Avaliação: Ford Mustang Mach-E pode fazer mais sentido que o V8. Sabe como?

Ford Mustang Mach-E - Foto: divulgação

Confesso que a ideia do Ford Mustang Mach-E não fazia muito sentido para mim. Apelar para um SUV sem motor a combustão, sem V8tão, sem ronco bonito, sem tração traseira, ao invés do tradicional (e brutal) esportivo de duas portas, com um motorzão grande urrando e queimando bastante gasolina. Um tanto controverso, e polêmico para carregar o poderoso nome do esportivo. Acompanhei a vida do SUV elétrico desde a estreia por aqui, em 2023, mas só agora decidi conviver com ele por uma semana… 

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Não é o V8, mas tem várias vantagens

E, confesso: foi um belíssimo companheiro. Não, o Ford Mustang Mach-E não é um Mustang de carteirinha, como todos pensam, mas sim um SUV elétrico muito bem acertado, com várias tecnologias bacanas, dirigibilidade afiada, performance de tirar o chapéu (não só para acelerar, como também fazer curvas ou frear), amplo espaço interno, porta-malas generoso e maior robustez pra encarar a vida urbana, cheia de buracos, lombadas, valetas e afins. Nesses três pontos, vale mencionar, o consagrado Mustang V8tão acaba ficando para trás: é apertado, com pouco espaço para malas e requer uma condução bem mais cuidadosa, especialmente em pisos lunares como o brasileiro. Falo de praticidade, mesmo, onde qualquer SUV tende a levar vantagem. 

Ford Mustang Mach-E – Foto: Lucca Mendonça

De onde veio o Ford Mustang Mach-E?

De qualquer forma, vale antes explicar quem é esse tal de Ford Mustang Mach-E. Foi criado nos EUA para combater elétricos de alto naipe, como os Tesla, e chegou ao Brasil como o primeiro carro totalmente elétrico da marca em solo nacional. Com preço alto, apelo exclusivo e importações limitadas, acumula menos de 360 unidades emplacadas em solo nacional, segundo dados da ABVE. Então, sim, é mais raro que muito superesportivo italiano por aí, mas, mesmo nesse chamativo azul metálico do carro avaliado, roda pelas nossas ruas de forma muito mais discreta, e despercebida, que seu irmão V8. Para alguns, ótimo.  

Ford Mustang Mach-E – Foto: Lucca Mendonça

490 cv, e torque de caminhão

Em matéria de acelerar, frear e fazer curvas, supera o V8tão, graças a dois motores elétricos, um acoplado a cada eixo, que somam quase 490 cv de potência com mais de 87 mkgf de torque (a gigante F-150 V8 tem menos de 57, para que se tenha ideia). É do tipo de carro que, numa aceleração brutal, causa tonturas em alguns passageiros mais fracos, aqueles que passam mal em montanha-russa de parque de diversões.

São só 3,7 segundos para ir de 0 a 100 km/h, e, noutro piscar de olhos depois disso, você já vê o velocímetro beirar os 160 ou 170 km/h. Pisando fundo, segue extremamente vivo, e ligeiro, até sua velocidade máxima, pouco antes dos 200 km/h. Se não tivesse limitador eletrônico, certamente iria muito além disso, dado o seu pique em altas velocidades.

Ford Mustang Mach-E – Foto: Lucca Mendonça

Comportado

Nas arrancadas, mesmo nas brutais com modo de condução mais esportivo, entrega elogiável estabilidade, com pouco descontrole da dianteira e inclinação contida da carroceria: a maioria da sua força vem do motor elétrico traseiro, então ele mais empurra do que puxa, para não abandonar completamente o espírito de tração traseira do V8tão. Nem canta pneus, graças a eletrônica competente, e aos pneus esportivos Pirelli PZero Elect, que contam com extrema aderência em pisos secos.

Nas curvas, parece sempre sobre trilhos, com pouca inclinação da carroceria, baixa rolagem lateral da carroceria (sim, ainda há alguma), e, claro, a tração integral permanente com gerenciamentos inteligentes, que vão distribuindo a força entre as quatro rodas em milissegundos. Para frear, enormes discos nas quatro rodas, e pinças Brembo.

Ford Mustang Mach-E – Foto: Lucca Mendonça

Item bacana do Ford Mustang Mach-E é o sistema de suspensões com amortecimento inteligente, que monitora o piso em tempo real e ajusta a carga dos amortecedores priorizando conforto ou dinâmica. Até por isso, mesmo com molas e amortecedores de curso curto, pneus esportivos baixos e jeitão voltado para a performance, ele é um SUV surpreendentemente macio e confortável, filtrando bem as irregularidades de pisos ruins. Nesse quesito, de conforto, também vence facilmente o rígido Mustang V8. Ainda permite cruzar alguns buracos grandes, ou até mesmo lombadas, em maiores velocidades, sem raspar parachoques nem assoalho, e muito menos dar fim de curso das suspensões (aqui, graças aos tais amortecedores inteligentes).  

Espaço interno e porta-malas

E, sem mudar muito de assunto, também é bastante confortável seu amplo espaço interno. O vacilo de não oferecer teto-solar acaba melhorando a altura da cabine, que é espaçosa mesmo para ocupantes altos, em que pese a posição de guiar elevada e mais ereta. Os quase 3 metros de distância entre-eixos ainda permitem que os bancos dianteiros fiquem bem longe do traseiro, o que significa folga também para pernas de quem viaja atrás. E, não, a caída coupé da sua parte traseira praticamente não afeta o espaço para a cabeça dos ocupantes traseiros: ninguém com pernas espremidas, cabeça torta nem ombros apertados. Só que, como é de praxe nos carros elétricos, o assoalho é alto (plano, também). 

Ford Mustang Mach-E – Foto: Lucca Mendonça

No Ford Mustang Mach-E há 420 litros de porta-malas, mais quase 140 no compartimento dianteiro, sob o capô. Ou seja: cabe a tralha de todos os cinco que vão no seu interior, e ainda sobra. É mais um dos pontos impossíveis no V8, onde motorista e copiloto viajam baixos, com um banquinho de dois assentos atrás deles, local exclusivo de crianças ou adultos baixinhos.  

Ergonomia e vida a bordo

No mais, sua ergonomia convence: tal qual os bancos, a coluna de direção do Ford Mustang Mach-E também é mais reta, verticalizada. Macia e extremamente precisa, a direção elétrica se assemelha à de outro SUV confortável, se não fosse pelas respostas muito ágeis e pouco anestesiadas: é daqueles casos que sentimos o comando de algo mecânico por trás do volante, e não só um movimento molenga e insosso. Coisas de engenharia, a mesma que projetou o irmão V8tão. O raio de giro é suficientemente pequeno, então não há problemas em manobras apertadas com ele, embora a visibilidade não seja das melhores (janelas pequenas, colunas largas). Câmeras 360º e sensores de estacionamento para todos os lados (literalmente) ajudam na missão.  

Há alguns botões essenciais em formato físico, mas muita coisa importante só pode ser controlada pela (enorme) multimídia de 15,5 polegadas, que toma todo o brilho da sua cabine para ela. Pudera, é uma telona vertical e bonitona, com alta resolução, mas que é repleta de menus, páginas e funções, e pode apresentar lentidões, ou até rápidos travamentos na operação. Sobra pouco para o painel de instrumentos digital mostrar ao motorista: basicamente velocidade, informações do pacote ADAS, luzes de advertência, odômetro, e informações sobre porcentagem da bateria e autonomia. Ponto forte são os bancos dianteiros, com abas suficientes para segurar motorista e copiloto nas curvas mais rápidas, enquanto não cansam o corpo nem depois de horas ao volante. 

Ah, e ele traz maçanetas ocultas, internas e externas: por fora, as quatro portas são abertas por botões touch instalado nas colunas (incrivelmente práticos, sem grandes segredos ou problemas de uso), enquanto uma pequena alavanca no puxador de porta faz a sua abertura por dentro (menos intuitivo). Sistemas de som, assinado pela Bang & Olufsen, e ar-condicionado, digital automático dual zone com saídas traseiras, cumprem suas funções com méritos, enquanto o sistema de faróis em LED matriciais, daqueles que fazem o recorte inteligente de outros veículos, mantendo a luz alta só em volta deles, merece elogio pela precisão de funcionamento e, principalmente, alcance.  

Pode ser SUV familiar, ou esportivo brutal

Rodei 560 km com o Ford Mustang Mach-E, entre cidade e estrada, em baixas ou altas velocidades, vazio ou carregado de gente. Para quem quer rodar com conforto digno de um sedan de luxo, ele te oferece acelerações suaves e progressivas (quando o pé direito é leve), frenagens confortáveis (mesmo com modo One Pedal) e comportameto macio das suspensões. A fera, de quase 500 cv, está lá e pode ser despertada a qualquer momento, por uma pressão maior no pedal do acelerador. Ele pode virar o bicho, mas, se preferir, podemos ter a companhia de um bom SUV elétrico familiar. Essa dupla personalidade, também, não é comum no V8, que é bruto a todo momento. 

Ford Mustang Mach-E – Foto: Lucca Mendonça

Autonomia e bateria

Consumo de energia e autonomia? Para o tanto que ele acelera, faz curvas e freia, passar dos 400 km de autonomia em percurso misto entre cidade e estrada é uma excelente marca. Rodando só no percurso urbano, com modo One Pedal e tocada suave, indicou alcance superior aos 500 km por carga, sem esforço. Em situação oposta, na estrada com pé pesado, espere cerca de 300 km de autonomia, com fortes tendências para 250 km, caso o percurso tenha muitas subidas (pé pesado e ladeiras são seus drenos de carga, vale falar). Rende suficientemente bem, e fechou a semana de testes com média geral de 5 km/kWh, o que indica 455 km de alcance total. 

Nessa versão importada para o Brasil, o Ford Mustang Mach-E tem bateria enorme, com quase 99 kWh de capacidade bruta, dos quais 91 são úteis. Para esse tamanho de bateria, claro, esperava-se autonomia mais generosa, mas devemos considerar dois motores elétricos tracionando a todo tempo, num SUV de 2,3 toneladas, que oferece quase 500 cv com torque de caminhão. Bom alcance ele tem, só que a bateria de maior capacidade leva a recargas mais demoradas (e caras). Cavalo que anda é cavalo que bebe, não tem jeito: o custo para abastecer o V8, mesmo assim, é muito maior.  

Acabamento e equipamentos

Há bom acabamento interno, mas doses de praticidade maiores ainda, graças a vários porta-trecos espalhados pela cabine. Seu pacote de equipamentos traz o esperado para sua faixa de preços, nada além: fora os itens já citados, o Ford Mustang Mach-E tem bancos dianteiros com ajustes elétricos e aquecimento (sem ventilação nem massagem), volante com aquecimento, rodas aro 20, tampa do porta-malas elétrica presencial, memória de posição para o motorista, sensores de chuva e crepuscular, retrovisor interno fotocrômico sem borda, pacote ADAS com várias funções, além de 9 airbags no total. O carregador wallbox de 7 kW é de série, também.  

Ford Mustang Mach-E – Foto: Lucca Mendonça

Ford Mustang Mach-E tem seu público

No final das contas, encontrei no tal do Ford Mustang Mach-E, esse SUV elétrico dos mais rápidos, um carro multiuso, pra usar no dia a dia, com conforto, bastante espaço, porta-malas grande e condições mecânicas que encaram os obstáculos do uso cotidiano sem sofrer. Tudo com o nome de um dos esportivos mais consagrados da história. Não, não é exatamente ele. Mas, dependendo do que você precisa em um carro, o Mach-E pode ser até melhor… 

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Com 25 anos, está envolvido com o meio automotivo desde que se conhece por gente através do pai, Douglas Mendonça. Trabalha oficialmente com carros desde os 17 anos, tendo começado em 2019, mas bem antes disso já ajudava o pai com matérias e outros trabalhos envolvendo carros, veículos, motores, mecânica e por aí vai. No Carros&Garagem produz as avaliações, notícias, coberturas de lançamentos, novidades, segredos e outros, além de produzir fotos, manter a estética, cuidar da diagramação e ilustração de todo o conteúdo do site.