1.6 16V EC5: Passado, presente e futuro do motor veterano da Peugeot/Citroën

Toda fabricante ou grupo automotivo que se preze tem seus motores “queridinhos”, aqueles que duraram (ou duram) décadas em produção, moveram diversos carros e caíram nas graças do consumidor, seja pela manutenção fácil, economia de combustível, poucos problemas crônicos ou tudo isso junto.

É fácil citar alguns exemplos, como a famosa linha AP (1.6, 1.8 e 2.0) ou a família EA-111 (1.0 e 1.6) da Volkswagen, os Fiasa (1.05, 1.3 e 1.5) e Fire (1.0, 1.3 e 1.4) da Fiat, propulsores Família 1 (1.0, 1.4, 1.6 e 1.8) e Família 2 (2.0, 2.2 e 2.4) da Chevrolet, Duratorq (2.2 e 3.2) da Ford, Família K (1.0 e 1.6) da Renault e, claro, sem esquecer do TU (1.0, 1.4 e 1.6) da Peugeot/Citroën.

Da família TU veio o 1.6 16V EC5 que conhecemos hoje (Foto: PSA/divulgação)

Falando dessa tal linha TU, é dela que se originou o famoso 1.6 16V EC5 (na época TU5) que equipa parte dos carros atuais da Peugeot e Citroën no Brasil. Na realidade, o 1.6 é o irmão maior da família, que estreou em 1986 na Europa, e originalmente tinha versões de 8 ou 16 válvulas. Abaixo dele, antes existia o 1.4 8V (TU3, conhecido por aqui nos Peugeot 206 e Citroën C3), 1.3 8V (TU2), 1.1 8V (TU1) e 1.0 8V (TU9, que equipava Peugeot 106 e Citroën AX importados para o mercado nacional), mas todos já saíram de linha mundo afora.

Mas vamos focar na variante 1.6, que ainda está entre nós. Quem pensa que ela estreou no Brasil equipando o Peugeot 206 em 1999, está enganado: A bem da verdade é que esse motor foi lançado por aqui pela Citroën, em maio de 1998, quando equipava o Xsara, sempre com 16 válvulas. O próximo a usá-lo, aí sim, foi o hatch da Peugeot, mas só no ano seguinte e na versão de 8 válvulas, construtivamente mais simples. Os 206 1.6 16V chegaram alguns meses depois, já próximo do ano 2000.

A responsável por estrear o 1.6 16V no Brasil foi, na realidade, a Citroën com o Xsara 1998 (Foto: Citroën/divulgação)

Sua concepção era moderna para a época. Nos carros mais caros, tinha 1.587 cm³ de cilindrada, quatro cilindros, 16 válvulas, injeção eletrônica multiponto, duplo comando de válvulas, sincronização por correia dentada, cabeçote em alumínio e 110 cv de potência com 15 mkgf de torque. Lembrando que ainda não existiam os carros flex, e, nesse caso, os Peugeot/Citroën eram movidos unicamente à gasolina.

Até então importado da matriz da PSA na França, o EC5 (ou TU5, se preferir) passou a ser feito na Argentina logo no início dos anos 2000. Nessa altura do campeonato, as versões de 16 válvulas dominavam o ranking de vendas dos modelos equipados com esse 1.6, então, por isso, saía de cena ali a versão mais simples de 8 válvulas. Logo depois, em 2003, ele e os carros da PSA se tornaram nacionais com a inauguração da fábrica de Porto Real (RJ).

Inicialmente francês e depois argentino, o EC5 se tornou brasileiro em 2003 (Foto: PSA/divulgação)

Seguindo na linha do tempo, no finalzinho de 2005 o 1.6 16V ganhou melhorias diversas e também uma inédita versão flex, estreada pelo Citroën C3. Com etanol no tanque, agora esse motor produzia até 113 cv de potência e 15,5 mkgf de torque. Não demorou muito para surgir o casamento dele com a famigerada transmissão automática AL4, de quatro velocidades, em um inédito conjunto mecânico que estreou no Peugeot 206 em agosto de 2007.

Nessa altura do campeonato, o 1.6 16V EC5 já equipava versões mais caras dos populares Peugeot 206 (incluindo sua perua) e Citroën C3, além do médio Peugeot 307 e sua carroceria sedan, e a minivan Citroën Xsara Picasso. Algum tempo depois era lançado o 207 hatch, sedan, perua e picape (essa só em 2011), além do Citroën C4 hatch, que também utilizavam o consagrado 1.6 em parte da suas linhas.

Na época, vários modelos da Peugeot e Citroën eram movidos pelo 1.6 16V, incluindo o C4 hatch (Foto: Citroën/divulgação)

Grandes mudanças em 2012

Por motivos de força maior (nesse caso, as famosas leis de emissão de poluentes), a PSA precisou se mexer para modernizar o motor TU5 entre 2012 e 2013, ano que, não por coincidência, se iniciou o programa do governo federal de modernização automotiva Inovar-Auto.

Além de um novo coletor de admissão e taxa de compressão substancialmente aumentada (de 11:1 pra 12,5:1), o 1.6 16V ganhou mudanças importantes como o variador de fase na admissão e escape, bielas e pistões redesenhados e fundidos em liga-leve, tuchos hidráulicos, nova bomba de óleo, sensores que permitiram o controle eletrônico mais preciso da aceleração e sistema Bosch FlexStart, dando um fim ao obsoleto tanquinho de partida a frio.

Na atualização de 2012, ele recebeu sistema Flexstart da Bosch e diversas outras melhorias (Foto: PSA/divulgação)

As mudanças foram tantas que ele ganhou, aí, o novo nome EC5 (abreviatura de EC5JP4, seu código completo), além de brilhar com mais potência e torque quando abastecido com etanol: 122 cv e 16,4 mkgf, enquanto com gasolina eram mantidos sem grandes novidades os 115 cv e 15,5 mkgf. Em números e tecnologia construtiva, ele não perdia em nada para a concorrência da época, mesmo com seus 25 anos.

Entre 2011 e 2013 mudava também a linha de modelos equipados com esse propulsor: Citroën Aircross e C3 Picasso, além da nova geração do hatch C3 e do Peugeot 208 não fugiam à regra e contavam com o 1.6 EC5 nas suas gamas de versões. Em 2015, entrava nessa lista o SUV Peugeot 2008, e, três anos depois, o Citroën C4 Cactus.

O 1.6 EC5 estreou no mundo dos SUVs em 2015, movendo o Peugeot 2008 (Foto: Lucca Mendonça)

O 1.6 EC5 hoje em dia e seu futuro promissor

Depois de trocar seu parceiro câmbio automático AL4 pelo confiável Aisin de 6 marchas e perder alguns cavalinhos em prol de um melhor consumo de combustível em 2017, o 1.6 16V EC5 se manteve firme e forte até os dias atuais. Ele, de tão confiável, se tornou até a única opção disponível para a nova geração do Peugeot 208, lançada em 2020. Lembrando que ele ainda mantém todas as modernidades construtivas de antes.

De tão bom e confiável, o EC5 foi parar no cofre da nova geração do Peugeot 208 (Foto: Lucca Mendonça)

Além do hatch compacto, o EC5 também pode ser encontrado nas versões aspiradas de Peugeot 2008 e Citroën C4 Cactus, sempre com 115/118 cv de potência e 15,5/16,4 mkgf de torque (gasolina/etanol). O único modelo que esse propulsor ainda trabalha com um câmbio manual é no 208 de entrada. No restante, é sempre o automático Aisin AT6 de seis velocidades.

Na maioria das vezes, o 1.6 EC5 trabalha em conjunto com a transmissão automática Aisin AT6 de seis velocidades (Foto: Lucca Mendonça)

Falando de planos futuros, o 208 deverá ganhar motor turbo da Fiat em breve, o 2008 aguarda a chegada de sua nova geração (com mecânica inédita) e o C4 Cactus não deve demorar para se atualizar, mexendo, provavelmente, também no seu conjunto motor/câmbio. E o EC5? O que será desse valente, confiável e econômico propulsor?

Calma, ele também tem seu lugar ao sol nos planos da Stellantis, começando pelo novo Citroën C3, que chega ainda no primeiro semestre desse ano e trará versões movidas pelo 1.6 16V EC5. Um futuro sedan compacto premium e um SUV, que estão oficializados nos planos da Citroën, também usarão o EC5, bem como possíveis novidades da Peugeot.

Fim de carreira? Que nada. O EC5 vai equipar o Novo Citroën C3 e outros modelos inéditos da Stellantis (Foto: Citroën/divulgação)

Apesar dos seus quase 25 anos de Brasil e mais de 35 no mundo, a produção desse “filho sortudo” da família TU chamado EC5 (antes TU5) ainda está longe do fim. Deve se manter em produção até, pelo menos, 2026, podendo ainda receber mais melhorias e atualizações nos próximos anos.

Atributos para continuar “na ativa” não faltam, seja pelo bom nível de satisfação dos proprietários, eficiência energética, baixo consumo, manutenção sem surpresas ou, por que não, puro mérito de engenharia das marcas que o desenvolveram. Definitivamente, o 1.6 EC5 não morre tão cedo…

1.6 16V EC5: Mais de 35 anos de história, mas não morre tão cedo (Foto: PSA/divulgação)
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Tem 20 anos, cursa Publicidade e Propaganda, é filho do jornalista Douglas Mendonça, e desde que se conhece por gente, convive com carros e está envolvido no mundo automobilístico. Aprendeu a ler nas revistas automotivas, cresceu frequentando oficinas, corridas, encontros e eventos com o pai, e daí veio sua maior paixão: os carros. Lucca se tornou o braço direito do pai após sua perda de visão em 2012, ajudando na produção de matérias, reportagens, avaliações e textos. No Carros & Garagem, é responsável pela cobertura de eventos de lançamento de novos veículos, e produz avaliações, fotos e comparativos de modelos.