(Avaliação) Chevrolet Cruze hatch RS nada contra a maré de SUVs. Ainda é um bom negócio?

Assim como em um daqueles filmes com temática de fim do mundo, que a raça humana é extinta e só existe um sobrevivente, o Chevrolet Cruze hatch está mais sozinho do que nunca. Ele viu literalmente todos os seus concorrentes saírem de linha, ficou na defensiva na maré dos SUVs, mas continua firme e forte, inclusive se renovando. Essa série RS, como prova, chegou só há alguns meses.

Cruze hatch está longe da sua época de ouro, mas não morto (Foto: Lucca Mendonça)

Ela é a única versão disponível para o Cruze hatch atualmente, e quiçá a última. Não sai por menos de R$158 mil com seu estilo apimentado, parachoques exclusivos, detalhes em black piano, cromados reduzidos, máscara escurecida nos faróis e lanternas e, como toque final, teto e aerofólio pretos. O carro é bonito e chama a atenção na rua, ainda mais nesse vermelho metálico, uma das quatro cores do catálogo.

Idade ainda não pesa muito

Essa segunda geração do Cruze já tem mais de seis anos, mas ainda não está tão ultrapassada (Foto: Lucca Mendonça)

A segunda geração do Cruze já passa dos seis anos de lançamento sem mudar muita coisa (os pinos de trava das portas que o digam), mas ainda não ficou ultrapassada. Esse RS pode ser superior a um Tracker atual, por exemplo, que se situa na mesma faixa de preço dele. Um ótimo exemplo é o seu motor 1.4 turboflex Ecotec, que não é nenhuma novidade mas entrega tecnologia superior e funcionamento mais suave que os 1.0 e 1.2 CSS Prime.

Nesse RS são bons 150/153 cv de potência e 24,0/24,5 mkgf de torque graças a injeção direta, turbo e duplo comando variável. Sua transmissão automática é a GF6, coringa da GM, que tem seis marchas com relações longas e se adapta bem a cada estilo de condução, embora se mostre um pouco indecisa nas trocas em algumas situações.

Motor 1.4 Ecotec oferece mais tecnologia que os CSS Prime (Foto: Lucca Mendonça)

Bom desempenho e “un poquito más”

Tudo bem que seu design arisco deixa no ar a expectativa de acelerações avassaladoras ou ronco de esportivo, mas na realidade o Cruze RS mais parece do que realmente é. O turbolag é pequeno, assim como o tempo de resposta do acelerador, o que deixa o carro bem vivo quando se pisa fundo, mas não entrega toda aquela esportividade que ele sugere.

A Chevrolet declara cerca de 9 segundos na prova de 0 a 100 km/h, enquanto a velocidade máxima, ajudada pelo bom Cx de 0,30, beira os 215 km/h. Uma boa forma de resolver isso seria um modo Sport para atiçar o conjunto, muito bem-vindo nessa RS, ou os paddle-shifts atrás do volante (as trocas manuais só podem ser feitas na própria alavanca).

Seu visual sugere mais esportividade do que ele realmente entrega, mas ainda é um carro rápido (Foto: Lucca Mendonça)

O “poquito más” fica pelo consumo de combustível dos bons, principalmente se o condutor dosar o pé e souber aproveitar a inércia dos trechos de descida, quando os quilinhos a mais do Cruze fazem a diferença. O sistema Start&Stop, que aqui não é oferecido, cairia como uma luva nesse 1.4 turbo, que registrou até 10,6 km/l na cidade e 17,2 km/l na estrada, sempre com gasolina nos nossos testes.

Falta esmero, mas de resto…

Por dentro do Cruze hatch existe uma boa pitada de Equinox, mas esse RS merecia um melhor acabamento. Mesmo com as clássicas costuras vermelhas de banco e uma mistura bacana entre cromados e black piano, o plástico é mais comum do que deveria, assim como algumas peças desalinhadas e com encaixe frágil. Por ser um carro médio e custar quase R$160 mil, bem que poderia entregar algo mais esmerado.

Interior é espaçoso e lembra o do Equinox, menos no acabamento… (Foto: Lucca Mendonça)

Por outro lado, no geral quase tudo agrada, como os bancos baixos, que, aí sim, combinam bem com a pegada esportiva do modelo, ou espaço interno que chega a surpreender no vão para as pernas e altura do teto. Mesmo quem tem quase 1,90 m de altura não encontra dificuldade pra guiar ou andar de passageiro no Cruze RS. Bola fora é o porta-malas que só tem 290 litros declarados, embora pareça ser um pouquinho maior do que é.

Porta-malas tem 290 litros, bem pequeno, mas parece ser maior do que realmente é (Foto: Lucca Mendonça)

Um projeto antigo, mas bem feito, que ainda leva na conta o conforto igual ou superior ao de um SUV (mesmo com os pneus de perfil não tão alto), bom trabalho das suspensões para garantir um rodar suave ou carroceria comportada ao volante, como esperado. O Cruze, diferente de alguns dos seus finados rivais, tem um esquema construtivo mais simples, que dispensa suspensões independentes ou fixação multibraço do eixo traseiro, mas é bem calibrado.

Pneus de perfil não muito alto com rodas 17, mas bastante conforto e suavidade sem perder na dinâmica (Foto: Lucca Mendonça)

Negócio alternativo, mas bom?

A Chevrolet sabe que ainda existe espaço para um negócio alternativo aos utilitários, tanto é que ainda investe no único hatch médio do mercado nacional abaixo de R$200 mil. Por outro lado, o fogo-amigo vem do Tracker Premier 1.2 turbo, que tem preço parecido mas oferece muito mais conteúdo de série, o que inclui conectividade, segurança, conforto ou mimos variados. Uma bela briga interna.

Cruze RS fugindo da mesmice e Tracker com mais conteúdo: uma bela briga interna (Foto: Lucca Mendonça)

O Cruze RS, verdade seja dita, entrega pouco pelo que custa. Traz uma boa oferta de equipamentos, mas nada além daquilo que era trivial no segmento em 2016, ano da estreia da sua segunda geração. Apesar de focar naqueles consumidores que fogem à regra, esse hatch médio da Chevrolet acaba pecando na relação custo X benefício, que vale muito nos dias de hoje. Talvez seja esse o preço da exclusividade…

Ficha técnica:

Concepção de motor: 1.399 cm³, flex, quatro cilindros, 16 válvulas (quatro por cilindro), turbo, injeção direta de combustível, duplo comando de válvulas, variador de fase na admissão e escape, bloco e cabeçote em alumínio
Transmissão: automática com conversor de torque de seis marchas e opção de trocas manuais na alavanca
Potência: 150/153 cv a 5.200 rpm
Torque: 24,0/24,5 mkgf a 2.000 rpm
Suspensão dianteira: independente, do tipo McPherson, com barra estabilizadora
Suspensão traseira: eixo de torção com molas helicoidais
Direção: com assistência elétrica progressiva
Freios: discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira
Pneus e rodas: Pirelli Cinturato P7, medidas 215/50. Rodas de liga-leve aro 17
Dimensões (comprimento/largura/altura/entre-eixos): 4,45 m/1,80 m/1,48 m/2,70 m
Porta-malas: 290 litros
Tanque de combustível: 52 litros
Peso em ordem de marcha: 1.331 kg
Aceleração 0 a 100 km/h: 9 segundos (etanol)
Velocidade máxima: 214 km/h (etanol)
Preço básico: R$158.150

Itens de série:

Seis airbags, Alarme Anti-furto, Alerta de Pressão dos Pneus, Alerta de esquecimento de pessoa ou objeto no banco traseiro, Aviso sonoro para utilização do cinto de segurança do motorista e passageiro, Controle de tração, Controle eletrônico de estabilidade, Luzes de neblina, Luz de condução em LED, Regulagem de altura dos faróis, Sensor de estacionamento dianteiro e traseiro, Roda de liga leve aro 17″ com acabamento exclusivo para a versão RS, Acendimento automático dos faróis através de sensor crepuscular, Ar-condicionado com controle eletrônico de temperatura e sistema automático de recirculação, Assistente de partida em aclive (Hill Start Assist), Câmera de ré de alta resolução, Chave presencial, Volante multifuncional com regulagem em altura e profundidade, Controlador de velocidade de cruzeiro e limitador de velocidade, Espelhos retrovisores externos elétricos, aquecidos, com indicador de direção e rebatimento elétrico, Espelho retrovisor interno eletrocrômico, Sensor de chuva com ajuste automático de intensidade, Sistema de partida do motor por controle remoto “Remote Start System”, com acionamento do Ar-Condicionado, Teto solar elétrico, Vidro elétrico nas portas com acionamento por “um toque”, anti esmagamento e fechamento/abertura automática pela chave, Multimídia MyLink com tela de 8″, Android Auto/Apple CarPlay, Rádio AM/FM, Conexão Bluetooth para Celular e configurações do veículo, Sistema premium de áudio com 4 alto-falantes, 2 Tweeters

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Tem 20 anos, cursa Publicidade e Propaganda, é filho do jornalista Douglas Mendonça, e desde que se conhece por gente, convive com carros e está envolvido no mundo automobilístico. Aprendeu a ler nas revistas automotivas, cresceu frequentando oficinas, corridas, encontros e eventos com o pai, e daí veio sua maior paixão: os carros. Lucca se tornou o braço direito do pai após sua perda de visão em 2012, ajudando na produção de matérias, reportagens, avaliações e textos. No Carros & Garagem, é responsável pela cobertura de eventos de lançamento de novos veículos, e produz avaliações, fotos e comparativos de modelos.