(Avaliação) Vale a pena pagar R$80 mil por um popular 1.0? O Renault Sandero GT-Line te responde

Carros populares não são mais populares faz um tempo no Brasil. Os bons tempos de Kwid por R$30 mil, Sandero por R$40 mil e Duster por R$60 mil ficaram mesmo no passado, então o que resta ao consumidor brasileiro é se adaptar aos novos tempos. O Sandero com motor 1.0 encareceu pelo menos R$20 mil desde 2019, ou seja, é o exemplo prático desses aumentos enormes. O hatch grandão da Renault cumpre o que promete e um pouco mais, mas é caro: passa dos R$80 mil nessa versão avaliada GT-Line.

Hatch popular com motor 1.0 por R$80 mil: Sandero GT-Line (Foto: Lucca Mendonça)

Vale lembrar que o GT-Line é um dos últimos representantes do grupo dos “esportivados”, que tem cara de carro rápido mas mantém a mesma mecânica de outras versões comuns. Pelo menos ele fez escola com um esportivo de verdade, o irmão R.S., então tem muito bem pra quem puxar no design: spoilers laterais, lente escurecida nas lanternas, retrovisores com apliques cinzas, kit aerodinâmico (saia frontal, asa traseira e por aí vai) e um belo jogo de rodas aro 16 deixam ele com uma ótima aparência. Por dentro, os bancos exclusivos e detalhes pintados de azul e decorados com imitação de fibra de carbono tentam esconder toda aquela simplicidade e aparência rústica do Sandero. Cai bem, mas os problemas de qualidade de acabamento ainda estão lá.

Por dentro, detalhes exclusivos pra disfarçar o acabamento pobre e a idade do projeto (Foto: Lucca Mendonça)

Virtudes que só o ele tem

Merecem destaque o espaço interno generoso (carroceria alta e larga, embora sem muito espaço para pernas), porta-malas com bom volume e abertura ampla, posição de dirigir anatômica e a confiabilidade mecânica do pequeno motor 1.0 SCe de três cilindros e 12 válvulas que, aliado a um câmbio manual de 5 marchas, surpreende. Falando de mecânica, são 79/82 cv e 10,2/10,5 mkgf de torque extraídos de um motor compacto com concepção moderna (duplo comando variável e fundição inteira em alumínio), que não anima no primeiro momento, mas logo se mostra mais do que eficiente.

1.0 SCe dá um show de eficiência (Foto: Lucca Mendonça)

O carrinho anda bem e responde com agilidade ao comando do acelerador já que a maioria do torque vem em baixas rotações e se mantém estável até próximo dos 4 mil rpm. Pra quem não está acostumado ou só guiou o Sandero com o antigo motor de quatro cilindros, ele se passa tranquilamente por 1.3 ou 1.4, sem demonstrar muita falta de força mesmo nas altas velocidades: acima de 120 km/h e com ar-condicionado ligado ele ainda consegue ganhar velocidade relativamente bem.

A experiência fica ainda mais interessante com o câmbio manual de 5 marchas bem curtas e, pra quem gosta, com alavanca grande, engates justos e funcionamento suave, que não a deixam muito longe das caixas alemãs, como as da VW. Nas devidas proporções de um carro tão simples e de projeto antigo como o Sandero, o conjunto merece destaque não só pelo desempenho, mas também pelo funcionamento bem silencioso (para o segmento) e baixíssimo consumo de combustível: em nossos testes, o computador de bordo registrou médias de 10,2 km/l na cidade e 12,9 km/l na estrada, sempre com etanol. Anda bem, gasta pouco e não faz muito barulho, como deve ser.

Anda bem, gasta pouco e não faz muito barulho, como deve ser (Foto: Lucca Mendonça)

Compacto pra quem vê, médio pra quem anda

A única desvantagem da carroceria alta é a falta de estabilidade e maior coeficiente aerodinâmico, o que pode piorar consumo e desempenho, ou seja, esse segundo caso não afeta o Sandero. No primeiro caso, ele tem bom ajuste das molas e amortecedores, mais voltados pra rigidez do que para a moleza em prol do conforto, mas nem por isso o carro se mostra duro ou desconfortável (pelo menos na maioria das vezes não se comportou como tal). O que pode aborrecer são os barulhos de rodagem e também das peças plásticas do interior. Infelizmente, com o tempo de uso, a tendência disso é piorar.

Pra compensar, ele tem bastante espaço para cabeça e ombros de todos os cinco passageiros e o maior porta-malas da categoria, com 320 litros. Mesmo com 2,59 m de entre-eixos (que fazem mais bonito na ficha técnica do que na prática), o vão para as pernas e joelhos dos ocupantes é apenas suficiente, nada espetacular. Nem por isso ele deixa de ser uma referência quando o assunto é ser um hatch popular com espaço interno de médio.

Bastante espaço para até 5 pessoas e o maior porta-malas da categoria são méritos do Sandero (Foto: Lucca Mendonça)

O que ele entrega de conteúdo por R$80 mil e os rivais

O Sandero nunca foi um carro completo, nem inovou quando o assunto é equipamentos de série. Ele aposta no essencial e não vai muito além disso, mesmo nessas versões mais caras. De série nesse GT-Line, ar-condicionado, direção assistida, volante multifuncional, vidros elétricos nas quatro portas, travas elétricas, computador de bordo, multimídia de 7” com Android Auto/Apple CarPlay, 4 airbags (dois frontais e dois laterais), luzes diurnas de LED (DRL), rodas de liga-leve aro 16, faróis de neblina, sensor de estacionamento traseiro e nada mais. Até mesmo os retrovisores com ajuste elétrico ficaram de fora, assim como a câmera de ré, tudo pra não aumentar ainda mais seu já salgado preço.

Luzes diurnas em LED, faróis de neblina e rodas de liga-leve estão entre os itens de série (Foto: Lucca Mendonça)

Embutindo tudo isso na boa carroceria espaçosa, com mecânica modesta mas atual, aparência atraente que imita os esportivos e confiabilidade típica de um hatch popular, o Sandero GT-Line 1.0 é uma ótima pedida. O único detalhe é que a concorrência já está um passo adiante: a Fiat vende o Argo S-Design 1.0 por cerca de R$77 mil, e o hatch da marca italiana tem tudo que o Renault oferece + ar-condicionado digital automático, chave presencial, retrovisores com ajuste elétrico e função tilt-down, controles eletrônicos de estabilidade (ESP) e tração (ASR), assistente de partida em rampas (Hill Holder) e detalhes em couro no interior.

Dentro desse comparativo entre Renault vs. Fiat, o Sandero já passa longe de ter o melhor custo X benefício, fica caro demais. E mesmo fora dele, existem opções mais interessantes e baratas como o Chevrolet Onix LT turbo por R$78 mil, por exemplo. Resumindo, essa versão GT-Line de R$80 mil é um carro honesto, simpático, espaçoso e, principalmente, caro.

Ficha técnica:

Concepção de motor: 999 cm³, flex, três cilindros, 12 válvulas (quatro por cilindro), aspiração natural, injeção indireta de combustível, duplo comando de válvulas, variador de fase na admissão e escape, bloco e cabeçote em alumínio
Transmissão: manual de 5 marchas
Potência: 79 cv/82 cv a 6.300 rpm (gasolina/etanol)
Torque: 10,2 mkgf/10,5 mkgf a 3.500 rpm (gasolina/etanol)
Suspensão dianteira: Independente, do tipo McPherson, com barra estabilizadora
Suspensão traseira: eixo de torção com molas helicoidais
Direção: do tipo pinhão e cremalheira, com assistência eletro-hidráulica
Freios: discos ventilados na dianteira, tambores na traseira
Pneus e rodas: Continental ContiPowerContact, medidas 195/55. Rodas de liga-leve aro 16
Dimensões (comprimento/largura/altura/entre-eixos): 4,07 m/1,73 m/1,57 m/2,59 m
Porta-malas: 320 litros
Tanque de combustível: 50 litros
Peso em ordem de marcha: 1.035 kg (carro avaliado)
Aceleração 0 a 100 km/h: 13,2 s/13,3 s (etanol/gasolina)
Velocidade máxima: 160 km/h/163 km/h (etanol/gasolina)
Preço básico: R$79.690

Itens de série:

Alerta do cinto de segurança do motorista, Vidro Traseiro com função One Touch, Travas Elétricas, Ar-condicionado, Abertura elétrica do porta-malas, MEDIA Evolution Apple CarPlay® / Android Auto®, Direção eletro-hidráulica, Vidros dianteiros com função One Touch, Comando de satélite no volante, 2 airbags laterais, Sensor de estacionamento traseiro, Alarme perimétrico, Isofix, Sistema CAR – travamento automático a 6km/h, Freios antitravamento (ABS), Cinto de segurança dianteiro e traseiro de 3 pontos, 2 airbags frontais, Indicador de troca de marcha, Computador de bordo, Desembaçador do vidro traseiro, Banco em Tecido, Maçanetas na cor da carroceria, Retrovisor Manual, Luzes diurnas em LED, Farol de neblina, Retrovisor na cor dark metal, Volante com revestimento Premium, Lanternas traseiras com assinatura em LED

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Tem 20 anos, atualmente cursa Publicidade e Propaganda na Universidade Paulista, é filho do jornalista Douglas Mendonça, e desde que se conhece por gente, convive com carros e está envolvido no mundo automobilístico. Aprendeu a ler nas revistas automotivas, cresceu frequentando oficinas, corridas, encontros e eventos com o pai, e daí veio sua maior paixão: os carros. Um gearhead legítimo, Lucca se tornou o braço direito do pai após sua perda de visão em 2012, ajudando na produção de matérias, reportagens, avaliações e textos sobre carros. No Carros & Garagem, é responsável pela cobertura de eventos de lançamento de novos veículos, e produz avaliações, fotos e comparativos de modelos. Os carros estão até nos seus hobbies: Possui um acervo com mais de 300 manuais do proprietário de veículos diversos, incluindo antigos e modernos, além de colecionar revistas, folders, catálogos, e vários outros materiais automotivos.