911 Turbo, lançada em 2001, fazia a 100 km/h em 4,2 segundos, e ele era muito mais leve e potente). E o E36? 5,5 segundos, na versão de 321 cv. Um temporal também! O comportamento dinâmico delas também era excepcional. Numa matéria que fiz com o piloto Mauricio Sala, pegamos uma M3 de testes da fábrica, na época de 286 cv (era 1994) e ele fez chover com aquele carro, numa época de Castelo Branco e Marginal sem radares nem trânsito. Aquilo nunca me saiu da cabeça, e quando tive a minha E36, pude constatar como era bacana aquele carro.

A E36, ano 1998, era equipada com a primeira geração da transmissão SMG, mais problemática (Foto: Acervo pessoal/Alexandre Ule Ramos)

A versão americana eu tive também, preta e com câmbio manual, mas o motor não tinha nada a ver com a “alemã”. Eram apenas 240 cv, o sistema de injeção era diferente, o motor era outro. Na verdade, era o mesmo S50, de seis cilindros em linha, com 2.990 cc, mas com acertos e soluções muito diferentes, de acordo com a legislação e normas do mercado estadunidense.

O motor europeu tem tuchos mecânicos e comando VANOS com variação contínua nas válvulas de admissão. A taxa de compressão é de 10,8:1, e o sistema de alimentação usa corpos de borboleta individuais. É um cabeçote bem mais complexo. A taxa de compressão no americano era menor (10,5:1), ele não tem as borboletas individuais do alemão, e conta com tuchos hidráulicos ao invés dos mecânicos da versão europeia.

Apenas por curiosidade, em 1996 o motor da alemã passou a ser o S50 com 3,2 litros e foi para 321 cv, enquanto a americana manteve os mesmos 240 cv, mesmo sendo um motor também novo, o S52.

Com relação ao câmbio, o SMG 1, que estava na E36, tinha fama de quebrar fácil… e realmente chegou a dar alguns problemas. O SMG 2, da linha E46, era muito mais confiável e rápido. Tinha regulagem do tempo de mudança e havia uma última regulagem, que só aparecia quando o controle de tração era desligado, que fazia as passagens de marcha em 88 milissegundos.

Ambas foram vendidas logo, e deixaram muitas saudades. São carros mais brutos, com menos eletrônica e mais emoção. E que um dia ainda vão valer muito.

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Alexandre Ule Ramos é jornalista há 33 anos, formado na Cásper Libero, de São Paulo, e também em Publicidade e Propaganda pela Metodista, de São Bernardo do Campo. Durante muitos anos foi responsável pelo setor de usados do Guia Melhor Compra da revista Quatro Rodas, trabalhou na revista Oficina Mecânica e Hot, teve passagens pela revista Carro, Brasil Transportes, Fúria, Superauto, produziu conteúdo para o Webmotors, Auto+, Feira Livre do Automóvel etc. Tem enorme conhecimento no mercado de carros usados, trabalhando há mais de 22 anos com compra, venda e consultoria de veículos. Já adquiriu mais de 1.000 carros durante essas mais de duas décadas, e, até hoje, permanece ativo na sua função.