(Avaliação) Novo Nissan Versa CVT: mesma base, princípios diferentes

Sabe aquela história do patinho feio que virou cisne? É mais ou menos o que aconteceu com o Nissan Versa. Sua primeira geração, que continua sendo vendida com o nome de V-Drive, nunca agradou no visual, mas compensava isso com vários outros méritos (tremendo espaço interno, mecânica confiável, economia de combustível e boa reputação no mercado, por exemplo). Mas há pouco menos de um ano, tudo mudou: o Novo Versa 2021 chegou ao mercado brasileiro, e fez o Versa ir de “feio” para “bonito” em um piscar de olhos.

Foto: Lucca Mendonça

E põe bonito nisso, afinal essa nova geração do sedan compacto premium da Nissan tem, de longe, um dos designs mais atraentes de sua categoria. As linhas da sua carroceria são fluídas, leves e harmônicas, totalmente opostas as da sua geração anterior. O novo interior também chama atenção, bem mais requintado e atraente, e ele traz bastante tecnologia embarcada, como pede o mercado.

O novo interior, com dois tons nessa versão avaliada, agrada bastante (Foto: Lucca Mendonça)

Quase tudo novo. Quase: a plataforma modular B, a mesma do Versa de primeira geração, foi mantida. Motor, transmissão, suspensões, direção, freios, além da base construtiva, tudo foi melhorado e revisto, mas nada substituído. Ou seja, por baixo dessa carroceria bonita e vistosa, ainda existe a alma e o coração do bom e velho Versa de antes. Acredite, isso tem mais prós do que contras.

Conjunto motor/câmbio: será que realmente precisa de mais?

Motor turbo, injeção direta de combustível, onda do downsizing, nada disso parece ser essencial ao Versa, que manteve sob o capô o bom e velho 1.6 16V aspirado, seu fiel escudeiro há praticamente uma década. Inteiramente fundido em alumínio e com duplo comando variável, ele realmente não impressiona nos números: tímidos 114 cv e 15,5 mkgf de torque, tanto com gasolina quanto com etanol. A transmissão automática é do tipo continuamente variável, nesse caso simulando 6 marchas, e não tem nenhuma opção de trocas manuais.

O consagrado 1.6 16V tem números de potência e torque tímidos, mas gasta pouco combustível (Foto: Lucca Mendonça)

Precisa de mais do que isso? Não. Esse 1.6 é bem adequado e, como a maioria do torque já está disponível nas baixas rotações, sua dirigibilidade se torna bem agradável, com acelerações rápidas e progressivas. Não tem aquela esperteza toda dos motores turbo, mas não decepciona em praticamente nada quando o assunto é desempenho, mesmo com o carro carregado. O câmbio CVT completa o pacote com a suavidade de funcionamento e bom casamento com o motor. Segundo a Nissan, o 0 a 100 km/h é feito em cerca de 10,5 segundos, atingindo os 180 km/h de velocidade máxima.

Nem em matéria de consumo de combustível o 1.6 desaponta: com etanol no tanque, as médias ficaram em 9,2 km/l no circuito urbano e 13,6 km/l no rodoviário. Se tivesse um sistema Start&Stop, gastaria ainda menos. Outra coisa que vai a favor desse motor é a manutenção simples e barata, até pelo tempo que ele tem de mercado. Caso fosse mais cheio de tecnologias e modernidades, a história provavelmente seria outra.

No uso, o carro agrada, mas poderia melhorar

Foto: Lucca Mendonça

Quem já guiou um V-Drive (Ou Versa antigo, se preferir), vai notar algumas semelhanças com esse Novo Versa. Como os componentes mecânicos são os mesmos, apenas aprimorados, temos resultados bem parecidos com os de antes, só que melhores (direção elétrica mais precisa, freios mais eficientes, suspensões mais silenciosas e por aí vai). O novo volante, com regulagem de altura e profundidade, e a instrumentação, herdados do SUV Kicks, formam um conjunto bem resolvido no interior do sedan, e, nessa versão topo de linha Exclusive, o painel em dois tons com acabamento mais premium convence, passando a impressão de um carro de categoria superior.

Os comandos são fáceis de serem operados, mas, nesse carro avaliado, o painel de instrumentos simplesmente não tinha a opção do idioma em português (só o inglês, espanhol ou francês), o que complicava um pouco o entendimento dos menus e funções. Na frente, a ausência de um console central maior, com apoio de braço também para o passageiro foi sentida. Sem isso, também não temos as saídas de ar-condicionado para o banco traseiro, nem tampouco porta USB para carregar celular, o que faz falta em algumas situações.

Na frente, faltou um console central alto com apoio de braço maior (Foto: Lucca Mendonça)

Em compensação, o espaço interno dá um legítimo baile na concorrência, seja no vão das pernas, ombros ou cabeça dos ocupantes. O banco de trás é grande, e permite acomodar até três adultos sem muito aperto, graças aos ótimos 2,62 m da distância entre-eixos e 1,74 m de largura. Nessa nova carroceria, o porta-malas cresceu 22 litros em relação a primeira geração (agora são 482 litros), mas ainda perde para alguns rivais da categoria. Esse aumento sacrificou um pouco do vão entre os bancos dianteiros e traseiro, mas nada tão perceptível assim.

O espaço traseiro continua praticamente imbatível, mas faltam comodidades (Foto: Lucca Mendonça)

Um problema grave que o Versa de primeira geração tinha era a falta de estabilidade direcional em velocidades médias e altas, e isso foi parcialmente corrigido com uma boa revisão no sistema de suspensões dianteiro, incluindo um aumento de 30% no cáster. Melhorou muito, mas ainda não está perfeito: o carro “dança” um pouco mais do que deveria acima dos 110 ou 115 km/h, mas está infinitamente melhor do que antes.

Pra deixar o carro mais premium, a Nissan mexeu em mais pontos importantes. O silêncio a bordo passou da água para o vinho, provavelmente pela adoção de mantas acústicas mais caprichadas, e o conforto ao rodar, que já era bom, ficou ainda melhor, mesmo calçando rodas aro 17 e pneus de perfil baixo. Uma pena os freios traseiros ainda serem a tambor, mas novamente é culpa da plataforma “reutilizada” da geração passada.

Mesmo com as rodas aro 17 e pneus de perfil mais baixo, o conforto e suavidade ao rodar são virtudes (Foto: Lucca Mendonça)

Preço e conteúdo: onde mora o problema

O Novo Versa ainda não embalou no ranking de vendas, pelo menos por enquanto. Em junho, último mês cheio, foram apenas 677 unidades emplacadas. Talvez, uma de suas maiores pedras no sapato seja o preço: essa versão topo de linha Exclusive CVT, por exemplo, é tabelada em R$106.990.

Para se ter uma ideia, o Chevrolet Onix Plus, líder da categoria, vendeu quase seis vezes mais que o Versa no primeiro semestre de 2021, e tem sua versão mais cara tabelada em R$95 mil (Premier II, com motor turbo, câmbio automático convencional de 6 marchas e tão recheado de equipamentos quanto o Nissan). O único que se iguala ao Nissan é o VW Virtus Highline, que também custa algo ao redor dos R$107 mil, mas traz motor 1.0 turbo com injeção direta e 128 cv.

Apesar de todos os méritos, ele custa caro nessa versão Exclusive (Foto: Lucca Mendonça)

Voltando ao Novo Versa Exclusive CVT, sua lista de equipamentos de série é grande, o que faz dele um carro completão: ar-condicionado automático digital, painel de instrumentos com tela multifunção de 7”, sensores de chuva e crepuscular, bancos em couro sintético, chave presencial, partida por botão, faróis e lanternas traseiras em LED, multimídia de 7” com Apple CarPlay/Android Auto e navegador, câmera 360º, rodas de liga-leve diamantadas aro 17, 6 airbags (dois frontais, dois laterais e dois de cortina), além dos controles eletrônicos de estabilidade (ESP) e tração (ASR), monitor de pressão dos pneus (TPMS), e um bom pacote de assistência à condução, que inclui alerta de colisão frontal, frenagem autônoma de emergência, alerta de tráfego cruzado traseiro, monitor de ponto cego e detector de objetos em movimento.

No final, esse Versa Exclusive não é o mais indicado se você estiver em busca de um sedan compacto premium topo de linha. O problema está longe de ser o carro em si, muito pelo contrário, afinal ele se mostrou bem acertado em praticamente todos os quesitos. Quando comparado com o seu antecessor, foi uma evolução e tanto, isso é indiscutível. Mas, cá entre nós: R$107 mil é muita grana, por melhor que o carro seja, ainda mais olhando o preço dos seus principais concorrentes.

O lado bom é que, claro, ele tem versões mais baratas que essa. De todas, a mais interessante na relação custo X benefício é a Advance, que mantém o motor 1.6 e câmbio CVT e custa R$96 mil. Saem os assistentes de condução, faróis em LED, bancos em couro sintético, ar-condicionado digital, rodas diamantadas aro 17 (trocadas por um jogo de 16”), entre outros. Mesmo assim, o painel de instrumentos digital de 7”, os sensores de chuva e crepuscular, multimídia de 7”, 6 airbags e ESP foram mantidos. Existe ainda uma versão de entrada com câmbio manual de 5 marchas, a Sense, mas essa vale até mesmo uma avaliação exclusiva…

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Tem 20 anos, atualmente cursa Publicidade e Propaganda na Universidade Paulista, é filho do jornalista Douglas Mendonça, e desde que se conhece por gente, convive com carros e está envolvido no mundo automobilístico. Aprendeu a ler nas revistas automotivas, cresceu frequentando oficinas, corridas, encontros e eventos com o pai, e daí veio sua maior paixão: os carros. Um gearhead legítimo, Lucca se tornou o braço direito do pai após sua perda de visão em 2012, ajudando na produção de matérias, reportagens, avaliações e textos sobre carros. No Carros & Garagem, é responsável pela cobertura de eventos de lançamento de novos veículos, e produz avaliações, fotos e comparativos de modelos. Os carros estão até nos seus hobbies: Possui um acervo com mais de 300 manuais do proprietário de veículos diversos, incluindo antigos e modernos, além de colecionar revistas, folders, catálogos, e vários outros materiais automotivos.