(Avaliação) Citroën C3 YOU! 1.0 turboflex é a diversão antes do compromisso

Vantagem indiscutível do C3 é o preço: para os tempos atuais, ele tem uma ótima relação custo X benefício, quer seja nas versões “peladas” com motor 1.0 aspirado e câmbio manual, ou nessa topo de linha YOU! (assim mesmo, em letra maiúscula e com ponto de exclamação no final), turboflex automática. Nesse caso, falamos de um carro de pouco mais de R$100 mil, que ainda está em promoção “sem data para terminar” por R$97 mil. Mais barato que um Chevrolet Onix LT ou que um HB20 Limited Plus, ambos “milzinhos” com câmbio manual. E nenhum deles divertido… 

Nessa faixa dos R$100 mil (ou menos), 0 km, não há nada tão esperto, ágil e até esportivo como o C3 YOU! A Stellantis o fez com o que tinha pronto, na prateleira: motor 1.0 turboflex (T200), com três cilindros e injeção direta, e transmissão automática CVT que simula sete marchas. Acertou alguma coisa de suspensões e direção e voilà…nasceu esse carinha das fotos. Ok, para muitos não é o mais bonito, nem tampouco o hatch mais refinado do mercado, e ele nem nasceu para isso, mas falamos de um modelo topo de linha, enfeitado, com motor turbo e câmbio automático.  

A diversão…

Coloque na balança seus pouco mais de 1.100 kg (leveza conseguida graças ao projeto simples), considerando os 125/130 cv de potência com mais de 20 mkgf de torque, e é fácil perceber que o carro pesa muito pouco e tem bastante força. Isso se reflete diretamente nas respostas ao comando do pedal direito: esse motor tem amplo torque em baixas rotações, ou seja, é daqueles fortes sem se esforçar, e o hatch da Citroën catapulta como poucos. Lembra, nas arrancadas rápidas e atuação não muito intrusiva do controle de tração, o irmão maior C4 Cactus THP.

De fato, o CVT do C3 acaba fazendo o contraponto com a proposta mais confortável e progressiva, não tão nervosa para acelerar, mas mesmo com a caixa continuamente variável, é de surpreender o quanto o leve hatch pode andar. Literalmente, pelos números reais de aceleração, é tão rápido quanto um VW Polo GTS, esportivo de carteirinha. Nas arrancadas mais fortes, o Citroën ronca bonito (esse T200 é um dos 1.0 turboflex com barulhos mais gostosos) e canta pneu como gente grande. Quem não conhece, assusta.  

De fato, muita gente olha para o C3 YOU! e não coloca fé na sua performance, muito pelo estigma limitado do motor 1.0 aspirado ou pela falta de progressividade dos 1.6 16v, geralmente automáticos. E, cá entre nós, ele não exala nenhuma esportividade: é altinho, com um amplo vão livre do solo, tem pneus “balão” com rodas pequenas e, tirando alguns adesivos azuis pela carroceria, parece muito com suas versões de entrada, como a Feel Pack.  

“Pega-trouxa”

Como costumam dizer por aí, um perfeito “pega-trouxa”: no uso em rodovias, era divertido esperar algum apressado vir piscar luz alta para o Citroën, esperando aquele “carrinho sair da frente”, e logo depois ver o cidadão ficando para trás com “cara de tacho” a bordo do seu carro maior e mais potente. O modo Sport de condução, apesar da ativação por uma tecla escondida no lado esquerdo do painel (atrás do volante), era o segredo: ela agiliza todo o conjunto, tornando o acelerador eletrônico mais sensível, o CVT (muito) mais responsivo e o motor mais girador, dando fôlego quase imediato ao C3 nos momentos de maior pressa. E diversão.  

Além do 0 a 100 km/h abaixo dos 9 segundos aferidos, o carrinho consegue desenvolver bem nas médias e altas rotações, por conta da tecnologia MultiAir de admissão variável e variador de fase também no escapamento. Não só as arrancadas são rápidas, mas as retomadas também. Tudo isso, vale falar, bebendo pouco: aferimos 17,3 km/l com gasolina na estrada (ao redor de 12,5 km/l na cidade), ou 14,1 km/l com etanol no ciclo rodoviário (10,4 km/l no urbano). Nos 650 km a bordo do hatch, tivemos como pior média 7,2 km/l de etanol com ar-condicionado ligado e trânsito carregado.

Dinâmica

Tudo bem que, altinho e com suspensões elevadas assim, ele não é o mestre das curvas rápidas, nem tampouco tem a estabilidade direcional de um esportivo legítimo (normalmente com pneus mais largos e pouca altura do solo). Ele compensa essa dinâmica boa, mas não muito esportiva, com a competência de encarar lombadas, valetas, buracos e ondulações de pista sem medo nenhum. Aliás, nesse sentido, o C3 de atual geração sempre foi um “tanque de guerra”, muito parrudo. 

Molas e amortecedores ajustados pela Stellantis ficaram um pouquinho mais rígidos, mas nem chegam a atrapalhar o molejo dos passageiros lá dentro. O conforto continua acima de tudo, assim como o silêncio ao rodar. Ou seja, a tal premissa do “tapete voador” da Citroën continua sendo seguida à risca, mesmo nesse C3 apimentado. Ajudam os pneus Pirelli iguais aos das versões de entrada, com perfil alto e composto macio. Porém, cairia muito bem nessa versão uma direção mais direta e multiplicada, mais ou menos com a calibração encontrada no irmão Peugeot 208.  

O compromisso…

A diversão é garantida, mas e a tal parte do compromisso? Pois é. Mesmo com 130 cv e fazendo 0 a 100 km/h em menos de 8,5s, ainda falamos de um C3 atual. Mais uma vez, é nítido que ele fica devendo um acabamento mais esmerado, ou até mesmo algum recheio extra de série (como um painel de instrumentos de verdade), mas, além da bravura para encarar obstáculos e da boa altura do solo que permite até off-roads leves, o hatch da Citroën é bom de espaço interno, porta-malas e praticidade a bordo.  

No primeiro, podemos falar sem medo que cabem quatro adultos e uma criança a bordo dele, com bom vão para pernas e bastante folga para ombros e cabeças dos ocupantes traseiros (com 1,87 m de altura, ainda fico a quatro dedos de encostar no teto). O espaço dianteiro também é amplo, com vãos interessantes para as pernas de motorista e copiloto. Nessa versão, já existem os bancos da frente parecidos com os dos C4 Cactus: maiores, com abas laterais mais generosas e espuma acertada. Airbags laterais embutidos? Ficam devendo. Mancada, pois já existem no Basalt e Aircross. 

Lá atrás, 315 litros de porta-malas permitem acomodar as bagagens de tudo mundo que vai a bordo do carro. O compartimento é bom nas dimensões, principalmente altura, e tem como vantagem a tampa leve e fácil de ser aberta, mesmo com as mãos cheias. Prático.  

O acesso aos comandos é fácil, afinal a simplicidade do projeto do C3 já não previa tanta coisa assim: basicamente, multimídia, controles do ar-condicionado (analógicos, mas poderiam ser digitais com modo automático), botões do volante multifuncional, a tecla única para mexer no computador de bordo e outros pormenores (pisca-alerta, ajuste elétrico dos retrovisores e travas elétricas). Complicadíssimo é aceitar seu “painel de instrumentos”, que é basicamente uma tela de cristal líquido preta e branca com velocímetro, marcador de temperatura e nível de combustível. Basalt e Aircross já trazem uma verdadeira tela digital configurável de 7”, que cairia como uma luva no C3 YOU! 

Equipou? Encareceu!

Só que, como diz o ditado, “não existe almoço grátis”. Colocando tudo que esse C3 1.0 turboflex merece na sua lista de itens de série, seria praticamente impossível tê-lo a venda pelos tais R$100 mil (os R$97 mil promocionais, nem pensar). O valor subiria. Aí teríamos um hatch ainda muito divertido e competente, mas com preço bem menos atraente.  

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Ficha técnica:

Concepção de motor: 999 cm³, flex, três cilindros, 12 válvulas (quatro por cilindro), turbo, injeção direta de combustível, comando de válvulas único no cabeçote, variador de fase no escapamento, MultiAir, bloco e cabeçote em alumínio
Transmissão: automática tipo CVT com simulação de sete marchas e opção de trocas manuais na alavanca
Potência: 125/130 cv a 5.750 rpm (gasolina/etanol)
Torque: 20,4 mkgf a 1.750 rpm (gasolina/etanol)
Suspensão dianteira: independente, McPherson, com barra estabilizadora
Suspensão traseira: eixo de torção com molas helicoidais
Direção: com assistência elétrica progressiva
Freios: discos ventilados na dianteira e tambores na traseira
Pneus e rodas: Pirelli Cinturato P1, medidas 195/65 e rodas de liga-leve aro 15
Dimensões (comprimento/largura/altura/entre-eixos): 3,98 m/1,73 m/1,60 m/2,54 m
Porta-malas: 315 litros
Tanque de combustível: 47 litros
Peso em ordem de marcha: 1.115 kg
Aceleração 0 a 100 km/h: 8,5/8,4 segundos (gasolina/etanol)
Velocidade máxima: 192/194 km/h (gasolina/etanol)
Preço básico: R$100.990 (carro avaliado: R$102.590)

Itens de série:

Abertura elétrica da tampa do combustível, airbags frontais (2x), alarme perimétrico, brake-light traseiro, câmera de ré, chave canivete, ESS – Emergency Stop Signal, faróis de neblina dianteiros, TPMS – Sensor de detecção de pressão dos pneus, travamento automático das portas com veículo em movimento, travas manuais de segurança para crianças das portas traseiras, Hill Holder – Assistente de partida em rampa, indicadores de direção laterais nos retrovisores externos, ar-condicionado, aviso de portas e porta-malas abertos, computador de bordo, modo Sport, retrovisores externos com ajustes elétricos, limpador e desembaçador do vidro traseiro, luzes diurnas em LED, vidros elétricos nas quatro portas com one touch e anti-esmagamento, volante multifuncional com regulagem de altura, sistema de som com 6 alto-falantes, conexões Apple Car Play™ e Android Auto® sem fio, Multimídia Connect de 10″ –  AM/FM, MP3, Bluetooth e função vídeo, dupla saída USB traseira (carga), saída USB dianteira (carga + dados), tomada 12V (dianteira), apoio de cabeça nos bancos traseiros (3x), bancos com revestimento premium e encostos de cabeça ajustáveis, banco do motorista com ajuste de altura, aeradores e comandos de ventilação com detalhes cromados, adesivos azuis na coluna C, adesivos pretos na coluna A, adesivos pretos na coluna B, Emblema dianteiro cromado, maçanetas internas pintadas em prata, maçanetas externas na cor da carroceria, molduras dos faróis de neblina na cor azul, molduras plásticas nas caixas de roda, painel com aplique na cor azul metálico, para-choques dianteiros e traseiros na cor da carroceria, capas dos retrovisores externos em preto brilhante, soleiras de portas dianteiras em alumínio, tapetes em carpete YOU!, rodas em liga-leve 15″ pintadas em preto.

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Com 23 anos, está envolvido com o meio automotivo desde que se conhece por gente através do pai, Douglas Mendonça. Trabalha oficialmente com carros desde os 17 anos, tendo começado em 2019, mas bem antes disso já ajudava o pai com matérias e outros trabalhos envolvendo carros, veículos, motores, mecânica e por aí vai. No Carros&Garagem produz as avaliações, notícias, coberturas de lançamentos, novidades, segredos e outros, além de produzir fotos, manter a estética, cuidar da diagramação e ilustração de todo o conteúdo do site.