A pirâmide etária e o mercado de automóveis

Não há uma semana em que não se encontre uma matéria sobre porque os carros deixaram de ser o sonho de consumo da população brasileira. Eu mesmo escrevi matérias acerca disso neste e em outros espaços. Numa delas, procurou-se mostrar que, se não fossem os chineses a adotar o transporte motorizado individual, a indústria mundial de automóveis estaria numa crise sem perspectivas de solução. 

Por mais modernos e tecnológicos que sejam, os carros não são mais sonho de consumo do público brasileiro (Foto: Chevrolet/divulgação)

Uma das provas de que o carro foi destronado é a diminuição dos investimentos públicos em obras viárias urbanas. Quando se fala em obras viárias, não se está referindo à aplicação de calçamento em ruas já existentes, mas à construção de grandes vias expressas, cuja função seja desafogar um trânsito que tende a uma condição estável de congestionamentos.  

Em outros tempos, a obra do Túnel Sena Madureira seria aplaudida. Hoje, reclamam sobre mais de 300 árvores derrubadas (Foto: Prefeitura de São Paulo/divulgação)

Na verdade, uma obra como a que se iniciou em São Paulo, um túnel ligando a Rua Sena Madureira à Av. Ricardo Jafet, embargada havia catorze anos, causou repulsa popular, em vez dos esperados aplausos de anos atrás. A derrubada de trezentas árvores causou comoção inimaginável quarenta anos antes, quando tudo era aceitável em nome de um pretenso progresso.  

O que mudou? Três coisas mudaram muito nos últimos trinta anos, a começar pela pirâmide etária. As outras duas estão intimamente ligadas a ela: o custo de propriedade do automóvel e a melhora dos sistemas de transporte público. 

Segundo o IBGE, entre 2010 e 2022, a população do Brasil cresceu somente 6,5%, o que confere um crescimento vegetativo anual de 0,56% ao ano. Isso faz o mesmo órgão prever que, a partir de 2050, o número de habitantes comece a cair. Enquanto isso, a idade média do brasileiro, que era de dezenove anos na década de 1970, atingiu os quarenta e cinco anos nesta década. Somente em São Paulo, há 2,1 milhões de moradores com mais de sessenta anos.  

A idade média do brasileiro está bem maior, segundo o IBGE. Só em São Paulo capital, há mais de 2 milhões de pessoas acima de 60 anos (Foto: Adamo Bazani)

É nesse momento que surge a maior confusão conceitual que acaba por distorcer, inclusive, os investimentos. Uma pessoa com mais de sessenta anos dificilmente vai comprar a primeira casa própria, visto que, cada ano que passa, maior fica a incerteza de quanto tempo resta e, atrelado, vem o temor de porquanto tempo será possível manter renda capaz de amortizar esse investimento.  

Se essa população acima de meia-idade já não compra um imóvel, que, na teoria, ganha valor com o tempo, o que dirá de um automóvel? (Foto: Brasilwagen/divulgação)

Se acontece com imóveis, que se supõe valorizarem, o que acontece quando se fala em automóveis, cuja desvalorização é líquida e certa? Somem-se as limitações oriundas da idade e a probabilidade de um ser humano minimamente racional adquirir um carro depois dos setenta anos, que isso tende muito rapidamente a zero. 

Independentemente de como se amealharam os recursos para a velhice, a tendência é de a renda diminuir, descontados os gastos com medicina e saúde, que levam o idoso a frequentar farmácias com muito mais frequência do que bares e restaurantes. Ao mesmo tempo, o custo de propriedade dos automóveis é crescente, seja porque seu valor inicial passa a contemplar cada vez mais equipamentos de segurança ambiental e pessoal, seja porque os serviços adjacentes à conservação tendem a subir na medida em que o veículo em si se desvaloriza. Alguns equipamentos, que se consideravam luxo no passado, passaram a ser extremamente comuns. Entre eles a transmissão automática. 

O custo de propriedade de um carro é cada vez maior, inclusive porque o automóvel ganha cada vez mais tecnologias e equipamentos de série (Foto: Lucca Mendonça)

É nesse ponto que entra uma grande nova concorrência: os aplicativos ligados à mobilidade urbana. Criaram-se aplicativos que planejam o itinerário mais racional para ir-se a qualquer ponto da maioria das cidades, escolhendo as linhas a serem usadas e, como se não bastasse, a posição em que se encontram os carros no mapa, tal que as conexões podem ser previstas com razoável precisão. Já se foi o tempo em que os pontos ficavam abarrotados de gente que não sabe a que horas vai passar o ônibus desejado.

Sem contar que vários apps hoje já mostram a localização exata do ônibus, seus horários e itinerários, com possibilidade de planejamento de percurso e mais (Foto: CittaMobi/divulgação)

É possível sincronizar a saída de casa e a chegada do carro desejado. Além disso, os ônibus são cada vez mais bem servidos de acessórios, como tomadas USB para carga de celulares, wi-fi e ar-condicionado, o que se deve somar à crescente acessibilidade. Carros com piso baixo e capacidade de baixar rampas, quando não recolher a suspensão, estão-se tornando comuns, o que possibilita levar carrinhos de compras, carrinhos de bebê, cadeiras de rodas e até bicicletas, algo inimaginável quando os ônibus eram construídos sobre chassis de caminhão. 

Os carros? Parecem cada vez mais um monumento da engenharia moderna, nada muito além (Foto: Mercedes-Benz/divulgação)

Além de todas as vantagens ambientais que a generalização do transporte público coletivo pode trazer, parece haver outra ainda surpreendente. Com a queda do mercado dos carros populares, o automóvel passa a ser merecidamente encarado como um monumento à engenharia. 

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. Dos seus 45 anos de vida profissional, dedicou 35 aos agronegócios, o que o levou a conhecer, virtualmente, todos os recantos do Brasil e suas mazelas. Em sua vida acadêmica de mais de 20 anos, lecionou as matérias de Custos, Orçamento, Operações Estruturadas, Controladoria, Metodologia Científica e Tópicos em Produção Científica. Orientou mais de 180 trabalhos de TCC e participou de, pelo menos, 250 bancas de graduação. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.