(Avaliação) Renault Sandero R.S. tem mais virtudes além da mecânica apimentada?

A era dos carros esportivos de rua já passou no Brasil. Não estamos falando das BMW, Mercedes ou Audi, mas sim daqueles modelos mais em conta, geralmente derivados de carros populares comuns. Nessa saudosa lista entram Chevrolet Kadett GS e GSI, VW Gol GTS e GTI, Ford Escort XR3, além dos importados VW Golf GTI, Tipo Sedicivalvole, Chevrolet Calibra, e por aí vai. Todos andavam bem, garantiam uma boa dose de diversão ao volante, não eram tão caros assim, e ainda cumpriam com méritos o papel de um carro comum de uso diário.

Mas não pense que essa espécie está totalmente extinta: o Renault Sandero R.S. ainda é um ótimo representante desse exclusivo segmento, um legítimo esportivo compacto à moda antiga (motor aspirado, câmbio manual e apenas o essencial de auxílios eletrônicos). A fórmula é perfeita pra agradar qualquer gearhead, mas será que ele é só isso?

Essa versão foi inteiramente desenvolvida pela Renaut Sport, a divisão de competições automobilísticas da fabricante francesa, e sempre teve como seu principal mercado o brasileiro. Sim, esse hot hatch é um privilégio nosso (e de mais alguns “hermanos”, como Argentina e Uruguai). Seu lançamento foi em meados de 2015, e, assim como o restante da linha Sandero, ele passou por melhorias muito bem-vindas em 2019, quando o viés esportivo foi ainda mais realçado.

A mecânica é o que podemos chamar de “raiz”: motor 2.0 de aspiração natural com 16 válvulas, bloco de ferro fundido, cabeçote em alumínio e comando duplo no cabeçote, gerando bons 145/150 cv e 20,2/20,9 mkgf de torque (gasolina/etanol), inteiramente disponíveis aos 4 mil rpm. Por aqui, nada de câmbio automático nem dupla embreagem: a transmissão é manual de 6 marchas, com relações curtíssimas, aproveitando ao máximo a força do motor.

Em um carro de pouco menos de 1.200 kg, esse conjunto faz do R.S. um belo foguetinho: 0 a 100 km/h em 8 segundos, atingindo os 202 km/h de velocidade final segundo dados da Renault. E ele pode ficar ainda mais nervoso no modo Sport, que modifica as respostas de acelerador, direção e a atuação dos controles de estabilidade e tração, e Sport+, que desativa por completo a assistência eletrônica de segurança, deixando o carro totalmente na mão do motorista.

A mecânica é raiz: motor aspirado de 2 litros, câmbio manual de 6 marchas e pouca atuação eletrônica (Foto: Lucca Mendonça)

Mas não é só a mecânica que faz dele um carro divertido: as diferenças em relação ao Sandero comum também estão no sistema de direção, recalibrado e mais preciso; suspensões, com molas menores e amortecedores mais rígidos (o que melhora e muito a estabilidade da carroceria); freios redimensionados, com discos também na traseira; além dos detalhes estéticos de muito bom gosto, como os acabamentos em preto brilhante espalhados pela carroceria.

Na prática, esse R.S. é um legítimo carro Sport com uma dirigibilidade apimentada, mas nem por isso perdeu sua principal função: transportar pessoas com conforto, e ter um bom porta-malas para carregar bastante tralha. Obviamente, não espere a maciez ao rodar das outras versões do Sandero, que são totalmente voltadas para o conforto, mas ele consegue driblar razoavelmente bem os “problemas” do asfalto brasileiro, como buracos, valetas e lombadas, absorvendo boa parte das imperfeições do piso.

Além disso, ainda temos os ótimos 2,59 m de entre-eixos e 1,73 m de largura, ou seja, bastante espaço para até quatro adultos e uma criança; um porta-malas de até 320 litros; portas grandes e com bom ângulo de abertura, entre outras praticidades. Tudo isso prova que ele é um esportivo, mas, antes de tudo, ainda é um Renault Sandero (um carro conhecido por cumprir o que promete).

O interior peca pela simplicidade e acabamento de baixa qualidade (foto: Lucca Mendonça)

Claro que algumas coisas decepcionam, afinal nada é perfeito. O consumo, por exemplo, é de carro grande: no circuito rodoviário, rodando suavemente em uma média de 110 km/h, o computador de bordo quase sempre acusava médias abaixo de 8,0 km/l de etanol, número que caía para 5,0 ou 6,0 km/l na cidade, também com combustível de cana no tanque. O acabamento é no melhor estilo do Sandero: muito plástico duro, materiais de baixa qualidade, rebarbas, parafusos a mostra, e por aí vai.

O Isolamento acústico da parte mecânica também é fraco, o que pode ser um problema para alguns ouvidos mais sensíveis, mas, no geral, essa falha acaba tendo um lado bom: assim fica mais fácil ouvir o ronco do motor 2.0 nas acelerações, além do característico ruído do câmbio operando, o que acaba até agradando os mais puristas. Talvez isso nem seja uma verdadeira falha…

Preço e itens de série

Foto: Lucca Mendonça

Na lista de equipamentos se destacam o ar-condicionado automático (porém não digital), direção eletro-hidráulica, conjunto elétrico (vidros, travas e retrovisores), computador de bordo, sensores de estacionamento traseiros, volante multifuncional, piloto automático, luzes diurnas de LED (DRL), multimídia de 7” com conexões Android Auto/Apple CarPlay e câmera de ré, 4 airbags (dois frontais e dois laterais), controles eletrônicos de estabilidade (ESP) e tração (ASR), assistente de partida em rampas (Hill Holder), rodas de liga-leve diamantadas aro 17, e mais algumas coisas mais óbvias.

No preço, o “bicho pega”, porque hoje esse R.S. já bate a barreira das nove dezenas. O carro das fotos custa R$91.500 (R$90 mil de preço básico, mais essa linda cor Vermelho Fogo metálica de R$1.500 adicionais). É um preço assustadoramente caro para um Sandero, mas, ao mesmo tempo, é bem interessante para um carro esportivo que só tem um concorrente, o VW Polo GTS 1.4 Turbo, que ultrapassa a barreira dos R$120 mil. O Volks até pode oferecer mais conteúdo e tecnologia (e oferece mesmo), mas não o suficiente pra custar tão caro.

O Sandero R.S. pode até ser caro e enxuto em conteúdo, mas cumpre muito bem sua proposta: anda bem, é divertidíssimo de guiar, tem uma mecânica pra lá de robusta, e ainda pode servir tranquilamente como um carro de uso diário, oferecendo bom espaço interno, porta-malas grande, e conforto na medida do possível. Tem pouca tecnologia, quase nenhum mimo eletrônico, gasta bastante combustível e tem lá os seus problemas, mas nada que seja altamente preocupante. Um verdadeiro esportivo raiz.

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