(Avaliação) Renault Kardian Evolution manual quer te tirar da mesmice

Nos dias de hoje, SUV e câmbio automático são quase sinônimos. Quase: a Renault é praticamente a única marca a unir essas características em dois modelos, Duster e Kardian. O primeiro tem bastante tempo de mercado e relativo sucesso nas versões manuais. Agora, bacana é ver o Kardian, projeto moderno, cria de uma categoria recente e que não tem muito tempo de mercado, com a opção da transmissão manual. Uma atitude louvável, quase milagrosa, para tirar o segmento da mesmice. Mas, qual a dele? 

Só assim…

O Kardian com três pedais só é oferecido na versão Evolution de entrada, simplificada pelas calotas que imitam rodas de liga-leve (incrivelmente bonitas), ausência de luzes de neblina e menos cromados ou enfeites pela carroceria. Bancos em tecido, freio de mão convencional por alavanca e alguns equipamentos a menos marcam seu interior. Mas é completo, com direito a ar digital automático, volante multifuncional ajustável em altura e profundidade, piloto automático, faróis em LED, luzes de leitura traseiras, painel de instrumentos digital e multimídia com conexões sem fio (esses, iguais aos das versões topo de linha). 

Motorização “top de linha”

Preço oficial? R$107 mil. Mas não é raro achá-lo por menos de R$100 mil em promoções, para peitar o rival Citroën Basalt de entrada e também servir de “sucessor” do antigo Renault Stepway, que saiu de linha recentemente. Frente a esses dois, o Kardian Evolution manual tem um diferencial pra lá de relevante: motor turbo. É o mesmíssimo 1.0 três cilindros, TCe, das versões mais caras, com 120/125 cv de potência e 20,4/22,4 mkgf de torque (gasolina/etanol), que se sobressai pelo funcionamento suave e silencioso (para um tricilíndrico), economia (especialmente no modo Eco) e força em baixa (90% do torque a 1.750 rpm). 

São qualidades que combinam com essa caixa manual de seis marchas que ele traz. Fabricada em Portugal, ela não tem nada a ver com aquela antiga do Sandero R.S. ou de algumas versões do Duster: é um projeto completamente diferente, da última geração de transmissões manuais da marca francesa. Além da alavanca curta, bem posicionada no centro do console, há uma operação de engates justinha e precisa para todas as marchas, lembrando carros alemães.  

Os ocupantes não ouvem praticamente nenhum barulho do seu funcionamento, o que é ótimo, e um suave “click” do trambulador é marca registrada durante as passagens. A Renault soube bem calibrar o pedal da embreagem, leve e progressivo, assim como fez um bom trabalho com as relações: bem longas, o que reduz o esforço de quem dirige (menos trocas) e ainda ajuda na economia de combustível. A sexta, por exemplo, é pura sobremarcha (em quinta a 100 km/h ele vai a menos de 2.900 rpm, e em sexta são cerca de 2.500 rpm), e até mesmo a primeira é longa (garantindo saídas mais elásticas).  

Longo, sim senhor!

Há quem não goste de câmbio longo, afinal não é o ápice da esportividade, mas o Kardian não precisa ser “curto” para andar bem. Como o torque é amplo (o maior dentre os 1.0 turboflex com etanol), aparece bem cedo (2.250 rpm por completo), o carro é leve (menos de 1.180 kg) e a sua proposta não é para performance, existe um conjunto que opta pela condução ágil, suave e progressiva, focada em gastar pouco combustível e fazer menos barulho.  

As trocas podem ser feitas até mesmo antes do indicador do painel (por conta da força em baixa) e ele suporta trafegar sem problemas com o conta-giros lá embaixo, ao redor dos 1.300 rpm. O despertar com total fôlego acontece ao redor dos 2.000 giros, momento em que o 1.0 turboflex atinge seu ápice de força e está com a turbina cheia. Ainda assim, o turbolag é mínimo, pouco perceptível.  

Economia

Fácil de ser conduzido, até mesmo por quem não é muito amigo dos automóveis (direção leve e precisa, pedais espaçados e boa dinâmica), ele conseguiu rondar os 12,0 km/l de gasolina na cidade (com Start&Stop desligado), enquanto na estrada, onde se manteve entre 110 e 115 km/h permanentemente em sexta marcha, não foi surpresa médias entre 17,2 e 17,8 km/l. A tal sobremarcha, de grande valia nas rodovias, parece surtir efeito. Em 580 km percorridos (60% urbanos), não chegou na reserva de combustível. 

Surpreendente econômico, o Kardian conseguiu rodar quase 580 km sem nem entrar na reserva de gasolina (Foto: Lucca Mendonça)

Alguns pontos merecem destaque nessa versão. Um deles foi manter o modo Eco de condução, igual ao da versão automatizada de dupla embreagem: com ele, é possível amansar o acelerador, manter o motor em regimes mais baixos de rotações e acertar o conjunto para gastar menos. Ele permaneceu ligado na maioria da semana de testes. Além disso, o Start&Stop ajuda na economia de combustível sem sacrificar o conforto, já que funciona em conjunto com o ar-condicionado automático digital: se o interior do carro está numa temperatura muito acima do programado, ele mantém o motor ligado e, consequentemente, o compressor em funcionamento. 

Ao volante (e como passageiro)

Por conta da pedaleira um tanto alta, motoristas maiores precisam elevar a posição de condução. Aliás, para um dito SUV, o Kardian tem um “cockpit” bem baixo, com o motorista envolvido por painel, console elevado e os ótimos bancos, de abas laterais enormes e tamanho elogiável. Com 1,87 m de altura, me ajeitei melhor ao volante dele com alguns graus de elevação do assento, o que fez a posição de guiar mudar de “baixa” para “comum” em um SUV. Pena não existir um apoio de braço dianteiro, para melhorar o conforto do motorista.

O espaço interno é generoso, assim como o tamanho do porta-malas, seguindo a receita do Stepway anterior: teto alto e plano, bom entre-eixos, caixas de ar baixas e movimentação interna tranquila. As portas oferecem bom ângulo de abertura, e, como num bom SUV, facilitam o entra e sai.  

Confortavelmente, vão quatro adultos a bordo dele, mas uma criança pode caber no meio do banco traseiro se for preciso. Ali, o ressalto de assento e encosto é baixo, algo que já era comum em outros Renault mais antigos. Só que não há nem comparação quando falamos de estrutura de bancos, espuma e afins: o Kardian é muito superior, o que só ajuda no bem-estar a bordo.  

Para fazer par ao “luxo” da luz de leitura traseira, faltaram mais portas USB: só existe uma tipo A e outra tipo C, ambas no console dianteiro, e nada mais. Saídas de ar para a segunda fileira? Só nas versões mais caras, algo normal no segmento. Ainda assim, como dito acima, é um carro bem recheado por ser de entrada. 

Mais confortável

Esses pneus Continental de perfil alto da Evolution deixaram o Kardian mais confortável. O acerto de suspensões ajuda: macio, sem deixar o carro instável (aliás, em curvas rápidas ele chega a surpreender positivamente). Encarar a buraqueira, valetas, lombadas e outros obstáculos do dia a dia é tranquilo com esse SUV manual, até um pouco mais do que com as versões mais caras com rodas aro 17 e pneus um pouco mais baixos. A altura livre do solo, ângulos de ataque e de saída permanecem bons, iguais aos do restante da linha. Em momento algum chegou a “enroscar” parachoques ou o assoalho por aí.  

Pra sair da mesmice…

Quem quer sair da mesmice, mas nem tanto, tem bons motivos para escolher esse Renault: desempenho, economia, espaço interno e dirigibilidade são pontos fortes. Concorrência? Temos! Além do Citroën Basalt já citado (1.0 aspirado manual por R$100 mil), a Fiat ainda vende (a conta-gotas) seu Pulse 1.3 manual por R$108 mil, quase tão equipado quanto esse Kardian. Mas turbo, com seis marchas, muito pique em baixas rotações e condução até divertida, só ele!  

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Ficha técnica:

Concepção de motor: 999 cm³, flex, quatro cilindros, turbo, injeção direta de combustível, duplo comando de válvulas variável, variador de fase na admissão e escape, bloco e cabeçote em alumínio
Transmissão: manual de 6 marchas + ré
Potência: 120/125 cv a 5.000 rpm (gasolina/etanol)
Torque: 20,4/22,4 mkgf a 2.250 rpm (gasolina/etanol)
Suspensão dianteira: independente, do tipo McPherson, com barra estabilizadora
Suspensão traseira: eixo de torção com molas helicoidais
Direção: assistência elétrica progressiva e configurável
Freios: discos ventilados na dianteira e tambores na traseira
Pneus e rodas: Continental EcoContact 6Q, medidas 205/60 e rodas de aço com calotas aro 16
Dimensões (comprimento/largura/altura/entre-eixos): 4,12 m/1,75 m/1,60 m/2,60 m
Porta-malas: 358 litros
Tanque de combustível: 50 litros
Peso em ordem de marcha: 1.163 kg
Aceleração 0 a 100 km/h: 11,4/11,0 segundos (gasolina/etanol)
Velocidade máxima: 180 km/h (limitada eletronicamente)
Preço básico: R$106.990 (carro avaliado: R$108.890)

Itens de série:

Aerofólio traseiro, alargador de para-lamas, barras de teto modulares em preto, lanterna traseira em LED com assinatura “C-shape”, luz de condução diurna (DRL) em LED, maçanetas na cor do veículo, retrovisores externos em preto brilhante, rodas flexwheel em biton de 16″ Ilhabela, console central standard, interior “zanine” e bancos em tecido preto com detalhes em vermelho, maçanetas internas acetinadas, 6 airbags (frontais, laterais e de cortina), ajuste de altura dos cintos de segurança, alerta de afivelamento dos cintos de segurança para todos os ocupantes, alerta luminoso de frenagem de emergência, assistente de partida em rampa, câmera de estacionamento traseira, controle de velocidade, controles eletrônicos de estabilidade e tração (ESP+ASR), limitador de velocidade, monitoramento da pressão dos pneus, regulagem manual de altura dos faróis, retrovisores com indicadores de direção laterais, sensor de estacionamento traseiro, 4 alto-falantes, ar-condicionado digital com função auto, banco do motorista com regulagem de altura, banco traseiro rebatível 1/3 – 2/3, painel digital de 7″, computador de bordo digital, espelhamento Android Auto® e Apple CarPlay® sem fio, espelhos de cortesia, indicador de trocas de marcha (GSI), luzes de leitura frontais e traseiras, modo ECO + EcoScoring, multimídia flutuante Display Link de 8″, porta USB-A frontal para dados e carregamento, porta USB-C frontal para carregamento, retrovisores com regulagem elétrica, sistema Stop & Start, vidro do motorista com função “one-touch” e anti-esmagamento, vidros elétricos dos passageiros, volante com regulagens de altura e profundidade.

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Com 23 anos, está envolvido com o meio automotivo desde que se conhece por gente através do pai, Douglas Mendonça. Trabalha oficialmente com carros desde os 17 anos, tendo começado em 2019, mas bem antes disso já ajudava o pai com matérias e outros trabalhos envolvendo carros, veículos, motores, mecânica e por aí vai. No Carros&Garagem produz as avaliações, notícias, coberturas de lançamentos, novidades, segredos e outros, além de produzir fotos, manter a estética, cuidar da diagramação e ilustração de todo o conteúdo do site.